Rearmamento do Hezbollah põe tropas da ONU à prova

Nem a Unifil (força da ONU no sul do Líbano), nem o Exército libanês conseguiram evitar, até agora, o rearmamento do grupo xiita Hezbollah, um ano depois do conflito com Israel. A fronteira com a Síria continua sendo ponto de entrada de armas que desestabilizam o país.

Há um mês, o enviado da ONU para o Líbano, Terje Roed-Larsen, divulgou um relatório em que manifestava preocupação com a ampla entrada de armas em território libanês pela fronteira síria.

A patrulha da fronteira está a cargo dos soldados libaneses, não da Unifil, que mantém 15 mil militares no sul do país. Isso, segundo políticos locais, impede uma maior eficácia na repressão ao contrabando de armas.

Patrulhar as atividades e controlar a entrada de armas não parece uma tarefa simples e, após um ano, as operações estão longe de atingir o objetivo proposto pela resolução 1701 do Conselho de Segurança da ONU. A resolução, que pôs fim à guerra do ano passado, prevê o desarmamento do Hezbollah e o respeito pela soberania do território libanês. No entanto, enquanto Israel viola o acordo quase todos os dias, invadindo o espaço aéreo do Líbano com vôos militares, o Hezbollah se rearma como nunca.

Segundo o governo libanês, a fronteira entre Síria e Líbano é usada para imensos contrabandos de armas, especialmente para o Hezbollah. De acordo com fontes do Hezbollah e do governo, o grupo xiita teria, antes da guerra, em torno de 10 mil mísseis e foguetes. Agora, esse número já estaria entre 20 mil e 30 mil. Mas é difícil saber o tamanho exato do arsenal do grupo. Segundo o político anti-síria Walid Jumblatt, "o Hezbollah está armado até os dentes".

"No momento, a Unifil teme por sua própria segurança. Não faz muito tempo, participei de reuniões com comandantes da ONU. Eles pediram nossa proteção, com medo de suas tropas serem alvo de atentados", disse um líder do Hezbollah identificado como Abu Ali.

De fato, segundo a Unifil, várias reuniões, inclusive com a presença do comandante das tropas, o major-general Claudio Graziano, foram realizadas para aumentar os laços com a comunidade da região.

O porta-voz das tropas espanholas, tenente-coronel Carlos Ruiz de La Sierra, confirmou as tais reuniões, mas negou que o assunto fosse proteção às tropas. "Apenas conversamos sobre interesses mútuos e como estreitar as relações", disse.

No dia 24 de junho, as tropas espanholas foram alvo de um atentado à bomba que matou seis militares e feriu outros dois na região de Marjaayoun, perto de Khiam.

"Enquanto o conflito árabe-israelense não for resolvido, a Unifil nada poderá fazer. Esse problema está acima deles", disse o professor Mehdi Noorbaksh, especialista em Líbano da Universidade de Harrisburg, no Estado americano da Pensilvânia. O professor brasileiro Roberto Khatlab, que mora no Líbano há 21 anos, também considera a missão da Unifil impossível de ser cumprida. Para ele, não há como desafiar o Estado paralelo do Hezbollah, que visivelmente manda no sul do país.

"Se por um lado a Unifil realizou diversas obras sociais e incrementou a economia de cidades do sul, por outro ela não conseguiu fazer seu principal trabalho - assegurar o desarmamento do Hezbollah", disse.

Os moradores de cidades cristãs e drusas do sul do Líbano culpam o Exército pelo rearmamento do grupo xiita. Na pequena cidade de Ebel es Saqi, próxima da base da Unifil na região de Marjaayoun, a população disse que os bloqueios dos militares são muito "leves".

A comerciante Hana Khoury disse que várias pessoas estranhas entraram na cidade nos últimos meses. "Eles não fiscalizam direito, às vezes deixam passar veículos sem revistar direito." Morador de Maarjayoun, o empresário Khaled Toufic não acredita que o governo libanês e a Unifil terão sucesso para desarmar o Hezbollah. "Não há como acabar com eles, como Israel achou que poderia. A própria população é o Hezbollah, eles todos são a resistência", disse.

Um ano após acabada guerra, o Hezbollah parece pronto para um novo conflito. O brasileiro Abbas Tormuz, líder na região e membro do Amal (grupo xiita aliado do Hezbollah), disse que nos últimos dois meses 5 mil novos combatentes já foram treinados, e armas continuam chegando regularmente da fronteira síria.

"Em quase um ano, só foram apreendidos dois caminhões com armamento que o Hezbollah reconheceu que era dele. E isso foi nos arredores de Beirute, nenhum aqui no sul."

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