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1 mês

O encontro histórico entre o papa Francisco e o líder xiita no Iraque

Redação

BBC Mundo

06/03/2021 21h03

Em seus oito anos de pontificado, as viagens do papa Francisco foram bastante diferentes das dos seus antecessores. Muitas delas não se destinaram aos grandes centros católicos do mundo — Europa, América do Sul e regiões da África.

Ele foi várias vezes a locais onde os cristãos são uma minoria: Tailândia, Emirados Árabes Unidos, Japão e Coreia do Sul.

Agora é a vez do Iraque: acredita-se que na região de Ur (na atual província de Dhi Qar) nasceu Abraão, considerado o pai das três principais religiões monoteístas do mundo (cristianismo, judaísmo e islamismo).

Atualmente, esse mesmo local é o lar de uma minoria cristã que está à beira da extinção por vários motivos, entre eles a perseguição de grupos radicais, como o autodenominado Estado Islâmico.

No que foi o ponto alto da visita, que durará três dias, o papa Francisco se reuniu hoje com o principal líder religioso xiita, o aiatolá Ali al-Sistani.

Este encontro entre as duas religiões foi descrito como "histórico".

O papa Francisco viajou para a cidade sagrada de Najaf, cerca de 160 quilômetros ao sul da capital Bagdá. O local é um centro de peregrinação para xiitas de todo o mundo.

Um dos objetivos do Papa nesta viagem é construir pontes com o Islã - Getty Images - Getty Images
Um dos objetivos do Papa nesta viagem é construir pontes com o Islã
Imagem: Getty Images

O aiatolá é uma das figuras mais poderosas do Islã e seus fátuas (pronunciamentos religiosos) levaram muitos muçulmanos a se mobilizarem em 2014 contra o Estado Islâmico.

Em janeiro de 2019, lembra a agência EFE, Ali al-Sistani pediu para investigar os "crimes atrozes" perpetrados por jihadistas sunitas contra algumas minorias na sociedade iraquiana.

Durante o encontro, o papa agradeceu ao aiatolá "por erguer a voz em defesa dos mais fracos e perseguidos, afirmando que o sagrado é a importância da unidade do povo iraquiano".

Ele também destacou "a importância da colaboração e da amizade entre as comunidades religiosas para que, cultivando o diálogo com respeito recíproco, se possa contribuir para o bem do Iraque, da região e de toda a comunidade".

Francisco visitou uma igreja cristã na anteontem no Iraque - EPA - EPA
Francisco visitou uma igreja cristã na anteontem no Iraque
Imagem: EPA

A viagem pastoral, que começou anteontem, é a primeira em 15 meses devido à pandemia de covid-19.

A visita foi classificada como de alto risco não só por questões de segurança — estima-se que ao menos 10 mil pessoas trabalharão para que nada aconteça com o sumo pontífice — mas também por preocupações sanitárias: desde janeiro, os casos de infecção com o coronavírus triplicaram no Iraque.

O próprio papa emérito Bento XVI apontou os riscos da excursão: "Acho que é uma viagem muito importante... Infelizmente acontece em um momento muito difícil, o que também a torna perigosa por razões de segurança e pela covid-19. E há também a situação instável no Iraque. Vou acompanhar Francisco com minhas orações", disse ao jornal italiano Il Corriere della Sera.

Soma-se a essas incertezas o ataque contra bases militares iraquianas que abrigavam tropas americanas na última quarta-feira (3).

O porta-voz do Vaticano, Mateo Bruni, destacou que a intenção da viagem é mostrar a proximidade do papa com as comunidades cristãs ameaçadas.

"É um gesto de amor por aquela terra, pelo seu povo e pelos cristãos", declarou.

Mas por que a comunidade cristã residente no Iraque está à beira da extinção?

Perseguidos por séculos

Dezenas de cidadãos se reuniram no aeroporto de Bagdá para saudar o papa - Reuters - Reuters
Dezenas de cidadãos se reuniram no aeroporto de Bagdá para saudar o papa
Imagem: Reuters

A viagem, que inclui missa aberta em um campo de futebol, terá em seu roteiro as cidades de Bagdá, Mosul, Erbil, Najaf e Qaraqosh.

Francisco, que teve de adiar seus planos pastorais, sempre indicou a intenção de visitar a região.

"Penso constantemente no Iraque, para onde desejo ir no próximo ano, na esperança de que esse país possa enfrentar o futuro por meio da busca pacífica e compartilhada do bem comum por todos os elementos da sociedade, incluindo os religiosos, e não recuar em hostilidades provocadas por conflitos latentes de potências regionais ", disse o papa, durante uma audiência em 2019.

E essa referência aos conflitos tem um indicador claro: da invasão do Iraque pelos Estados Unidos em 2003 até 2019, a comunidade cristã no país foi reduzida em 83%.

Nesses 16 anos, os números de cristãos caíram de 1,5 milhão para apenas 250 mil mais recentemente.

Estima-se que pelo menos um milhão deles fugiram para a Europa e os Estados Unidos, devido a conflitos internos causados pela invasão ou pelo deslocamento forçado por grupos islâmicos.

E o alerta mais enfático sobre a iminente extinção foi feito várias vezes pelo reverendo Bashar Warda, o arcebispo de Erbil — uma das cidades que Francisco vai visitar.

"O cristianismo no Iraque é uma das religiões mais antigas, senão a mais antiga do mundo, e está perigosamente perto da extinção. Aqueles de nós que permanecerem devem estar preparados para enfrentar o martírio", disse Warda à BBC em 2019.

A presença cristã no Iraque é praticamente tão antiga quanto a própria religião: de fato, há muito mais cidades e lugares mencionados na Bíblia que estão localizados neste país do que em Israel e nos territórios palestinos.

Seu ponto de partida histórico pode ser localizado no século V, quando o Concílio de Niceia registrou a presença de bispos da região mesopotâmica.

Em seguida, veio a criação da Igreja Oriental, com fortes raízes na parte norte do Iraque, e o estabelecimento do mosteiro de Santo Elias nas proximidades da atual cidade de Mosul, durante o século VI.

As minorias cristãs foram perseguidas pelo Estado Islâmico - AFP - AFP
As minorias cristãs foram perseguidas pelo Estado Islâmico
Imagem: AFP

Em um artigo para o site The Conversation, Ramazan Kilinç, professor de ciência política da Universidade de Nebraska, nos Estados Unidos, escreveu que a maioria dos cristãos iraquianos são etnicamente assírios e pertencem à Igreja Oriental, um dos três grandes ramos do cristianismo no Oriente. "A adoração é feita num dialeto do aramaico, a língua em que Cristo supostamente falava."

O professor Kilinç acrescenta que a maior dessas comunidades assírias pertence à Igreja Católica Caldeia, que reúne mais de dois terços de todos os cristãos que vivem no Iraque.

As constantes perseguições religiosas e políticas contra esses grupos aumentaram nos últimos cinco anos.

O bispo Warda resumiu isso em uma frase certamente polêmica: "Há um número crescente de grupos extremistas que afirmam que o massacre de cristãos e yazidis durante esses anos ajudou a espalhar o Islã", disse o reverendo iraquiano.

Existem cerca de 250 mil cristãos no Iraque - AFP - AFP
Existem cerca de 250 mil cristãos no Iraque
Imagem: AFP

Estado islâmico

"Estamos tentando curar a ferida criada pelo Estado Islâmico", disse Karam Shamasha, um dos padres da Igreja Católica de São Jorge, à Agência Católica de Notícias em novembro passado em um vilarejo cristão que fica a 30 quilômetros ao norte de Mosul.

"Nossas famílias são fortes e lutaram pela fé. Mas elas precisam de alguém que lhes diga: 'Vocês se saíram muito bem, mas devem continuar com sua missão'", acrescentou.

Quando o chamado Estado Islâmico invadiu a cidade de Mosul, em meados de 2014, os cristãos eram um dos grupos mais perseguidos pelos radicais.

Após o ataque inicial, que deslocou mais de 125 mil cristãos de suas terras natais, muitos líderes viram isso como "a luta existencial final" para o cristianismo iraquiano.

"Os torturadores confiscaram nosso presente, enquanto procuravam apagar nosso passado e destruir nosso futuro", disse Warda.

O reverendo observa que a destruição do Estado Islâmico foi tão devastadora que agora os sobreviventes não têm como provar quem eram e o que possuíam.

"No Iraque, não há reparação para aqueles que perderam propriedades, casas e negócios. Dezenas de milhares de cristãos não têm como provar que este tem sido seu local de residência e de seus ancestrais por milhares de anos."

Apesar do desmantelamento do califado instituído pelo Estado Islâmico e de sua influência ter sido consideravelmente reduzida, várias células continuam ativas — houve inclusive um ataque em Bagdá em janeiro que deixou pelo menos 32 mortos — e elas são até uma ameaça à viagem do pontífice.

"Eles estão começando a perder relevância e isso os colocaria de volta no topo. Outros grupos podem ter algumas restrições morais. Mas o Estado Islâmico não tem nenhuma", disse o pesquisador Michael Knights, do Instituto Washington, ao Wall Street Journal.

No artigo publicado no The Conversation, o professor Ramazan Kilinç indica que, entre 2017 e 2019, a administração de Donald Trump forneceu ajuda de US$ 300 milhões de dólares (aproximadamente R$ 1,7 bilhão) para reconstruir as cidades e as vilas cristãs das planícies de Nínive, no norte do Iraque, que foram destruídas pelo Estado Islâmico.

É a primeira vez que um papa visita o Iraque - Getty Images - Getty Images
É a primeira vez que um papa visita o Iraque
Imagem: Getty Images

Caminho para a extinção

Mas os líderes católicos no Iraque estão cientes de que o desaparecimento da religião por ali pode estar próximo.

Warda chegou a uma conclusão amarga sobre o que o futuro reserva.

"É possível que estejamos enfrentando nosso fim na terra de nossos ancestrais. Nós sabemos disso. No nosso final, o mundo inteiro enfrenta um momento da verdade", disse ele.

O bispo tem criticado especialmente as igrejas na Europa, que ele acredita não terem condenado veementemente a perseguição por medo de serem acusadas de islamofobia.

"Será que um povo pacífico e inocente poderá ser perseguido e eliminado por sua fé? E por não querer dizer a verdade aos perseguidores, o mundo será cúmplice de nossa eliminação?", questionou.

Francisco foi enfático ao dizer que sua viagem tem como objetivo impedir que isso aconteça.

"Eu sou o pastor das pessoas que sofrem", disse o papa a vários meios de comunicação, no último mês de fevereiro.

E Warda espera que a visita do pontífice a possa ajudar nesse caminho: "A presença do papa fará com que muitas pessoas, especialmente os iraquianos, percebam que estamos aqui há muitos séculos", disse recentemente à Agência Católica.

"Os cristãos têm contribuído muito para este país", completa.

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