Justiça cega (e louca)

da BBC, em Londres

Constato pelas folhas brasileiras o fato: a atual legislatura da Câmara dos Deputados vai encerrar seu mandato no próximo dia 31. Pena, vai fazer falta.

Analistas e curiosos informam-me que foi uma das mais “criativas” (aspas deles lá, ou vocês aí) de nossa história.

A Casa, como é conhecida na intimidade do lar legislativo, apresentou projetos para todos os gostos e nos mais sofisticados, para não dizer bizantinos, feitios.

Desde essa mania tão nossa de criar um Dia para tudo (da balconista, do tabelião, do zagueiro direito) até a fúria ufanista de que somos tomados quase que todos os dias (e Dias também): circulou projeto apresentando o suco de laranja como bebida especial para todas as ocasiões promovidas pelo governo.

Acho que esse caiu do galho quando não se conseguiu chegar a um acordo quanto ao tipo de laranja, se lima, se da baía, se da terra, se da china etc.

O Dia que mais me intrigou foi o da Verdade e da Esperança. Sinto não ter vingado. Deve ser porque o da Verdade deveria vir logo depois do da Esperança. Juntos, não dão liga.

Gostei de ver que nós, jornalistas, não fomos esquecidos. Chegaram a pensar em fornecer coletes à prova de balas para todos os membros da profissão.

Pela parte que me toca, pela bala que passou longe de mim (estou em Londres, certo?), sou grato, ao menos pela intenção. Mas mostro como somos chatos por profissão e pergunto: por que não colete à prova de balas para toda a população? Contida e não-contida nas penitenciárias?

Como esquecer-te, projeto instituindo o Dia do Sono? Bocejo só de pensar. E minha barriga ronca de saudades do Dia do Macarrão, que poderia ter sido mas não foi. A democracia representativa não sabe o que é um macarrão com carne de lagarto ou lombo-paulista no boteco da esquina.

Lidando, sempre mal, com as palavras, achei, digamos, interessante a idéia de sustituirem a palavra “estupro” pela expressão “assalto sexual”.

Estupro é duro, no sentido de difícil de se dizer. Sempre sai “estrupo”, “esputro” ou coisa ainda pior. E a moça, cada vez mais envergonhada, deixa a delegacia e vai para casa sem dar queixa. É um “pobrema”. Digo, “poblema”. Enfim, vocês sabem o que eu quero dizer,

O que vai para o trono

Como numa casa do Big Brother, essa magnífica instituição dos anos-Lula, alguém tem que sair vencedor. E o vencedor é, ou foi, o deputado Elimar Máximo Damasceno (Prona-SP).

Eleito em 2002, com significativos 494 votos (tão pouca gente só pode ser significativíssima), ficou com uma das 70 vagas de São Paulo (esse mesmo, o da cratera na “capitar”) na Câmara, eleito pela regra do coeficiente partidário (esse tem Dia), já que seu companheiro de Prona (afinal, é partido ou cidade?), Enéas Carneiro, obteve a votação recorde (recorde mas não significativa) de mais de 1,5 milhão de votos.

De Elimar (vou logo pegando parlamentar intimidade) o Dia da Verdade e da Esperança, o Dia da Gratidão (7 de janeiro) e o Dia da Caridade (4 de outubro) e, atenção!, a proibição do “beijo lascivo entre pessoas do mesmo sexo em público”.

Mais atenção ainda, que nossos legisladores merecem, precisam, exigem: muitos desses projetos estão parados na Câmara. Basta alguém mais valente ir lá e cutucar para – como num passe de mágica, feito todas as crateras brasileiras – virar lei e obrigatório.

Esse gosto não perdemos, não perderemos nunca: somos doidos por uma obrigatoriedade. Assim como pelas crateras repentinas.

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