Genética alimenta polêmica sobre 'raças' no Brasil

Carolina Glycerio
De São Paulo

Pesquisas genéticas recentes, que mostram o intenso grau de miscigenação do brasileiro, têm alimentado o debate em torno da definição de "raças" na sociedade brasileira.

O termo já é evitado na genética hoje em dia por ser considerado impreciso e pelo uso político que se fez dele no passado, mas ainda é usado como categoria sociopolítica - o IBGE, por exemplo, divide a população brasileira em pretos, brancos, pardos, indígenas ou amarelos.

Críticos do uso dessas categorias dizem que, especialmente no Brasil, a miscigenação foi tão intensa que uma pessoa considerada preta pode ter a mesma composição genética de um "branco" e vice-versa.

Mas há quem acredite que a classificação é válida.

"Raça no Brasil é uma categoria política: negro é quem é tratado como negro", afirma o advogado Hédio Silva, ex-secretário de Justiça do Estado de São Paulo. "Ninguém pede a carta genética da pessoa para discriminar."

Segundo ele, usar exames de DNA para demonstrar que do ponto de vista genético é mínima a diferença entre brancos e negros passa pela estratégia de "humanizar" os negros, coisa que, na sua avaliação, vem sendo tentada sem sucesso no Brasil há cem anos.

Para Silva, basear-se na biologia para desqualificar a noção de raça no Brasil é um "despropósito", comparável a perguntar a um nazista se a perseguição aos judeus tinha base científica, ou se a ciência tinha definição para quem foi queimado como bruxo pela Inquisição.

O advogado vê na tentativa de "desracializar" o Brasil um desserviço às políticas de ação afirmativa que, segundo ele, estão dando certo nos locais do país em que já são implementadas.

"Eu concordo com esse ideal utópico de uma sociedade desracializada. Mas para atingir isso precisamos ter o reconhecimento de que o legado africano não é inferior, nem menos complexo ou sofisticado do que o europeu. A gente afirma a raça como uma estratégia para no futuro falarmos em outra coisa."

Silva se mostra otimista com a formação da primeira leva de beneficiados pela política de cotas, hoje adotada em 40 universidades, e acredita que, se bem aplicado, o instrumento das ações afirmativas pode ser dispensado no tempo de duas gerações.

Especial: Raízes Afro-brasileiras

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