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Crise na Venezuela: qual é o papel da China na indústria de petróleo do país

Guillermo D. Olmo (@BBCgolmo) - Da BBC News Mundo na Venezuela

25/08/2019 14h39

Pequim é parceiro preferencial de Caracas desde época do ex-presidente Hugo Chávez; sanções dos EUA podem colocar em risco investimentos importantes para governo de Nicolás Maduro.

Todos os dias, ao amanhecer, dezenas de chineses e outros asiáticos chegam de ônibus às instalações da refinaria de Puerto La Cruz, no estado venezuelano de Anzoátegui.

Sua presença constante nessa enorme instalação, cuja expansão o governo venezuelano espera que relance sua indústria de petróleo, é um exemplo do peso da aliança com a China no setor mais estratégico da economia venezuelana.

Quando, em setembro de 2018, o presidente venezuelano Nicolás Maduro viajou para a China, disse que as relações de seu país com a superpotência asiática eram "sólidas e robustas".

A China tem sido um aliado vital para o governo venezuelano, junto com a Rússia, seu principal apoiador internacional e um dos pilares de sustentação de Maduro. Os Estados Unidos, a União Europeia e a maioria dos países latino-americanos consideram Maduro um governante ilegítimo, o que os levou a apoiar o líder da oposição, Juan Guaidó, como "presidente interino".

No complexo de Puerto La Cruz, os enormes painéis com as bandeiras dos dois países lembram a população da importância que os investimentos chineses têm para a Venezuela.

Mas, nos últimos tempos, dúvidas surgiram sobre a continuidade desses investimentos.

Ameaça de sanções

As recentes sanções impostas pelos Estados Unidos contra o governo de Maduro são obstáculo para a manutenção da colaboração entre a China e a Venezuela.

Em sua estratégia para pressionar cada vez mais Maduro a forçar sua saída do poder, o governo Trump impôs, por exemplo, medidas que implicam potenciais consequências negativas para quem negociar com a PDVSA.

"As empresas chinesas estão sendo afetadas porque têm que pagar seus fornecedores em dólares, e agora os bancos internacionais colocam muitos obstáculos para processar qualquer transferência que tenha sua origem no negócio de petróleo venezuelano", disse um técnico de uma multinacional petroleira, que pede anonimato.

Várias informações publicadas recentemente indicaram que a petroleira estatal chinesa havia cancelado o embarque, planejado para o mês de agosto, de 5 milhões de barris de petróleo venezuelano, o que foi interpretado como uma tentativa de evitar as sanções. A empresa não comentou as notícias.

Se confirmado, seria um revés grave para uma economia dependente das exportações de petróleo e passando agora por uma crise considerada uma das piores da história.

Como tudo começou?

Além da aparente afinidade ideológica entre os dois países e sua rivalidade com os Estados Unidos, a relação estratégica entre Caracas e Pequim teve durante anos no petróleo venezuelano o combustível que a manteve bem lubrificada.

Foi o falecido presidente Hugo Chávez, fundador e herói da chamada "Revolução Bolivariana", que reorientou a política externa da Venezuela para o eixo formado pela China e pela Rússia.

Chávez queria transformar a Venezuela em uma potência regional e afastá-la da influência dos Estados Unidos. Para isso, tanto a aliança com a China quanto a exploração dos recursos petrolíferos do país foram fundamentais, com os quais o militar, a essa altura já presidente venezuelano, contava para financiar os generosos programas de assistência social. Estes, segundo a maioria dos observadores, eram essenciais para sua popularidade e seus repetidos triunfos eleitorais.

Para a China, foi uma oportunidade de avançar sua estratégia de investimento nos países em desenvolvimento e, assim, ela colocou grandes quantidades de capital em joint ventures com a estatal Petróleos de Venezuela (PDVSA), fórmula estabelecida pelo governo para canalizar a participação estrangeira na indústria petrolífera da Venezuela.

"O modelo de colaboração era o mesmo aplicado a empresas russas e outras nacionalidades, e envolvia pagar em dinheiro pela prestação de serviços", diz Antonio de la Cruz, analista especializado no setor de petróleo do centro de pesquisa Inter-American Trends.

Convencido de ter uma das maiores reservas comprovadas de petróleo bruto do mundo, Chávez abriu as portas para as empresas de energia chinesas, que, juntamente com a russa Rosneft, foram as que, segundo especialistas do setor, ocuparam mais espaço nesse novo cenário venezuelano, até então dominado por empresas americanas e europeias.

"Chávez decidiu dar-lhes direito à exploração do Cinturão Petrolífero do Orinoco como uma maneira de pagar antecipadamente pelos empréstimos chineses", acrescenta De la Cruz.

É nessa área, localizada perto do rio Orinoco, que a maior parte das reservas de petróleo da Venezuela está concentrada.

A importância do cinturão de Orinoco

A maior parte da atividade chinesa concentrou-se principalmente na Sinovensa, uma joint venture formada com a PDVSA pela National Petroleum Corporation of China (CNPC), companhia estatal de energia.

De acordo com fontes do setor, a CNPC forneceu os recursos técnicos e humanos para converter o pesado petróleo venezuelano no chamado petróleo Merey, muito mais leve, que é o que a maioria dos mercados asiáticos consome.

É a isso que o pessoal e a maquinaria da refinaria de Puerto La Cruz se dedicam.

Embora existam outras empresas mistas com participação chinesa, como a Petrozumano, a Sinovensa é fundamental para a PDVSA, especialmente nestes tempos difíceis, quando, segundo dados da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), a produção de petróleo bruto da Venezuela despencou para uma baixa recorde de 734.000 barris por dia.

Esse número está muito longe dos quase dois milhões diários de 2017, redução drástica que reflete a magnitude da crise econômica que o país sul-americano está sofrendo, já que o petróleo responde por cerca de 96% da moeda que entra o país.

Os problemas da petroleira estatal venezuelana levaram a uma escassez generalizada de gasolina em grande parte de um país que é extremamente rico em petróleo e, em muitos lugares, é preciso esperar em longas filas ou procurar o mercado negro para obtê-lo.

A Sinovensa explora o chamado bloco Carabobo, uma das maiores áreas de extração do cinturão.

Em um comunicado divulgado em julho passado, a PDVSA disse que a Sinovensa espera aumentar sua produção dos atuais 105 mil barris para 165 mil, embora nem todos estejam convencidos de que ela atingirá a meta.

"Isso exige um investimento muito forte, e não acho que a China esteja disposta a fornecer o dinheiro necessário na situação de instabilidade política em que a Venezuela se encontra", diz De La Cruz.

O técnico de uma empresa internacional de energia que pediu para falar em anonimato disse à BBC Mundo que o declínio na produção e o crescente endividamento da PDVSA com seus parceiros chineses levaram a uma situação na qual as empresas asiáticas, inclusive as de capital privado, têm condições inimagináveis antes da crise.

"Um presente foi dado à Kerui Petroleum no estado de Anzoátegui, porque é um campo que será muito fácil de tornar-se produtivo novamente."

Dación foi um campo explorado pela italiana ENI, até que o governo de Chávez decretou sua expropriação.

"A ENI estava produzindo 60 mil barris por dia, mas agora, devido à falta de investimento e porque as bombas elétricas submersíveis com as quais opera foram danificadas e não foram substituídas, ela não produz mais do que 1.500".

A embaixada chinesa na Venezuela não respondeu a um pedido de comentários da BBC News Mundo (serviço em espanhol da BBC). Nem o Ministério da Comunicação venezuelano.

Presença coreana

Foi também com capital e pessoal chinês, além de empresas da Coreia do Sul, que foi lançado o chamado projeto Deep Conversion, na refinaria de Puerto La Cruz, em 2017, que deveria ser ampliado e reformado para servir para processar e tornar mais leve o petróleo do Cinturão do Petróleo Orinoco.

Os trabalhadores da refinaria disseram à BBC News Mundo que, anos após o início das obras, eles estão longe dos objetivos e que o lado chinês cometeu muitas violações em relação à PDVSA.

"A dívida da PDVSA com seus parceiros chineses está aumentando e os embarques que são enviados, cada vez menores", diz o técnico, que não quer dar seu nome.

No entanto, a agência Bloomberg informou recentemente que a Wison Engineering, uma empresa sediada em Xangai, havia sido contratada pelo estado venezuelano para realizar reparos em suas refinarias.

A Wison Engineering é uma empresa especializada em engenharia química e construção que está imersa em um processo de expansão internacional e se beneficiou do programa de infraestrutura conhecido como "a Nova Rota da Seda", promovido por Pequim.

Mas a presença da Wison Engineering na Venezuela não é nova. De fato, vem trabalhando há anos na expansão da refinaria de Puerto La Cruz, a mesma em que, segundo várias fontes consultadas, os prazos e condições de execução não foram cumpridos.

"Esse é um projeto antigo que não será iniciado se as empresas chinesas, que são tão capitalistas quanto os EUA, não tiverem garantia de pagamento", disseram fontes familiarizadas com a situação.

A empresa chinesa não respondeu ao pedido de comentários da BBC News Mundo.

Outros impactos

De la Cruz, no entanto, acredita que "quem é realmente afetado pelas sanções são as empresas ocidentais, que operam principalmente através do sistema financeiro dos EUA. Para os russos e os chineses há riscos, mas menos."

Outras fontes indicam que as empresas russas e chinesas estão tentando, sem muito sucesso, que seus fornecedores aceitem pagamentos em rublos e em yuans.

A gigante Chevron e seis outras empresas americanas obtiveram uma isenção especial do Departamento do Tesouro no âmbito das sanções e poderão continuar suas atividades até outubro.

Elas podem ter que sair depois disso.

As empresas chinesas terão, a essa altura, se livrado de vários concorrentes no mercado venezuelano.

O que muitos se perguntam, dado o ritmo da queda na produção da Venezuela e a situação econômica do país, é o que restará desse mercado.


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