Cientista critica presidente da Gâmbia por prometer curar Aids

da BBC, em Londres

Um especialista na prevenção da Aids expressou indignação com a promessa do presidente da Gâmbia, Yahya Jammeh, de que pode "curar" a doença em três dias.

"Eu estou perplexo. O perigo de um presidente vir à tona (para dizer isso) é chocante", afirmou o chefe de pesquisas sobre HIV/Aids da Universidade de KwaZulu Natal, Jerry Coovadia, em entrevista à BBC.

Jammeh anunciou recentemente, em uma reunião com diplomatas estrangeiros, que começou a tratar um grupo de portadores de HIV com ervas medicinais secretas.

"Eu posso tratar asma e HIV/Aids", afirmou o presidente. "Em três dias a pessoa deve ser testada de novo e posso lhe dizer que o teste dele ou dela dará negativo."

O site da Presidência da Gâmbia, em que Jammeh é mostrado examinando pacientes, alega que o número de células CD4 - indicativo do estado do sistema imunológico - teve um aumento "impressionante" em sete dos nove pacientes.

Eles estariam sendo tratados pelo presidente desde o dia 18 de janeiro.

Ganho de peso

Em entrevista à BBC, o ministro da Saúde da Gâmbia, Tamsir Mbow, defendeu a polêmica tese do presidente, dizendo que os pacientes melhoraram fisicamente, tendo inclusive ganhado peso.

Mbow disse que as ervas são tomadas via oral e aplicadas ao corpo, mas não revelou as plantas que estariam sendo usadas no tratamento.

"Nós não podemos dizer de fato que tipo de ervas eles estão usando no momento, isso será revelado ao mundo inteiro depois", disse o ministro da Saúde à BBC.

Um dos pacientes submetidos ao tratamento, o professor universitário Osuman Sowe, diz ter melhorado.

"Eu notei que ganhei peso substancialmente nos últimos dez dias. Não sofro mais de constipação, mas ainda precisamos receber os resultados dos testes", disse Sowe.

"Tenho 100% de confiança no presidente e estou tomando a medicação com toda a confiança."

"Inconcebível"

Mas Jerry Coovadia disse que, no caso da Aids, uma resposta tão rápida é "inconcebível".

O especialista, que também participa de uma campanha contra a Aids na África do Sul, enfatizou que os cientistas estão muito distantes de encontrar uma cura de forma que o fato de alguém anunciar que existe uma é "excessivamente difícil de aceitar".

Para Coovadia, é "trágico" que a Gâmbia tenha um "ambiente político que permite que um ministro da Saúde e um presidente violem toda fundação da ciência e da saúde pública."

Segundo o ativista, embora seja impossível dimensionar o impacto negativo da reivindicação de Jammeh, a sua promessa pode levar as pessoas a adotar comportamentos sexuais de risco em vez de seguirem as orientações de como se prevenir da infecção.

Procurada pela BBC, a Organização Mundial da Saúde (OMS) disse que por ora não se pronunciaria sobre o assunto.

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