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Como o crime organizado brasileiro se apoderou das principais rotas do tráfico na América do Sul

Menina brinca em quadra com picho do PCC em Pedro Juan Caballero, no Paraguai - 29.jan.2020 - Marina Garcia/UOL
Menina brinca em quadra com picho do PCC em Pedro Juan Caballero, no Paraguai Imagem: 29.jan.2020 - Marina Garcia/UOL

José Carlos Cueto - BBC News Mundo

07/03/2020 15h22

Os sangrentos assassinatos de maio de 2006 em São Paulo deixaram evidente o poder do Primeiro Comando da Capital (PCC), a maior organização criminosa do Brasil.

Em 12 de maio daquele ano, o PCC orquestrou diversas rebeliões nas prisões, atacou delegacias e batalhões da Polícia Militar. Os ataques deixaram ao menos 30 agentes de segurança mortos.

São Paulo parou. Um toque de recolher foi decretado, e o caos tomou conta da metrópole. Mais de 500 civis morreram em meio a confrontos entre a polícia e a facção.

Em 2011, um estudo feito em conjunto pela Universidade Harvard e a Global Justice, um grupo de defesa dos direitos humanos no Brasil, disse que os ataques do PCC foram uma reação à "corrupção oficial" da polícia e que muitas mortes de civis foram causadas pela brutalidade das autoridades.

O poder do PCC dentro das prisões era conhecido, mas foi a primeira vez que a facção demonstrou sua força e espalhou a violência nas ruas com aquela dimensão.

Hoje, quase 15 anos após esses eventos e quase 30 desde sua criação nos anos 1990, o PCC não é apenas hegemônico no Brasil mas também na América do Sul.

Essa avaliação está presente tanto em relatórios quanto na opinião de acadêmicos consultados pela BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC.

O PCC e outras organizações criminosas poderosas, como Comando Vermelho (CV) e a Família do Norte (FDN), primeiro controlam as prisões e depois o comércio de drogas em vários Estados brasileiros. Então, eles expandem seu poder para fora do Brasil e dominam várias rotas do narcotráfico, seu negócio mais lucrativo.

Tudo graças à fragmentação do comércio de drogas e ao desaparecimento dos grandes cartéis dos anos 1980, à dificuldade dos Estados em controlar o narcotráfico e ao aumento da população carcerária, que alimentou as fileiras do PCC e de outras organizações criminosas no Brasil.

Recrutamento na prisão

O PCC nasceu no início dos anos 1990 em uma prisão de segurança máxima em São Paulo. Surgiu com o objetivo de melhorar as más condições que os prisioneiros alegavam sofrer.

"A criação do PCC melhorou a qualidade de vida de muitos prisioneiros, que encontraram proteção pagando uma taxa mensal", disse Carolina Sampó, coordenadora do Centro de Estudos Transnacionais do Crime Organizado, à BBC.

Da mesma forma, o CV, a segunda organização mais poderosa do Brasil, foi criado na década de 1970.

"Progressivamente, esses grupos aumentaram suas fileiras. Isso contribuiu com o aumento da população prisional e a deterioração das condições na prisão. O PCC e o CV se tornaram uma garantia de segurança e bem-estar", disse à BBC Mundo Marcos Alan Ferreira, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal da Paraíba.

Sampó acrescenta que uma política "errada" do governo federal também incentivou o crescimento desses grupos.

"Os presos foram transferidos para outras prisões para conter o crime, e tudo o que conseguiram foi multiplicar o problema", disse a pesquisadora.

Com mais de 750 mil prisioneiros, o Brasil tem a terceira maior população carcerária do mundo, logo atrás dos Estados Unidos e da China, segundo dados do Departamento Penitenciário Nacional.

Depois de deixarem as prisões, os membros desses grupos se estabeleceram na periferia das cidades mais populosas. O Comando Vermelho se estruturou principalmente no Rio de Janeiro, e o PCC em São Paulo, embora hoje tenha membros em quase todos os Estados.

Segundo um relatório escrito por Sampó para o Elcano Royal Institute, em 2019, o PCC tem mais de 29 mil membros, dos quais cerca de 7 mil estão presos.

Gradualmente, eles dominaram territórios, e isso levou à proliferação do narcotráfico. Outros negócios desses grupos incluem o contrabando de cigarros e produtos eletrônicos. Mas a maioria de seus fundos vem da venda de drogas.

"O grau de pobreza e desigualdade da sociedade brasileira também incentivou a penetração desses grupos. Em muitas áreas carentes, eles não são vistos com maus olhos. De certa forma, eles inclusive organizaram os bairros e contribuem para a diminuição da violência", diz Ferreira.

No entanto, embora tenham estabelecido pactos de não violência, tanto o CV quanto o PCC e outras facções criminosas menores enfrentaram guerras violentas para adquirir maior controle territorial e favorecer suas redes de tráfico de drogas.

Nessas guerras, o PCC está vencendo. "Sua ambição permitiu sua expansão tanto dentro como fora do Brasil", diz Sampó.

Negócios transnacionais

Vários relatórios indicam que o PCC tem hoje o domínio absoluto da "rota caipira", que sai do Peru e da Bolívia, passa pelo Paraguai e termina no Brasil.

Peru e Bolívia são produtores proeminentes de folha de coca, e o Paraguai, de maconha.

O mercado brasileiro de drogas é muito lucrativo para essas organizações, de acordo com acadêmicos consultados pela BBC Mundo. Relatórios da Organização dos Estados Americanos e das Nações Unidas indicam que é um dos países líderes em uso de cocaína e maconha no mundo.

Além disso, sua extensão é responsável por quase metade da América do Sul, cujo longo litoral serve como porto de partida para a droga ser enviada para outros continentes, além de suas vastas florestas e fronteiras que dificultam o trabalho das autoridades.

"Esses grupos criminosos são autênticas empresas. Sua expansão tem motivos econômicos, reduzindo custos. Eles estão estabelecidos no Paraguai e na Bolívia e, em menor grau, no Peru, porque é lá onde é produzida (a droga)", explica Sampó.

A pesquisadora acrescenta que a fragmentação do negócio de drogas no continente favoreceu o papel do CV e do PCC.

"O desaparecimento dos cartéis de Medellín e Cali deixou espaço para outros atores, menos piramidais, cuja organização é horizontal e complexa e, portanto, mais difícil de rastrear", continua Sampó.

"O PCC leva a droga ao longo dessa rota caipira e a deixa em portos brasileiros, onde as máfias europeias a levam ao continente, à África e até à Ásia", explica Ferreira.

A penetração em outros países vizinhos não só serviu na busca por recursos logísticos, mas também humanos.

Na Bolívia e no Peru, foi estabelecido um contato direto com os plantadores de coca, segundo Sampó.

O PCC, uma vez dentro de outros países, recrutou criminosos locais, especialmente no Paraguai, "um país com uma grande população carcerária brasileira", disse a pesquisadora.

Infiltrados

Em janeiro de 2020, uma fuga de 75 presos ligados ao PCC por meio de um túnel de uma prisão em Pedro Juan Caballero, na fronteira do Paraguai com o Brasil, ganhou várias manchetes na imprensa internacional.

Desses 75, 40 eram brasileiros.

A fuga, juntamente com o chamado "roubo do século" em 2017, quando 50 assaltantes atracaram a sede da Prosegur e levaram US$ 40 milhões (R$ 180 milhões), são um termômetro da penetração do PCC no Paraguai.

No dia seguinte à fuga, a ministra da Justiça do Paraguai, Cecilia Pérez, disse que havia "uma forte suspeita de que autoridades estivessem envolvidas no esquema de corrupção".

Com o que concorda Arnaldo Giuzzio, ministro da Secretaria Nacional Antidrogas (Senad).

"Não há como essa fuga ser realizada sem a colaboração de agentes penitenciários. É uma situação preocupante", afirmou ele em entrevista à BBC Mundo.

Giuzzio chamou a atenção para a luta pelo poder do PCC e também do CV no Paraguai e disse que as áreas mais críticas são nas fronteiras de Pedro Juan Caballero e Capitán Bado.

Em 2017, o Paraguai produziu até 1.289 toneladas de maconha, o que o tornou líder na produção sul-americana, segundo dados do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes.

"O segundo Estado mais ativo do PCC é o Mato Grosso do Sul. E não é por acaso. É o mais próximo do Paraguai, onde eles controlam grande parte da produção de maconha", diz Ferreira.

O acadêmico também aponta que a parceria com membros das forças de segurança paraguaias facilitou a grande penetração do PCC no país.

Na Bolívia

A presença do PCC na Bolívia também é notória, e isso foi reconhecido pelas autoridades oficiais do país.

No início deste mês, José Dulfredo García, diretor geral do Regime Penitenciário da Bolívia, disse que "é um país muito desejável para o narcotráfico e que o PCC estava operando na área do Chapare".

No mesmo comunicado, Dulfredo solicitou a colaboração de autoridades de inteligência e outras agências para analisar a presença do PCC nas prisões e conhecer seus planos.

A declaração foi publicada após uma explosão em uma cela na prisão de Mocoví, em Trinidad, norte da Bolívia, onde três presos morreram.

As autoridades apontaram como culpado Lucas Rosendi Zabala, um membro do PCC, que, segundo o governo, explodiu uma granada em uma luta pelo poder.

A disputa pela rota amazônica

O domínio incontestável do PCC na rota caipira do sul é mais difuso no noroeste, nas fronteiras da Amazônia com Colômbia, Peru e Bolívia.

No início de 2017, a rBBC News Brasil passou três dias nessa fronteira para mostrar a região por onde drogas e armas entram livremente no País. Na época, se todos os barcos do Exército estivessem na água ao mesmo tempo, cada um teria de proteger uma área de 45 km.

Lá, o tráfico é mais distribuído. Tanto o Comando Vermelho quanto a Família do Norte e outros grupos criminosos locais impedem o domínio do PCC.

Esta é a disputa pela rota do rio Solimões, o principal corredor de drogas na tríplice fronteira da Amazônia.

É uma área estratégica devido à proximidade com o Peru e a Colômbia, dois grande produtores de cocaína.

"Além disso, é um lugar que, devido à sua vegetação densa e grandes rios, se destaca pela logística especial. Não há muita polícia aqui que os controle", explica Ferreira.

"Nessa região, o tráfico é disputado entre as facções brasileiras, mas dividido entre os cartéis colombianos. Há mais concorrência. Não é como no sul, onde o PCC conquistou a rota relativamente fácil", acrescenta o acadêmico.

Sampó e Ferreira acreditam que a violenta luta entre as facções brasileiras não ocorrerá contra os cartéis colombianos, pelo menos no futuro próximo.

"Eles escolheram ter um bom relacionamento com eles para vender as drogas o mais barato possível. É difícil rivalizar com os cartéis colombianos", diz Ferreira.

"Eles se preocupam primeiro com a hegemonia local e o controle das rotas na América do Sul. Ao norte, América Central e Estados Unidos, permanece o domínio dos cartéis colombianos e mexicano. Eles administram mercados diferentes", diz Sampó.

A pesquisadora não hesita, no entanto, em afirmar que o PCC é atualmente a organização criminosa mais poderosa da América do Sul, embora sua penetração em países que não são produtores de drogas ainda seja limitada.

Algumas reportagens da imprensa atribuem crimes ao PCC em países como Uruguai e Argentina, mas Sampó descarta uma presença notável nessas regiões.

"São países que são mais um mercado comprador do que um centro de operações. Portanto, sua presença em outros países da América do Sul é menor", explica Ferreira.

"Não sabemos até onde eles podem chegar no futuro. No momento, mesmo que tenham contatos nesses países e operem com máfias européias, não acho que seja sua prioridade", conclui Sampó.

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