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Guerra da Coreia: filhas lutam pelo reconhecimento dos pais que nunca voltaram para casa

Lee viu o pai e o irmão serem mortos - Davies Surya
Lee viu o pai e o irmão serem mortos Imagem: Davies Surya

Subin Kim - Da BBC News Korean

08/08/2020 17h13

Não importa o quanto tente, Lee não consegue se lembrar do que aconteceu depois que três tiros foram disparados pelos homens que mataram seu pai e irmão. Foi há três décadas, quando ela tinha por volta de 30 anos.

Mas Lee se lembra do que aconteceu pouco antes. Agentes de segurança a arrastaram para um estádio em uma vila remota na Coreia do Norte chamada Aoji. Ali, ela foi forçada a sentar-se sob uma ponte de madeira, esperando que algo — ela não sabia o quê — acontecesse.

Uma multidão se aglomerou em volta do local até que um caminhão parou. Duas pessoas foram escoltadas para fora do veículo. Eram o pai e o irmão dela.

"Eles os amarraram aos postes, chamando-os de traidores da nação, espiões e reacionários", disse Lee à BBC em entrevista recentemente. Esse é o momento em que sua memória falha. "Acho que estava gritando", disse ela. "Deslocaram minha mandíbula. Um vizinho me levou para casa para colocá-la de volta no lugar."

estação de trem nas coreias - Direito de imagemICRC / HANDOUT - Direito de imagemICRC / HANDOUT
Muitas famílias se separaram como resultado da Guerra da Coreia, que não está tecnicamente acabada
Imagem: Direito de imagemICRC / HANDOUT

Os prisioneiros esquecidos

O pai de Lee era um dos cerca de 50 mil ex-prisioneiros de guerra que foram mantidos no norte no fim da guerra da Coreia (1950-1953).

Os ex-prisioneiros foram reagrupados contra sua vontade em unidades do Exército norte-coreano e forçados a trabalhar em projetos de reconstrução ou em mineração pelo resto de suas vidas.

Quando o armistício foi assinado, em 27 de julho de 1953, os soldados sul-coreanos pensaram que em breve haveria uma troca de prisioneiros e eles seriam enviados de volta para casa. Mas apenas um pequeno grupo foi liberado.

Logo, esses homens foram esquecidos pela Coreia do Sul. Nos últimos anos, três presidentes sul-coreanos se reuniram com líderes norte-coreanos, mas os prisioneiros de guerra nunca estiveram na pauta de discussão.

Presidente sul-coreano Syngman Rhee - AFP - AFP
Presidente sul-coreano Syngman Rhee libertou unilateralmente soldados norte-coreanos
Imagem: AFP

No Norte, a família de Lee era vista como pária. Seu pai nasceu no sul e lutou ao lado das forças da ONU na Guerra da Coreia, contra o Norte.

'Filha de um herói'

O baixo status social da família os relegou a empregos árduos e perspectivas sombrias. O pai e o irmão de Lee trabalhavam em minas de carvão, onde acidentes fatais eram comuns.

O pai de Lee tinha o sonho de voltar para casa um dia, quando o país se reunificasse. Depois do trabalho, ele contava aos filhos histórias de sua juventude. Às vezes, os incentivava a fugir para o Sul. "Haverá uma medalha para mim, e você será tratada como filha de um herói", dizia ele.

Mas o irmão de Lee, enquanto bebia com os amigos um dia, deixou escapar as declarações de seu pai. Um de seus amigos fez uma denúncia às autoridades. Em questão de meses, o pai e o irmão de Lee estavam mortos.

Em 2004, Lee conseguiu desertar para a Coreia do Sul. Foi então que ela percebeu o erro do pai — o país dele não o via como um herói. Pouco havia sido feito para ajudar os velhos prisioneiros de guerra a voltarem para casa.

Os soldados mantidos na Coreia do Norte sofreram. Eram vistos como inimigos, homens que haviam lutado em um "exército de marionetes", e designados para o escalão mais baixo da estrutura social norte-coreana, o "songbun".

Como esse status era hereditário, seus filhos não tinham permissão para receber educação superior nem a liberdade de escolher sua ocupação.

Son levou os restos mortais de seu pai da Coreia do Norte para a Coreia do Sul - Davies Surya - Davies Surya
Son levou os restos mortais de seu pai da Coreia do Norte para a Coreia do Sul
Imagem: Davies Surya

Foi o caso de Choi, que era uma estudante brilhante, mas alimentava um sonho de ir para uma universidade, por causa do status de seu pai. Certa vez, gritou para o pai: "Sua escória reacionária! Por que você não volta para o seu país?"

Seu pai não reagiu, mas disse-lhe com resignação que seu país natal era fraco demais para repatriá-los. Oito anos atrás, Choi abandonou sua família e fugiu para o Sul.

"Meu pai queria vir aqui", disse ela. "Queria chegar ao lugar que a pessoa que eu mais amava em toda a minha vida queria, mas nunca consegui. Foi por isso que abandonei meu filho, minha filha e meu marido."

O pai de Choi agora está morto. E, na Coreia do Sul, no papel, ela não tem pai, porque documentos oficiais dizem que ele morreu em combate durante a guerra.

Trazendo os ossos do meu pai para casa

Son Myeong-hwa ainda se lembra claramente das últimas palavras de seu pai no leito de morte, há quase 40 anos: "Se você for para o Sul, precisará carregar meus ossos e me enterrar onde nasci".

O pai de Son era um soldado sul-coreano natural de Gimhae. No Norte, ele foi forçado a trabalhar em minas de carvão e em uma fábrica de madeira por décadas e só foi autorizado a voltar para casa dez dias antes de morrer de câncer.

Ele disse a Son: "É tão amargo morrer aqui sem nunca mais ver meus pais. Não seria bom ser enterrado lá (na Coreia do Sul)?"

Son desertou em 2005. Mas levou oito anos para retirar os restos mortais do pai da Coreia do Norte. Ela pediu a seus irmãos que os desenterrassem e os levassem a um intermediador na China. Foram necessárias três malas. Dois amigos de Son a ajudaram, mas foi ela quem carregou o crânio de seu pai.

Son protestou por mais de um ano pelo reconhecimento do status de seu pai como um soldado e, eventualmente, conseguiu enterrar seus restos mortais no cemitério nacional em 2015.

"Finalmente, cumpri meu dever como filha", diz. "Mas me dói o coração quando penso nele tendo dado seu último suspiro lá."

Son descobriu depois que a família pagou um preço terrível pelo enterro. Seus irmãos foram enviados para campos de prisioneiros.

Ela agora dirige a Associação da Família dos Prisioneiros de Guerra da Guerra da Coreia, um grupo que luta por um tratamento melhor a aproximadamente 110 famílias de soldados sul-coreanos que nunca voltaram para casa.

Por meio de um teste de DNA, Son conseguiu provar seu laço de parentesco, o que é essencial para reivindicar os salários não pagos dele pela Coreia do Sul.

Mesmo que consigam fugir para o Sul, os filhos de prisioneiros de guerra não são oficialmente reconhecidos e muitos prisioneiros não repatriados foram considerados mortos, ou dispensados durante a guerra, ou simplesmente desaparecidos.

Apenas uma pequena parcela dos prisioneiros de guerra que conseguiram escapar para o Sul recebeu salários não pagos pelo governo sul-coreano, e aqueles que morreram no Norte não tiveram direito a nenhuma compensação.

Em janeiro, Son e seus advogados entraram com um processo no tribunal constitucional, argumentando que as famílias dos prisioneiros que morreram no Norte foram tratadas injustamente e que o governo não fez nada para repatriar os soldados, responsabilizando-os pelos prisioneiros que nunca voltaram para casa.

"Ficamos muito tristes por nascermos filhos dos prisioneiros, e foi ainda mais doloroso ser ignorado mesmo depois de vir para a Coreia do Sul", lamenta Son. "Se não pudermos recuperar a honra de nossos pais, a terrível vida dos prisioneiros de guerra e de seus filhos será esquecida".

Alguns nomes foram alterados para proteger o bem-estar dos entrevistados. Ilustrações de Davies Surya.

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