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O misterioso 'cadeado' usado por reis e rainhas para impedir que suas cartas fossem lidas por pessoas indesejadas

23/01/2022 21h02

A prática remonta ao século 13 e foi empregada por Maria Stuart, Elizabeth 1ª, Maquiavel, Galileu Galilei e Maria Antonieta para proteger a privacidade da suas correspondências.

A vida de Maria Stuart foi uma mistura frenética de romance e vingança. Ela foi rainha da Escócia e, por pouco tempo, da França, além de aspirar ao trono da Inglaterra.

Coroada como regente dos escoceses seis dias após seu nascimento, ela foi comprometida com o príncipe inglês Eduardo, filho do rei Henrique 8º, quando tinha apenas oito meses. A intenção era apaziguar as rivalidades entre a Inglaterra e a Escócia, mas o compromisso foi desfeito.

Comprometida novamente com 6 anos de idade com o delfim (príncipe herdeiro) francês Francisco, para retomar a tradicional aliança entre escoceses e franceses, casou-se com 15 anos, foi rainha da França por um ano e ficou viúva aos 17 anos de idade.

Ela voltou a governar seu país de origem e, em 1565, casou-se com seu primo em segundo grau Henrique Stuart, ou Lorde Darnley, em um casamento atribulado que gerou um filho em 1566 - o futuro rei Jacó 6º da Escócia e 1º da Inglaterra - e culminou com o assassinato do seu marido, em 1567.

Três meses depois, Maria Stuart casou-se com o principal suspeito do crime, o conde de Bothwell.

Posteriormente, ela foi presa na Escócia, precisou abdicar e fugiu para a Inglaterra, buscando refúgio e apoio da sua prima, a rainha Elizabeth 1ª. Mas, por ser a próxima herdeira na linha de sucessão do trono inglês, Maria Stuart era uma ameaça para a rainha e acabou confinada em vários castelos por 19 anos.

Maria Stuart foi suspeita de participar de uma série de complôs católicos contra a vida de Elizabeth nas décadas de 1570 e 1580. Foram encontradas, em algumas de suas cartas particulares, provas para acusá-la de traição em 1586, por estar envolvida em um plano que previa libertá-la com o apoio de uma invasão estrangeira e matar a rainha inglesa.

Ela foi condenada à morte e, após muita hesitação, Elizabeth por fim assinou a sentença. Em 8 de fevereiro de 1587, Maria Stuart escreveu na sua cela uma carta de despedida dirigida ao rei da França, Henrique 3º.

"Irmão real, depois de ter - pela vontade de Deus e por meus pecados, acredito - me lançado ao poder da minha prima, a Rainha, finalmente fui condenada à morte por ela e seu legado. Esta noite, após o jantar, fui informada da minha sentença. Serei executada como criminosa às oito da manhã."

Aparentemente tranquila, apesar da iminência de sua morte, ela passa a reafirmar sua fé católica e sua convicção de que a Coroa inglesa era sua por direito. Além disso, Maria Stuart estabelece instruções para que, após sua execução, seja pago o salário devido aos seus servidores. Seis horas depois, Maria Stuart foi decapitada.

Tudo isso já era conhecido. Curiosamente, o que até agora ninguém havia compreendido bem era como essa carta havia sido lacrada.

Parece estranho?

Aparentemente, o método de fechamento dessa carta era desconhecido.

Mas vamos pensar um pouco. Se escrevêssemos uma carta antes de 1830 - quando foi adotado o envelope moderno -, o que teríamos feito ao terminar de escrever? Provavelmente, teríamos dobrado e fechado a carta com cera e um lacre, como vemos nos filmes.

E, se não quiséssemos que ninguém mais, além do destinatário, lesse a carta e que soubéssemos se alguma pessoa não autorizada tentasse lê-la?

Para isso, foi utilizado durante séculos um sistema de segurança - uma espécie de criptografia física - para proteger o conteúdo das cartas contra olhares indiscretos. Era um processo delicado de dobra para fechar as cartas, garantindo que qualquer manipulação fosse imediatamente percebida por quem a recebesse.

Esse método era tão importante para a comunicação por cartas quanto a codificação computadorizada para o correio eletrônico - e imensamente complicado.

Ele é conhecido em inglês como letterlocking, termo cunhado por Jana Dambrogio, do Laboratório de Conservação do Instituto Tecnológico de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês), nos Estados Unidos. Em português, seria algo como "travacarta", atendendo ao pedido de Dambrogio de manter o termo com uma única palavra.

Dambrogio criou esse nome depois de pesquisar estranhas ranhuras e cantos rasgados observados em cartas datadas dos séculos 15 e 16, quando trabalhava nos Arquivos Secretos do Vaticano em 2000. Ela percebeu que as cartas haviam sido engenhosamente dobradas e totalmente lacradas, com a inserção de uma parte rebaixada do papel em uma ranhura, colando-a com cera.

A prática remonta ao século 13 - pelo menos na história ocidental - e existem muitas técnicas diferentes de lacre com dobras que surgiram ao longo dos séculos. A rainha Elizabeth 1ª, Maquiavel, Galileu Galilei e Maria Antonieta são algumas pessoas que utilizaram essas técnicas para proteger a privacidade da sua correspondência.

Tudo isso e muito mais foi descoberto pela pesquisadora que se dedicou, em conjunto com vários outros especialistas em diversos campos, a aprofundar-se no tema, estudando mais de 250 mil cartas de cerca de 20 países, escritas ao longo de um período de 650 anos. Esse estudo ajudou a entender como funcionavam as diferentes estratégias para lacrar correspondência.

O primeiro artigo sobre esse trabalho foi publicado no dia 2 de março de 2021 na revista Nature Communications. Com os conhecimentos adquiridos sobre letterlocking, Dambrogio e Amanda Ghassaei, do Laboratório de Inteligência Criativa da Adobe, desenvolveram um algoritmo de computador para raio X em três dimensões.

Desta forma, elas conseguiram desdobrar e ler virtualmente cartas da Coleção Brienne, enviadas de toda a Europa para Haia, na Holanda, entre 1680 e 1706, sem que nunca tenham sido abertas.

Agora, os pesquisadores do grupo chamado Unlocking History ("Desbloqueando a história", em tradução livre) descobriram uma técnica extraordinária.

O cadeado em espiral

"Um dos exemplos mais espetaculares de cadeado em espiral é a última carta de Maria [Stuart]", segundo os nove especialistas do King's College de Londres, do MIT e da Universidade de Glasgow, na Escócia, em um artigo publicado na revista Electronic British Library Journal.

"O conteúdo da carta é poderoso e comovente: escrito na véspera da sua execução, serve não só de carta - um documento destinado a ser enviado e lido por alguém distante -, mas também como sua última vontade e testamento, além de uma tentativa para que seja declarada mártir", segundo o artigo. "Às vezes, se afirma que escrever a carta foi o último ato de Maria; na verdade, depois de escrita, a carta precisou ser dobrada e lacrada."

De fato, depois de escrever sua última mensagem, a rainha dobrou, recortou e costurou o papel, enquanto se aproximava a hora de sua morte. E, por mais habilidosa que ela fosse, o cadeado em espiral utilizado deve ter tomado seu tempo, pois ele exige mais de 30 passos para sua elaboração. Eis alguns desses passos:

Pode-se observar que um pedaço de papel era recortado de forma que a margem da carta ficasse pontiaguda; e, depois de dobrá-la, era feita uma fenda onde essa ponta era inserida. Esse pedaço de papel tornava-se essencialmente a agulha e o fio utilizados para continuar o bordado até completar o cadeado em espiral.

O resultado, além de seguro, era muito elegante.

Para maior segurança, era acrescentado um lacre de cera.

Segundo os pesquisadores, trata-se de "uma técnica muito complexa que exigia tempo, paciência e muita habilidade: um movimento em falso e seu mecanismo de bloqueio poderia romper-se, exigindo começar a carta de novo".

"A mecânica desse cadeado obriga a pessoa que abrir a carta a rompê-lo para ter acesso ao conteúdo", explicam os especialistas. E, ao rompê-lo, como "a fechadura se rompe em vários lugares, é impossível voltar a montá-la de forma a permitir a passagem [da ponta] novamente através das ranhuras".

Ou seja, o destinatário saberia se a sua correspondência havia sido violada.

"Os seres humanos sempre tentaram garantir a segurança das mensagens enviadas entre si - e, ao longo da história, criamos enormes inovações", afirmou à BBC News Mundo (o serviço em espanhol da BBC) o coautor do estudo Daniel Starza Smith, do King's College de Londres.

Segundo Smith, "a forma de dobrar as cartas pode fornecer informações sobre os gostos, a moda e os códigos sociais em diversos momentos da história. Quanto mais aprendermos sobre letterlocking, melhor entenderemos o 'idioma' que nos transmitem os documentos e mais aprenderemos com eles."

Em artigo para o MIT Technology Review, Dambrogio ressalta que esse projeto vem sendo desenvolvido "ao longo de um período de intenso debate público sobre os sistemas globais de comunicação, o papel da interceptação estatal e a natureza da privacidade".

As infinitas formas de reduzir o tamanho de uma folha de papel retangular usadas por pessoas de diferentes países, períodos, culturas e estilos de vida "demonstram que essas questões são importantes para as pessoas há centenas de anos e nos permitem estudar o que elas fizeram a respeito".

O letterlocking é o vínculo entre "as técnicas de segurança das comunicações físicas do mundo antigo e a criptografia digital moderna", segundo o artigo publicado no Electronic British Library Journal.


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