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'Graças a uma selfie, descobri que minha mãe me roubou quando era bebê'

Após enfrentar difícil encruzilhada emocional, Miché Solomon optou em esperar por volta de "mãe", Lavona - Mpho Lakaje
Após enfrentar difícil encruzilhada emocional, Miché Solomon optou em esperar por volta de 'mãe', Lavona Imagem: Mpho Lakaje

14/02/2020 08h14

Em abril de 1997, uma mulher vestida com uniforme de enfermeira saiu de um hospital da Cidade do Cabo, na África do Sul, carregando um bebê de três dias. A mãe dele dormia. E foi por causa de uma selfie, tirada 17 anos depois, que a criança roubada descobriu sua verdadeira identidade.

O incrível caso é contado em um podcast da série Que História!, da BBC News Brasil.

A história começa em janeiro de 2015, no primeiro dia das aulas em uma escola secundária na Cidade do Cabo, a Zwaanswyk High School. Miché Solomon, de 17 anos, começava o seu último ano na escola.

Logo que chegou à escola, seus colegas de classe vieram lhe falar de uma nova aluna, Cassidy Nurse, três anos mais jovem.

O motivo? Na opinião deles, Miché e Cassidy eram praticamente idênticas.

Como ouvir o podcast

A primeira temporada de Que História!, produzida e apresentada por Thomas Pappon, terá dez episódios, que serão disponibilizados semanalmente nas principais plataformas de podcast, como Apple, Spotify, Overcast e Castbox.

Além dessas há várias plataformas e apps que oferecem assinaturas do podcast — o que permite que cada novo episódio seja baixado automaticamente em seu dispositivo ou computador assim que for disponibilizado (toda sexta-feira, às 6h em Brasília).

Há também apps leitores de códigos RSS.

Alguns links para o 'Que História!' em plataformas de podcast:

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Miché não deu muita atenção aos comentários, mas tudo mudou quando cruzou com Cassidy no corredor mais tarde. Miché diz ter sentido uma conexão instantânea inexplicável.

"Ela era realmente a minha cara. Houve uma conexão instantânea", contou Miché ao programa Outlook, da BBC. "E à medida que nós fomos ficando mais próximas, eu passei a ter um senso de proteção em relação a ela. Era como se a conhecesse.... (foi) um pouco assustador, até."

Apesar da diferença de idade, Miché e Cassidy começaram a passar muito tempo juntas.

"Ela me ligava, eu dizia hey, baby girl, ela me ligava, e dizia hey, big sister. Eu chegava a pentear o cabelo dela, passar brilho... E meus amigos diziam, 'vocês têm certeza de que não foram adotadas? Ela é igual a você'. E muita gente perguntava, 'vocês não são irmãs'? 'Só se for em alguma outra vida', eu dizia."

Miché via isso tudo como uma grande coincidência. Ela não tinha razão nenhuma para achar que pudesse ter sido adotada. Teve uma infância feliz, morando com o pai, Michael, e com a mãe, Lavona, de quem era muito próxima.

"Minha mãe me chamava de princesa. Fazia roupas e vestidos para mim. No Dia das Mães, eu levava o café da manhã para ela, e ela chorava de emoção. Éramos muito felizes. A vida era boa para mim, era uma vida normal."

Mas essa normalidade estava com os dias contados. Por causa de uma foto.

Bebê roubado

"Lembro de um dia de competições esportivas na escola. Eu era atleta. Nesse dia, eu e Cassidy tiramos uma selfie juntas."

Chegando a suas respectivas casas, Miché e Cassidy mostraram a foto para suas famílias. Lavona, a mãe de Miché, comentou sobre a semelhança das meninas.

Michael, o pai de Miché, disse que reconheceu a nova amiga de sua filha ? o pai de Cassidy tinha uma loja de eletrodomésticos onde às vezes ele fazia compras.

Mas os pais de Cassidy, Celeste e Morne Nurse, não se desgrudaram da fotografia. Disseram a Cassidy que tinham uma pergunta para Miché, e quando as duas garotas voltaram a se encontrar, Cassidy finalmente abriu o jogo: "Você nasceu em 30 de abril de 1997?"

"Eu disse: 'Por quê? Você está me perseguindo no Facebook?'", relembra Miché.

Cassidy garantiu a Miché que não a estava perseguindo, só queria saber quando Miché nascera. Para a surpresa dela, Miché respondeu: "Sim, nasci em 30 de abril de 1997".

Semanas depois, enquanto assistia à aula de matemática, Miché foi convocada para a sala do diretor, onde duas assistentes sociais estavam esperando por ela. Foi quando Miché ouviu pela primeira vez a história de uma menina de três dias chamada Zephany Nurse, que havia sido sequestrada no Hospital Groote Schuur, na Cidade do Cabo, há 17 anos, e que nunca fora encontrada.

Miché ouviu a história, sem entender por que estava ali. Em seguida, as assistentes sociais explicaram que havia fortes evidências de que Miché poderia ser a criança que havia sido roubada.

Na tentativa de esclarecer o que considerava um mal-entendido, Miché explicou que não havia nascido no Hospital Groote Schuur e sim no Hospital Retreat, a 20 minutos de carro dali. Era isso que estava escrito em sua certidão de nascimento, disse ela.

No entanto, as assistentes sociais responderam que não havia nenhum registro de seu nascimento lá.

Apesar de achar que tudo não passava de uma grande confusão, Miché concordou em fazer um teste de DNA.

"Acreditava muito na mãe que me criou - ela nunca mentiria para mim, principalmente sobre quem eu sou e de onde eu venho", contou Miché. "Então, eu tinha certeza de que o teste de DNA daria negativo".

Mas, para a sua surpresa, os resultados confirmaram as suspeitas: Miché Solomon e Zephany Nurse, o bebê roubado do Hospital Groote Schuur em 1997, eram a mesma pessoa.

"Fiquei em estado de choque", diz Miché. "Tentei me manter tranquila, mas só ficava me perguntando o que aconteceria daqui pra frente."

A história do bebê roubado, agora uma jovem quase na vida adulta, sendo encontrada quase por acaso, depois de quase duas décadas, foi destaque no noticiário da África do Sul e de todo o mundo.

A partir daí, a vida de Miché mudou completamente.

As autoridades disseram que Miché não poderia voltar para casa — em três meses, ela completaria 18 anos e poderia tomar suas próprias decisões. Mas, naquele momento, tinha que ficar em uma casa segura.

Pouco depois, mais um choque: a adolescente soube que Lavona Solomon, a pessoa que sempre achou ser sua mãe, havia sido presa.

"Aquilo me deixou arrasada", disse Miché. "Era minha mãe, a mãe que eu tive por 17 anos. Eu estava com raiva, eu precisava dela. Houve momentos em que sentia vontade de fugir com ela. Simplesmente não conseguia compreender que eu pertencia a outra pessoa."

Miché estava na delegacia quando o marido de Lavona, Michael — o homem que ela considerava seu pai — foi interrogado pela polícia.

"Pude ver o estresse no rosto dele, pude ver seus olhos vermelhos e fiquei com muito medo. Meu pai foi minha rocha, meu herói, meu exemplo. Mas ali, o policial, com aquelas perguntas e ameaças de prisão, fazia meu pai parecer uma criança pequena. Meu pai dizia: 'Não, eu não fiz isso. Miché é minha filha — como ela pode não ser minha filha? Eu não participei disso.'"

A polícia nunca encontrou provas de que Michael Solomon soubesse que Miché havia sido roubada de seus pais biológicos, e ele foi liberado. Em sua defesa, ele alegou que Lavona estava grávida, e que não passou pela cabeça dele que o bebê Miché não seria dela. As autoridades achavam que Lavona havia sofrido um aborto espontâneo e que teria, então, roubado a menina e fingido que havia dado à luz.

Lavona seria posteriormente julgada, acusada de sequestro e falsidade ideológica.

E os pais biológicos?

Embora Celeste e Morne Nurse tenham tido mais três filhos, eles nunca pararam de procurar sua primeira filha, Zephany, e comemoravam seu aniversário todos os anos —mesmo depois de se divorciarem.

No entanto, durante todo esse tempo, sua filha crescia por perto. A casa dos Solomons fica a apenas 5 km da dos Nurses — quando criança, Miché corria pelo campo em frente à casa dos pais biológicos, enquanto Michael jogava futebol.

Agora, após 17 anos, as orações da família Nurse foram atendidas. O encontro com Miché foi marcado em uma sala de delegacia, e seria acompanhado por assistentes sociais.

"Eles me abraçaram, me apertaram e começaram a chorar", diz.

Mas Miché não se sentia confortável.

"Fiquei pensando: 'Tenho que entender o sofrimento dessas pessoas. É triste, mas não sentia nada, não senti falta deles todo esse tempo".

Miché estava em uma encruzilhada emocional. De um lado, estavam seus pais biológicos, com os quais não tinha nenhum tipo de ligação afetiva e que queriam recuperar o tempo perdido. Do outro, a mulher que chamava de mãe, e que estava presa, prestes a responder por seus crimes na Justiça.

O julgamento de Lavona Solomon no tribunal superior da Cidade do Cabo começou em agosto de 2015. Tanto Miché quanto seus pais biológicos estavam lá para ouvir o testemunho de Lavona.

Durante o julgamento, Lavona Salomon negou ter cometido o crime. Falou sobre sua vontade de ser mãe, seus vários abortos espontâneos e seu desespero de adotar um filho. Lavona disse que recebeu Miché de uma mulher chamada Sylvia, que estava fazendo tratamento de fertilidade. Sylvia teria dito a Lavona que o bebê pertencia a uma jovem que não estava interessada em mantê-lo e queria que o bebê fosse adotado. Mas não havia evidências de que Sylvia existisse.

Além disso, quase duas décadas após o incidente, uma testemunha identificou Lavona como a mulher que diz ter visto vestida de enfermeira levando Zephany do hospital onde Celeste dormia.

O tribunal concluiu que Lavona era culpada.

Em 2016, Lavona Salomon foi condenada a 10 anos de prisão por sequestro, fraude e violação do Estatuto das Crianças.

Também foi criticada pelo juiz por não demonstrar nenhum remorso durante o julgamento.

"Senti como se tivesse morrido", diz Miché. "Pensava comigo mesma: 'Como vou lidar com isso? Como vou passar a vida sem a mãe que tive todos os dias da minha vida?'."

Visita à prisão

Alguns meses depois, Miché visitou Lavona na prisão e pôde falar com ela pela primeira vez desde que recebeu a visita das assistentes sociais em sua escola.

"Quando a vi pela primeira vez, um vidro nos separava. Não pude tocá-la", diz Miché. "Vi minha mãe com uniforme de prisioneira e isso partiu meu coração. Chorei sem parar."

Miché realmente queria saber a verdade, descobrir o que havia acontecido no dia em que Lavona a levara da mãe no hospital.

"Disse a ela: 'Saber que não sou seu sangue — que realmente vim de outra pessoa, e que você lhes roubou da possibilidade de me criar, mudando todo o meu destino — me machuca. Como posso acreditar em sua palavra quando você mentiu para mim, dizendo que sou sua filha? Você quebrou minha confiança. Tem que me falar a verdade se quiser continuar a me ver."

"E ela respondeu: 'Um dia eu vou te contar.' Ela diz que não me roubou, mas acho que está mentindo."

No entanto, Miché diz que não guarda rancor.

"Perdoar traz tanta cura para o seu coração", diz Miché. "A vida deve continuar. Ela sabe que eu a perdoo, e ela sabe que eu ainda a amo."

Já se passaram mais de quatro anos desde que Miché descobriu a verdade sobre sua identidade. Quando completou 18 anos, no final de abril de 2015, chegou a considerar morar com um de seus pais biológicos, mas acabou mudando de ideia.

"Meus pais biológicos se divorciaram", diz Miché. "Então, tomei a decisão óbvia e a que mais me traria estabilidade — voltar a morar com Michael, que era meu espaço seguro, que era minha casa".

Miché teve dificuldades para construir um relacionamento com sua família biológica e confessa que às vezes sentia que os odiava por terem levado sua "mãe" embora.

Ela ainda visita Lavona na prisão em Worcester, a cerca de 120 km de onde vive, mas é uma longa viagem, especialmente agora que tem dois filhos.

Lavona Solomon deve ganhar liberdade em seis anos e Miché diz que muitas vezes deseja "acelerar" o tempo. Ela ainda está morando na casa da família, esperando a mãe voltar.

Talvez surpreendentemente, Miché Solomon tenha escolhido manter o nome com o qual foi criada, e não com o que recebeu quando nasceu. Mas, de alguma forma, apesar da montanha-russa psicológica de descobrir que a mulher que a criou realmente a roubou, ela de alguma forma fez as pazes com ambas as suas identidades.

"Acho que odiei Zephany no começo", diz Miché.

"Ela veio com tanta força, um convite tão indesejado, trazendo tanto sofrimento e tanta dor. Mas Zephany é a verdade e Miché, a menina de 17 anos que eu era, era uma mentira. Então eu consegui equilibrar os dois nomes. Você pode me chamar de Miché Zephany."

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