Do VHS ao DVD

da BBC, em Londres

Lembro direitinho como se fosse hoje. Janeiro de 1982. Eu acabara de pegar, no hoje temido “Home Office” (misto-quente de ministério da Justiça com o do Interior), o visto para residência por tempo indefinido no Reino Unido, uma vez que acabara de completar quatro anos de residência mais do que definida nesta Londres onde estou até hoje.

Os ufanistas que não me levem a mal, mas eu fiquei eufórico. Eu sei, eu sei. Falta de caráter minha, conforme esstou cansado de ouvir. Falta de amor ao torrão natal.

Nada posso fazer. Nasci com essa avassaladora vontade de ir embora. Da cidade em que nasci, da cidade onde me criei, da primeira residência, da segunda, e assim por diante, até pegar rumo no Galeão e descobrir o caminho aéreo para as Índias, onde faria então minha fortuna com a compra e subsequente venda de temperos e condimentos com lucros espantosos.

Tudo bem, não fiquei milionário, beiro o remediado. Mas descobri Londres, encontrei estratagemas sutilíssimos para evitar intimidades com os nativos (os ingleses. Sou meio anti-social, conforme já me observaram de tacape na mão) e aqui me instalei para ficar. Ficar para valer.

Valeu, repito meio incerto, utilizando-me de um coloquialismo (“valeu”) que me dá arrepios de ojeriza sempre que o ouço.. Digo “meio incerto”, com ênfase nas aspas, porque garantem-me que meu coração, meu pulmão e minhas costas estariam uma beleza, e não o cocô que estão, se eu estivesse, digamos, no Rio, me tratando com cavalheiros simpáticos e cheirando a colônia fina da rua Sorocaba, no meu tempo uma grande rua para médicos.

Muito bem, então eu obtive licença para por cá permanecer por tempo indeterminado. Permaneço. Cada vez mais indeterminado. Mas legal, ao contrário de alguns milhares de meus compatriotas.

Para comemorar a fausta ocasião (e não estava eu fazendo um pacto com o Demo?) fui a uma loja do centro onde alugavam vídeo-gravadores. A confusão tecnológica da época entre VHS e Betamax já terminara, com a vitória do primeiro sistema, e aluguei, por preço módico, um aparelho que foi instalado em casa alguns dias depois. Com uma pilha de fitas virgens, dei meu mergulho inicial na piscina do mundo hodierno.

Atenção, gravando!

Tendo dominado razoavelmente a técnica, comecei a gravar adoidado. Minto. “Ajuizado”. Gravei filme que não acaba mais. Sim, eu sei, é ilegal, mas juro que nunca vendi nenhum nem passei adiante. Gravei para meu único e próprio prazer e deleite.

Um esclarecimento: na época eram apenas três canais, dois da BBC e um comercial. Mas como levavam filme, meu senhor! Principalmente o chamado BBC2. Tudo coisa boa, tudo curtição.

Com a correria desenfreada dos anos, posso dizer que montei uma videoteca das mais respeitáveis. Melhor que a cinemateca de La Paz, sou capaz de jurar, pedindo perdão ao Ilmo. Sr. Dr. Evo Morales.

Lá está todo mundo que eu prezo e gosto de saber hóspedes meus indefinidos: Hitchcock, John Ford, Preston Sturges, Buñuel, Bergman, Fassbinder. Também a Warner e os musicais da Metro, desenhos animados, shorts, o diabo.

Tudo sem comercial. Tudo ainda novinho, já que volta e meia eu dou uma conferida na qualidade: estão como chegaram, a tecnologia continua valendo.

Diga um clássico, sussurre um noir e eu, no escuro (ou claro de minha sala de estar), respondo de bate-pronto: tenho. Tenho, tenho e tenho. Tudo isso que o distinto aí pensou.

Unhappy ending

O que eu queria dizer é que, sem dúvida, o DVD é uma curtição (ou “cultição”), tem cena extra, entrevista com o diretor, mil encheções de língüiça. Dão um dinheirão e custam cada vez mais baratos. Um probleminha: difícil, mas muito difícil mesmo, passarem isso tudo, que eu gravei e guardei, num dos agora cinco canais abertos do Reino Unido.

Ou mesmo fechados. Por cabo, pela antena. A dose aberta, escancarada, hoje, é série. Americana, claro. Logo, logo em DVD, na esquina, feito o filme que passou no cinema, em outra esquina, há algumas semanas apenas.

Uma beleza, formidável, parabéns a todos envolvidos, inclusive a mim mesmo, que continuo, por tempo indeterminado, gravando e comprando, que eu acompanho esssas coisas (fará parte do contrato com o Home Office?) e vou, novidadeiro que sou, de DVD também, já tendo comprado, ou ganhado (são excelente presentes), temporadas de algumas séries favoritas minhas, feito Os Simpsons, Futurama ou The Wire (procurem conhecer esse último), mas... mas, olha, cá entre nós, bom mesmo foi gravar.

Escrever na caixinha o nome do filme, a metragem e ir arrumando na estante. Muito melhor que pedir e comprar pela Internet. E cala-se, por ora, este ludita que, sempre por tempo indeterminado, vos fala.

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