México diz que quer maior aproximação com América Latina

O presidente mexicano, Felipe Calderón, repetiu várias vezes durante a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao país seu interesse em se aproximar mais da América Latina. "Temos uma posição geográfica que nos coloca ao norte, mas posso lhe assegurar que nosso coração está claramente ao sul e na América Latina", afirmou Calderón em discurso ao lado do presidente Lula, na abertura do fórum de empresários brasileiros e mexicanos.

Um pouco antes, o presidente Lula havia feito um chamamento para que o México se integrasse mais à América Latina. Disse que o país precisa "olhar um pouco para a América do Sul, olhar um pouco para o Mercosul e decidir que estratégia adotará em parceria com outros países da América Latina, em parceria com o Mercosul, em parceria com o Brasil, para que a gente possa começar a sonhar com um processo de integração mais forte na América Latina".

Lula disse que além de Brasil e México, que são as duas maiores economias da região, há outros países que são fortes em petróleo ou na área industrial, que podem participar de um processo mais acelerado de integração latino-americana.

"Nós poderíamos construir no século 21 as parcerias que não fomos capazes de construir no século 20", afirmou Lula. Calderón também disse que "o Brasil pode e deve ser a porta do México para o Mercosul". Na semana passada, o presidente argentino Néstor Kirchner, em visita ao México, convidou o país a integrar o bloco.

Além de integrar a Área de Livre Comércio da América do Norte (Nafta) com Estados Unidos e Canadá, o México tem acordos comerciais com 44 países. Com o Brasil, o México tem dois acordos de complementação econômica (ACE), que os industriais brasileiros consideram insuficientes para incrementar os negócios. O presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Armando Monteiro Neto, pediu em seu discurso que os dois presidentes se empenhem na ampliação da lista de produtos incluídos no acordo.

O México sempre esteve mais ligado aos Estados Unidos e pouco integrado com os vizinhos do sul. Desde que foi eleito, em julho do ano passado, o presidente Calderón tem dado sinais de que pretende mudar isso, se aproximando mais dos vizinhos.

A aproximação se dá tanto na área política, com visitas e encontros bilaterais, quanto nos esforços para aumentar o comércio com o sul e reduzir a dependência do mercado americano. Os Estados Unidos foram no ano passado o destino de 73% das exportações mexicanas e responderam por 57,6% das importações do país.

Calderón esteve no Brasil em outubro do ano passado, antes mesmo da posse, e desde então já se encontrou com o presidente Lula quatro vezes.

"Vivemos um momento excepcional das relações bilaterais", afirmou Lula na declaração à imprensa depois do encontro dos dois presidentes no Palácio Nacional. "Estamos trabalhando para aprofundar o diálogo político", disse Calderón.

Nos vários discursos que fizeram nesta segunda-feira, tanto o presidente Lula quanto Calderón destacaram os pontos de convergência entre os dois países, mas acabaram mostrando as divergências ao responder a uma pergunta sobre a reforma do Conselho de Segurança.

A pergunta era dirigida a Calderón e questionava se o presidente mexicano iria mudar a postura do país - que não apóia a proposta brasileira de reforma do Conselho de Segurança da ONU com a entrada do Brasil como membro permanente.

"Eu tenho que aceitar que nós temos divergências", disse Lula, ao explicar que, embora a pergunta fosse dirigida ao colega mexicano, ele tinha que responder porque era o "anfitrião".

Lula disse que o importante era que os dois países concordavam com a necessidade de se reformar e modernizar a ONU, mas afirmou que o assunto não foi discutido no encontro entre os dois presidentes.

"Por uma questão de finesse político nós não discutimos neste encontro com o presidente Calderón este assunto do Conselho de Segurança da ONU", afirmou Lula.

"Coincidimos profundamente na necessidade de reformar o Conselho de Segurança da ONU e de que ela precisa democratizar-se", disse Calderón.

Entre os vários acordos assinados pelos ministros dos dois países, um deles amplia para cinco anos o prazo do visto de turista e de negócios concedido pelo México a brasileiros. O visto foi reintroduzido a partir de 2005, quando aumentou muito o número de brasileiros atravessando ilegalmente a fronteira do México com os Estados Unidos.

Outro acordo prevê a cooperação tecnológica entre a Petrobras e a Pemex, a estatal mexicana de petróleo, que tem o monopólio total do setor no país.

O presidente Lula reafirmou o interesse da Petrobras em formar parcerias com a Pemex para exploração de petróleo em terceiros países, mas afirmou que nada será feito contrariando a legislação mexicana, considerada uma das mais rígidas do mundo em relação ao controle estatal.

"Queremos trabalhar juntos, mas faremos tudo dentro da lei do México, nada além disso", afirmou Lula.

O presidente também fez uma longa exposição, dirigida aos jornalistas mexicanos, sobre o programa brasileiro de biocombustíveis, e contou sobre a mistura de etanol na gasolina e os carros flex fuel.

"Se a metade do que se fala sobre aquecimento global for verdade, os biocombustíveis serão inexoráveis, irreversíveis. É uma questão de tempo", afirmou Lula.

O presidente Calderón, que tem dado sinais de que seria favorável à discussão de uma possível flexibilização do monopólio no setor de petróleo, disse que o exemplo da Petrobras deve ser analisado pelo México. Calderón disse que as duas empresas vivem momentos distintos: enquanto os investimentos e a produção da Petrobras vêm aumentando, os da Pemex vêm caindo.

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

UOL Cursos Online

Todos os cursos