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Inelegível, Lula será 'megafone da oposição' a Bolsonaro, dizem petistas

9.nov.2019 - Ex-presidente Lula se dirige a apoiadores em São Bernardo do Campo (SP) - Thiago Bernardes/FramePhoto/Estadão Conteúdo
9.nov.2019 - Ex-presidente Lula se dirige a apoiadores em São Bernardo do Campo (SP) Imagem: Thiago Bernardes/FramePhoto/Estadão Conteúdo

Leandro Machado e Felipe Souza

Da BBC News Brasil em São Paulo

09/11/2019 19h44

O discurso do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que atacou Jair Bolsonaro (PSL) e convocou a militância e a oposição a se mobilizarem, reverberou a estratégia que apoiadores do petista já mencionavam nos bastidores do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, onde ele foi recebido neste sábado (9/11), um dia após ser libertado.

Lula saiu da prisão em Curitiba no fim da tarde da última sexta-feira, depois de 19 meses, após uma decisão tomada no dia anterior pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que vetou a chamada execução antecipada da pena —impedindo que réus fossem presos após julgamento em segunda instância e antes do esgotamento de todos os recursos possíveis.

Para aliados do ex-presidente, ele sai da prisão para ser um "megafone" e um "camisa 10" da oposição ao atual governo —embora tenha sido solto, Lula segue inelegível.

No entanto, Bolsonaro afirmou também neste sábado que ele e seus aliados não vão "dar espaço e contemporizar com presidiário".

O que disse Lula em seu discurso no ABC?

Neste sábado, Lula discursou diante uma multidão em São Bernardo do Campo. "Tem gente que fala que precisa derrubar o Bolsonaro. Ele foi eleito democraticamente, então, nós aceitamos o resultado da eleição. Mas ele foi eleito para governar para o povo brasileiro e não para os milicianos do Rio de Janeiro. A gente não pode permitir que milicianos acabem com esse país", afirmou.

"[Bolsonaro] tem que explicar onde que está o [Fabrício] Queiroz, ele tem que explicar como ele construiu um patrimônio de 17 casas", falou o ex-presidente, se referindo ao ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) investigado sob suspeita de desviar recursos públicos.

Lula criticou a agenda econômica do governo Bolsonaro, em especial os projetos de privatização e a proposta de congelamento de reajustes acima da inflação para o salário mínimo por dois anos.

O ex-presidente chamou o ministro da Economia, Paulo Guedes, de "ministro demolidor de sonhos, destruidor de empregos" e relativizou ainda o benefício da redução da taxa Selic, que se encontra em mínima histórica.

Lula afirmou ainda que a esquerda precisa "fazer mais" e que não pode apenas "resistir", mas que precisa "partir para o ataque" para conquistar as urnas em 2022.

"Se a gente se organizar direitinho, a chamada esquerda, de que o Bolsonaro tem tanto medo, vai derrotar a ultra-direita", disse o ex-presidente, que afirmou que voltará a percorrer o país.

'Lula vai ser um megafone'

"A fala do Lula caminha para ser uma fala ao estilo (Nelson) Mandela, de reconstrução", diz Gilberto Carvalho, ex-ministro-chefe da Secretaria-geral da Presidência da República durante os governos do PT, à BBC News Brasil.

Segundo Carvalho, o discurso de Lula daqui para frente "vai se concentrar nos pobres que estão fora do orçamento, e na defesa do patrimônio nacional, que está sendo espoliado".

Ele repete a expressão citada por outros companheiros de partido: "O Lula vai atuar como um megafone".

Para o dirigente, além da pauta econômica, essa "força no discurso" de Lula também deve ser usada também para mobilizar ainda mais a juventude de esquerda contra o governo Bolsonaro.

"O que a gente não pode é achar que essa juventude, que é politizada mas não partidarizada, vai se encaixar nas estruturas do PT. Não tenho a resposta sobre como isso deve ser feito."

O presidente Bolsonaro, que vinha mantendo silêncio sobre a libertação de Lula desde quinta-feira, comentou brevemente o assunto na manhã de sábado.

"A grande maioria do povo brasileiro é honesto, trabalhador, e não vamos dar espaço e contemporizar com presidiário", disse. "Ele está solto, mas está com todos os crimes dele nas costas."

Lula estava preso desde abril de 2018, após ser condenado a mais de oito anos de prisão em segunda instância pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro pelo caso do tríplex do Guarujá. Mas o processo ainda tem recursos pendentes, ou seja, não transitou em julgado, o que levou à sua soltura após a decisão do STF na última quinta-feira.

O ex-presidente também já foi condenado em primeira instância a 12 anos e 11 meses de prisão por corrupção ativa e passiva e lavagem de dinheiro, ao ser considerado culpado de receber propinas das construtoras OAS e Odebrecht por meio de reformas em um sítio em Atibaia, no município do interior paulista.

Ele ainda é réu em mais sete processos e esteve envolvido em outros dois casos: em um deles foi absolvido, após ser acusado de crime de obstrução de Justiça, e, em outro, a denúncia rejeitada por falta de provas.

Com Lula, a oposição muda de patamar, diz Gleisi

A deputada federal Gleisi Hoffman, presidente do PT, afirma que, a partir da soltura do ex-presidente, a oposição a Bolsonaro vai se reorganizar. "O Lula tem a voz forte, que reverbera. Ele com a maioria dos brasileiros. A partir de hoje, temos um novo patamar de oposição", diz.

Do outro lado, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), tuitou que quem vai ser reorganizar é o antipetismo. "A revolta e indignação da sociedade com a impunidade volta à tona novamente com a soltura de Lula. Isso vai criar uma atmosfera em que novamente deixaremos pequenas diferenças de lado e ocorrerá uma união em torno do antipetismo", disse.

O ex-senador petista Lindberg Farias afirma que o ex-presidente e o PT, passada a campanha pela libertação de Lula, vão se concentrar justamente neste aspecto econômico do governo de Bolsonaro. "O Bolsonaro muda de agenda todos os dias. Lula vai falar da economia, sobre emprego e a vida do povo. Isso ele sabe fazer", diz.

Para Farias, Lula é o novo "camisa 10" da oposição. "Ele é o grande líder da oposição, que está batendo muito cabeça. Agora, não : ele vai nos dirigir, porque é nosso tenente, nosso capitão."

O deputado federal Alexandre Padilha (SP), ex-ministro da Saúde da Dilma Rousseff e cotado para a candidatura do PT à Prefeitura de São Paulo em 2020, afirma que Lula deve percorrer o país para se contrapor ao que classifica como uma postura antidemocrática do atual governo.

"Vocês vão ver o Lula construindo a frente necessária para a defesa da democracia e para estancar qualquer iniciativa desse estado policial e judicial", diz Padilha à BBC News Brasil.

Os petistas ainda evitam colocar Lula como um possível sucessor de Bolsonaro nas próximas eleições presidenciais. "2022 ainda está muito longe", afirma Carvalho.

Até porque o ex-presidente, mesmo solto, está inelegível em virtude de sua condenação no caso do tríplex. Em vigor desde 2010, a Lei da Ficha Limpa determina a inelegibilidade por oito anos após o cumprimento da pena de políticos que tenham sido condenados em processos criminais em segunda instância.

Mas há uma esperança no PT de que os processos contra Lula frutos da operação Lava Jato sejam anulados. A defesa do petista afirma que a atuação do ex-juiz e atual ministro da Justiça, Sergio Moro, na ação foi parcial. Moro refuta essa acusação.

Questionado se a próxima campanha eleitoral começou hoje, o ex-candidato à presidência Fernando Haddad responde rapidamente: "Hoje, começou a democracia".

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