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Coronavírus: por que não há casos registrados no Turcomenistão

O Turcomenistão realizou uma pedalada para celebrar o Dia Mundial da Saúde na terça-feira - Divulgação/BBC
O Turcomenistão realizou uma pedalada para celebrar o Dia Mundial da Saúde na terça-feira Imagem: Divulgação/BBC

Abdujalil Abdurasulov

Da BBC News

08/04/2020 20h15

Enquanto diversos países impuseram restrições e quarentena à população, a vida continua normalmente em um dos regimes mais autoritários do mundo.

Embora o mapa que mostra o alcance do coronavírus no mundo esteja cada vez mais coberto por círculos vermelhos, vários países ainda não registraram casos de infecção.

Um desses países é um dos mais repressivos do mundo - o Turcomenistão. Especialistas estão preocupados com a possibilidade de que o governo possa estar escondendo a verdade, o que poderia atrapalhar as tentativas de conter a pandemia.

Enquanto o mundo luta contra o coronavírus e cada vez mais países impõem restrições a suas populações, o Turcomenistão realizou uma pedalada para marcar o Dia Mundial da Saúde ontem.

O país da Ásia Central ainda alega ter zero casos de coronavírus. Mas podemos confiar nos números fornecidos por um governo conhecido pela censura?

"As estatísticas oficiais de saúde do Turcomenistão não são confiáveis", diz o professor Martin McKee, da London School of Hygiene and Tropical Medicine, que estudou o sistema de saúde do Turcomenistão.

"Na década passada, eles alegaram não ter pessoas vivendo com HIV/Aids, algo que não é plausível. Também sabemos que, nos anos 2000, eles suprimiram as evidências de uma série de surtos."

Muitos no Turcomenistão têm medo de insinuar que o vírus já pode estar no país.

"Um conhecido que trabalha em uma agência estatal me disse que eu não deveria dizer que o vírus está aqui ou que ouvi falar dele, caso contrário, posso ter problemas", disse à BBC um morador da capital Ashgabat, que pediu para permanecer anônimo.

Em fevereiro, hospitais turcomenos tinham folhetos sobre o coronavírus, mas eles foram removidos - BBC
Em fevereiro, hospitais turcomenos tinham folhetos sobre o coronavírus, mas eles foram removidos
Imagem: BBC

Fronteiras fechadas

As autoridades turcomenas estão, no entanto, trabalhando para combater um possível surto e discutindo um plano de ação com as agências da ONU no país.

A coordenadora residente da ONU, Elena Panova, disse à BBC que esse plano incluía coordenação em nível nacional, comunicação de riscos, investigação de casos, diagnóstico de laboratório e outras medidas.

Quando questionada sobre se a ONU confiava nos números oficiais que mostravam que o Turcomenistão não tinha casos confirmados, Panova evitou dar uma resposta direta.

"Estamos confiando em informações oficiais porque é isso que todos os países estão fazendo", disse ela. "Não há questão de confiança, porque é assim que funciona."

Panova disse que medidas antecipadas para restringir as viagens podem ter contribuído para a falta de casos confirmados.

O Turcomenistão realmente fechou a maior parte de suas fronteiras há mais de um mês.

Também cancelou voos para a China e alguns outros países no início de fevereiro e começou a desviar todos os voos internacionais da capital para Turkmenabat, no nordeste, onde foi criada uma zona de quarentena.

No entanto, de acordo com vários moradores, algumas pessoas conseguiram subornar autoridades na zona e evitar duas semanas de isolamento em uma barraca.

Panova disse que todos que chegam ao país e aqueles que apresentam sintomas estão sendo testados. No entanto, ela não conseguiu fornecer números exatos de quantos testes foram realizados por dia e de quantos kits de teste o Turquemenistão tinha no geral.

"O que entendemos ao conversar com funcionários do governo é que eles têm testes suficientes."

Mas quão preparado está o sistema de saúde para lidar com um surto de coronavírus?

"Não sabemos", admitiu Panova. "Disseram-nos que eles têm um certo nível de preparação e não duvidamos disso... pois os hospitais aqui estão muito bem equipados."

"No entanto, se houver um surto, haverá uma pressão enorme no sistema de saúde, como em qualquer outro país. Portanto, independentemente de quanto você preparou, geralmente é insuficiente. É por isso que já estamos conversando com eles sobre a aquisição de ventiladores. e também outros tipos de equipamento."

Movimentações limitadas

Existe algum grau de conscientização a respeito do surto entre os cidadãos. O movimento entre as cidades foi restrito e quem entra em Ashgabat precisa agora ter uma autorização médica.

Mercados e escritórios estão sendo fumigados com um preparado à base de ervas - o presidente Gurbanguly Berdymukhamedov disse que isso evitaria o vírus, apesar de não haver evidências.

Mas, diferentemente da maior parte do mundo, a vida cotidiana no Turcomenistão continua normal.

Cafés e restaurantes estão abertos. Multidões se reúnem para casamentos. Ninguém usa máscaras e eventos em massa estão seguindo adiante.

Parece que o país está se negando a admitir que o coronavírus representa uma ameaça à população.

O que explica isso?

A pedalada do Dia Mundial da Saúde pode ser uma pista.

O presidente Berdymukhamedov é a maior estrela e o foco principal do evento anual.

A imagem ligada à saúde faz parte do seu culto à personalidade. A TV estatal o mostra regularmente levantando pesos na academia ou andando de bicicleta.

Ele é o principal condutor das campanhas de "saúde e felicidade", nas quais funcionários do Estado vestindo uniformes idênticos fazem seus exercícios matinais.

A principal mensagem de todos esses eventos é que a nação está saudável e, portanto, feliz, graças ao presidente.

Berdymukhamedov proclamou sua presidência como a "era do poder e da felicidade". E um surto de covid-19 pode expor quão vazias são suas mensagens.

É por esse motivo que o governo turcomeno pode tentar ocultar um surto, mesmo que seus cidadãos sejam infectados.

E é isso que preocupa McKee, da London School of Hygiene and Tropical Medicine.

"Vimos como a infecção pela covid-19 se moveu rapidamente da China para todas as partes do mundo. Nesta economia globalizada em que vivemos, todos os países são tão seguros quanto o país mais fraco do mundo", afirmou.

"Mesmo que outros países consigam controlar a epidemia, existe o risco de propagação contínua de infecções daqueles países que falharam. Parece que o Turcomenistão pode muito bem ser outro exemplo."

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