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Little Havana: o ponto de encontro entre o 'Vai para Cuba' e o 'Vai para Miami' nos EUA

Ricardo Senra - @ricksenra - Enviado especial da BBC News Brasil a Miami

26/10/2020 13h00

Maioria no eleitorado na grande Miami, cubano-americanos rejeitam socialismo, apoiam políticas linha-dura de Trump contra a ilha e, segundo pesquisas, querem reeleger o atual presidente nas eleições do dia 3 de novembro.

É na chamada Calle Ocho, entre pequenas fábricas de charutos, bandeiras norte-americanas, menus de daiquiri e ropa vieja (misto de carne desfiada com legumes cozidos) e monumentos anticomunistas, que os EUA e Cuba se misturam.

A rua corta o bairro de Little Havana, principal centro político e cultural da comunidade cubana de Miami - um lugar ainda mais efervescente e intrigante a menos de 10 dias das eleições presidenciais dos EUA.

Se os cubano-americanos respondem por só 0,7% da população total dos EUA, na grande Miami eles são maioria: 36,3% dos moradores, enquanto outros latinos representam 31,8% e não-hispânicos são 31,9%.

Quem quiser ganhar na Flórida, portanto, precisa do apoio dos cubanos de Miami.

E a julgar pelas visitas oficiais à região só no mês de outubro - Joe Biden, Donald Trump, Barack Obama e Ivanka Trump (a filha do presidente chega em Miami na terça-feira, 27) -, os concorrentes à Casa Branca sabem bem disso.

Mas se equivoca quem espera que os cubanos e seus descendentes formem um núcleo socialista em uma das capitais mundiais do consumismo.

Alberto, um senhor que "vive nos EUA desde antes de você e sua mãe nascerem" e não sabe falar "nem obrigado" em inglês, se irrita ao ouvir que "vai para Cuba" virou em uma resposta frequente no Brasil quando o objetivo é classificar o interlocutor como esquerdista.

"Pois então os brasileiros não conhecem os cubanos, porque nós somos conservadores e de direita", diz, soprando a fumaça grossa de um charuto quase terminado sobre o repórter.

Ele vira as costas, faz nova meia volta, e completa, sem dar margem para resposta: "Comunistas são os democratas."

A reação do veterano reflete a visão da maioria da comunidade cubana de Miami, um grupo que se distancia em muitos aspectos dos demais latinos da Flórida.

A começar pela simpatia pelo atual presidente.

Cubanos capitalistas

Se depender dos cubanos da grande Miami, Trump será reeleito nas eleições de 3 de novembro. É o indica a última edição de uma pesquisa anual feita há 29 anos pela Universidade Internacional da Flórida (FIU) sobre o perfil político dos cubanos da cidade: enquanto 59% dos cubano-americanos planejam votar em Trump, segundo o levantamento, só 25% disseram que votariam em Biden.

Divulgado no início de outubro, o estudo mostrou que a maioria dos cubano-americanos da região elogia Donald Trump e a maneira como ele lidou com em temas como o coronavírus (65% de apoio), imigração (64%), relações raciais (55%) e economia (80%).

Fora economia - um dos pontos fracos da campanha democrata, segundo pesquisas - todos os itens têm sido descritos como alvo de desconfiança do eleitorado na campanha de Trump à reeleição.

"Trump recebe notas altas pela maneira como lida com todas as questões nacionais medidas, incluindo sua política sobre Cuba, e terá maioria dos votos cubano-americanos no dia da eleição", aponta o sociólogo cubano Guillermo Grenier, líder da pesquisa há quase 30 anos e chefe do Departamento de Estudos Globais e Socioculturais da FIU.

Para analistas, a simpatia de cubano-americanos por políticos republicanos espelha uma repulsão crescente à política inaugurada pela família Castro na ilha.

Um dos pontos mais comentados do levantamento deste ano revela um conservadorismo em ascensão entre os recém-chegados a Miami: 76% dos eleitores que entraram no país entre 2010-2015 estão registrados como republicanos, segundo dados oficiais de registro eleitoral na Flórida (a média incluindo os demais cubanos registrados é de 53% de republicanos).

Mesmo enfrentando obstáculos para enviar dinheiro ou visitar as famílias em Cuba, 60% dos mais de mil cubanos entrevistados pelo estudo apoiam a continuidade do embargo dos EUA contra a ilha.

Menos de um ano depois de o então presidente Obama dizer que "enterraria a Guerra Fria", ao selar uma reaproximação com Cuba em visita oficial a Raul Castro, em 2016, Trump escolheu justamente Little Havana para anunciar novas restrições.

"Com efeito imediato, estou cancelando o acordo totalmente unilateral do último governo com Cuba", disse o republicano na época.

Em discurso de 35 minutos, ele oficializou o corte de vistos para viagens de americanos à ilha, restrições no envio de dinheiro para parentes cubanos e a proibição de negócios com empresas controladas por entidades militares ou serviços de segurança cubanos.

Ponto de chegada dos primeiros a cruzarem os quase 350 km que separam Havana e Miami após a revolução socialista, em 1959, a comunidade de Little Havana aplaudiu Trump efusivamente, enquanto um pequeno grupo protestava do lado de fora do auditório.

Três anos depois, o professor Grenier vê um crescimento no apoio a uma política linha-dura contra Cuba entre os nativos e descendentes que vivem na Flórida.

"A narrativa política (de Obama) encorajando o engajamento com Cuba foi substituída por um discurso de isolamento (por Trump). Os cubanos são mais sensíveis a esse discurso do que outros grupos", diz.

'Debilidade'

Diferente de outros pontos de Miami - onde bandeiras da chapa Joe Biden e Kamala Harris flamulam em casas e carros - Trump parece um consenso em Little Havana.

"Biden passa uma imagem de debilidade", diz à reportagem uma jovem cubana que trabalha há dois anos como garçonete em um bar da Calle Ocho.

"O país precisa de um homem forte como Trump", ela completa, sem querer falar mais sobre política. Como a maioria dos entrevistados na região, ela reagiu com desconfiança à presença da reportagem e não quis ser fotografada.

Além do desconforto em relação à imprensa, a fala da jovem também reproduz discursos do atual presidente, que desde o início da disputa aposta em referências à idade do oponente (Biden tem 77 anos, Trump 74) e o chama de "sonolento".

Em entrevista em julho ao canal de TV Fox, Trump chegou a dizer que Biden era "mentalmente baleado" e "não consegue juntar duas frases".

Frases similares aparecem em anúncios patrocinados por republicanos em redes sociais para moradores dos arredores de Miami. Nenhuma das alegações tem confirmação ou amparo em fontes oficiais.

O discurso republicano é repetido nas calçadas e comércios de Little Havana. Mas este apoio não se reflete nas demais comunidades hispânicas, segundo o registro eleitoral na Flórida.

Em todo o Estado, apenas 13,1% dos eleitores hispânicos se declaram republicanos, enquanto 44,2% dizem ser democratas.

Em escala nacional, segundo um estudo do instituto Pew Research, aproximadamente dois a cada três eleitores latinos mostra apoio à candidatura de Biden.

Os índices de confirança do democrata entre os latinos, segundo o levantamento, são mais altos que no restante da população dos EUA.

Obama: 'Biden não é socialista'

De calça vermelha, cor do partido Republicano, e camisa branca com estampa de bandeira dos EUA, a aposentada Luz Barrenechea, de 86 anos, se apoia no ombro da filha na fila de uma seção de votação antecipada em um bairro chique vizinho a Little Havana.

Em 1968, nove anos depois de Ernesto Che Guevara e Fidel Castro instaurarem um governo socialista em sua terra natal, Barrenechea chegou em Miami para nunca mais voltar para casa.

"Trouxe minha filha Marilu para votar comigo e libertar a América do comunismo", diz a aposentada.

"Sou republicana e se o partido quer Trump, eu voto Trump. Vocês não viveram o que eu vivi. Eu conheço as mentiras do comunismo e não vou deixar isso acontecer aqui."

Ela continua, sempre em espanhol: "Com eles no poder, você perde sua liberdade e não pode mais dizer o que pensa. É o que Biden está tentando fazer na América".

A associação de Biden com socialismo esteve presente em todas as falas de Trump em comícios e debates desde o início da eleição e ecoa entre os apoiadores cubano-americanos do presidente.

Tanto que, no último fim de semana, em um comício no formato "drive-in" em prol de Biden no norte de Miami, Barack Obama tocou no assunto.

"Parte da retórica que vocês estão ouvindo aqui no sul da Flórida é invenção pura. Ouvindo os republicanos, parece que Joe (Biden) é mais comunista do que os Castro. Não se enganem com esse lixo", disse o ex-presidente, que venceu na Flórida em 2008 e 2012.

"Joe Biden não é socialista", continuou o democrata.

"Ele foi senador por Delaware, ele foi meu vice-presidente. Acho que as pessoas já saberiam se ele fosse um socialista secreto."

Baía dos Porcos

A principal esquina de Little Havana ilustra os valores da "Cuba capitalista", como dizem os locais.

Ali, uma sequência de monumentos cercados por bandeiras dos EUA e de Cuba homenageia os mortos na invasão da Baía dos Porcos, em 1961, quando paramilitares cubanos exilados nos EUA formaram a famosa Brigada 2506 e tentaram derrubar o governo de Fidel Castro com apoio financeiro e de navios e aviões do governo dos EUA.

A empreitada frustrada, que terminou com quase 300 mortos e mais de 1,2 mil combatentes presos pelo governo cubano, é homenageada em Miami com uma tocha eterna e tributos a combatentes, generais e jornalistas anticomunistas.

Foi em frente ao monumento que os moradores de Little Havana se reuniram para comemorar a morte de Fidel Castro, em 2016. No mesmo ano, o então candidato Trump passou pelo local, antes de visitar uma padaria da região.

Bem próximo dali fica o parque Máximo Gómez - outro ponto turístico, conhecido em Little Havana como "praça do dominó" e apontado por todos os guias turísticos da região como parada obrigatória.

Há quatro décadas, dezenas de aposentados cubanos, venezuelanos, hondurenhos e nicaraguenses se reúnem na praça para partidas - só quem é registrado e morador da região pode participar.

Atualmente, no entanto, a praça está trancada como parte das medidas do governo local para combater o coronavírus. Cena semelhante pode ser vista nos arredores de Little Havana, onde parte do comércio fechou definitivamente as portas como resultado do impacto econômico da pandemia.


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