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A 'cidade invisível' da Venezuela que vive sob uma nuvem tóxica

A cidade de Guanta, na Venezuela - Guillermo D. Olmo/BBC News Mundo
A cidade de Guanta, na Venezuela Imagem: Guillermo D. Olmo/BBC News Mundo

Guillermo D. Olmo (@BBCgolmo) - Enviado a Anzoátegui, Venezuela

16/08/2019 18h46

Guanta está lá, embora não seja tão fácil vê-la.

Vistas a partir de El Morro, do outro lado da baía, suas luzes piscam sob uma nuvem baixa.

É uma nuvem diferente das outras, mais espessa, mais pesada.

Se você segui-la com os olhos, é possível identificar a fonte que a emite, a fábrica de cimento Pertigalete, localizada a poucos quilômetros de Guanta e na área do Parque Nacional de Mochima, um dos paraísos naturais na costa da Venezuela.

Embora ela possa surpreender estrangeiros, os cerca de 45.000 habitantes de Guanta estão acostumados a viver em um ambiente saturado com resíduos de calcário e xisto que a usina estatal usa para produzir cimento.

Como a maioria de seus vizinhos, Gerardo Serra, de 77 anos, varre a casa diariamente, por dentro e por fora.

"Aqui você tem que estar sempre limpando. Há dias em que a poeira cobre completamente a colina", diz ele, com a vassoura na mão, enquanto aponta para a montanha que fica na frente de sua casa.

"Estamos todos preocupados em viver com este problema; é uma reclamação de todas as pessoas, mas..."

Em Guanta, a poeira permeia tudo, especialmente na época do ano em que chove menos.

Árvores, cabines telefônicas, carros... Nada fica livre das partículas.

Outro vizinho, que prefere não ser identificado, mostra as telhas no pátio de sua casa, afetadas por crostas de um material quase branco. Ele diz que quando chove, os materiais que emanam de Pertigalete também caem com a água. Se não conseguir limpá-los antes que o solo seque, os restos se solidificam e permanecem ali para sempre.

Foi o que aconteceu com o carro que fica na sua garagem, coberto por sujeira que não sai mais.

Muitos na região cobrem seus veículos com capas de plástico para evitar que isso ocorra.

Problemas respiratórios

Mas há coisas que não podem ser cobertas, como os pulmões das pessoas.

No Centro de Diagnóstico Geral de El Chorrerón, o médico encarregado do serviço de plantão atende, acima de tudo, pacientes afetados por problemas respiratórios.

"Infecções respiratórias, bronquiolite e pneumonia são as (doenças) mais frequentes aqui", ele me diz.

"Esta semana tivemos entre 30 e 40 casos. Aqueles que mais sofrem são bebês e pacientes asmáticos."

Este é um dos centros de saúde na Venezuela onde médicos cubanos trabalham e pacientes esperam atendimento ao lado de retratos de Hugo Chávez, Nicolás Maduro e Fidel Castro.

Não tem sido fácil ultimamente.

"Quase não temos antibióticos", diz o médico, antes de mostrar os nebulizadores, para os quais muitas vezes não há recargas.

Problemas respiratórios têm sido uma constante nos oito anos em que ele vem trabalhando aqui. "Como a poluição é a origem do problema, nunca pudemos oferecer uma solução definitiva, mas antes, pelo menos, podíamos tratar as pessoas; agora, não dá mais", lamenta.

A BBC News Mundo tentou, sem sucesso, obter a versão das autoridades e dos responsáveis ??pela usina sobre o problema da poluição.

Nem seu dono, a estatal Venezolana de Cementos (Vencemos), nem o prefeito de Guanta, nem o Ministério da Comunicação, responsável por fornecer informações em nome do governo, responderam ao pedido de comentários.

O médico não é o único que percebeu os efeitos que aparentemente a poluição da fábrica de Pertigalete tem sobre a saúde das pessoas.

"Quando morei em Guanta, acordava todas as manhãs com uma reação alérgica", lembra Manuel Fernández, um dos conselheiros que colaboraram na preparação de um relatório com o qual o deputado da oposição Armando Armas, do Estado de Anzoátegui, denunciou a ação.

O relatório descobriu que, devido à poeira, de cada dez crianças tratadas no ambulatório de David Zambrano, o principal centro de saúde da cidade, seis estavam lá por problemas respiratórios ou de pele.

Problemas respiratórios também foram uma das causas mais frequentes de adultos consultarem um médico.

A usina pertencia à companhia mexicana Cemex até que, em 2008, o então presidente Hugo Chávez ordenou a desapropriação da empresa - sob o argumento, entre outros, de que ela não cumpriu suas obrigações de proteção ambiental.

Aqueles que a conhecem melhor são seus trabalhadores, alguns dos quais conversaram com a BBC News Mundo sob condição de anonimato. Eles dizem que vários de seus representantes sindicais foram "sequestrados" e intimidados pelos serviços de segurança.

"O problema da poluição sempre existiu, mas foi agravado desde a desapropriação devido à falta de manutenção."

Sem filtros

De acordo com os funcionários, os filtros que deviam aspirar os resíduos gerados pelo processo de produção de cimento estão danificados e não mais cumprem sua função.

Paradoxalmente, embora seis dos seus sete fornos tenham parado e a produção tenha caído ao nível mais baixo da história, a fábrica agora polui mais do que nunca.

"A tecnologia é obsoleta e está causando danos ambientais incalculáveis", denunciam os funcionários, que exigem que o governo invista na manutenção da usina para torná-la sustentável, econômica e ambientalmente.

A área em que a usina está localizada tem um alto valor ecológico. Ela fica no Parque Nacional Mochima, quase cem mil hectares de "baías, praias, ilhas, golfos e enseadas de grandes maravilhas naturais", privilegiado por uma "exuberante diversidade biológica", segundo a descrição do Instituto do Parque Nacional.

É um paraíso tradicionalmente visitado por turistas de todo o país em suas férias, embora a crise atual na Venezuela tenha reduzido drasticamente o fluxo de visitantes.

'Nunca arrumaram'

Manuel Fernández diz que "a empresa não só polui o ar, mas também os aquíferos", uma queixa destacada por Antonio Oteiza, presidente da associação Movimento Ecológico. "Há muito tempo já provamos que o pó cobre os corais", afirma.

O problema, diz Fernández, já chegou a outras cidades, como a vizinha Gran Barcelona, ??uma das maiores concentrações urbanas da Venezuela, onde muitas comunidades vivem da pesca.

De acordo com o gabinete do deputado Armas, que agora vive fora do país por causa do que seus colaboradores descrevem como "perseguição do governo", em 2011 uma denúncia foi feita à Assembleia Nacional, que ordenou um estudo sobre o impacto ambiental.

Isso nunca se tornou realidade, tampouco as diretrizes dadas em 2014 pelo Ministério do Meio Ambiente para reduzir os danos causados pela usina, nem as repetidas promessas das autoridades locais de alocar recursos da estatal petrolífera PDVSA.

Muitos em Guanta acreditam que é mais provável que a fábrica acabe se tornando inoperante antes que os problemas que a tornaram tão prejudicial sejam remediados.

A mulher que não quis se identificar resume esse sentimento: "Eles não vão consertar. Se quisessem, já teriam feito isso".

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