Congresso do PT expõe desafio de eleição sem Lula

O debate em torno da candidatura própria ou não em 2010 foi um dos principais temas de discussão no 3º Congresso Nacional do PT e expôs o desafio inédito para o partido de ir para uma eleição presidencial sem Luiz Inácio Lula da Silva.

Nos cinco pleitos realizados desde a redemocratização, Lula foi sempre o candidato da legenda, unificando as diversas correntes internas e neutralizando as ambições individuais de eventuais candidatos em potencial.

Agora, salvo uma difícil mudança constitucional que permita a disputa de um terceiro mandato, o PT não contará com seu "candidato natural" e ainda poderá ter de levar um outro fator em conta: os interesses do próprio Lula como líder de uma coalizão que vai muito além do PT e que podem não coincidir com os do partido.

No seu discurso de sábado no congresso do PT, Lula disse que lutará para que o próximo presidente seja alguém identificado com o "nosso projeto", mas evitou se comprometer com uma candidatura petista. "O PT e seus aliados têm nomes, mas sobretudo idéias e legitimidade para ter uma candidatura própria", afirmou Lula.

A resolução aprovada pelo delegados no encerramento do 3º Congresso do PT, no domingo, afirma que o partido deve ser o "dirigente da condução do processo sucessório presidencial".

O texto diz que "o PT apresentará uma candidatura a ser construída com outros partidos", sem explicitar se o nome será apenas discutido com os aliados ou se poderá vir de um deles.

Na intepretação do presidente do partido, Ricardo Berzoini, o texto abre a possibilidade de o partido apoiar um candidato de outro partido.

"Se nós partirmos do pressuposto de que o candidato tem que ser do PT, vamos dar uma mensagem que não é boa para quem quer construir alianças", disse Berzoini.

Lideranças como o deputado Arlindo Chinaglia, presidente da Câmara dos Deputados, porém, não vêem a ausência de um petista na cabeça de chapa em 2010 como uma coisa natural.

"O partido com a dimensão do PT não pode abdicar do direito de discutir e de tentar construir uma candidatura própria", disse Chinaglia, durante a convenção do partido.

O deputado reconheceu que a ausência do nome de Lula na cédula de 2010 é um dado inédito que "precisa ser analisado" e acrescentou que já é hora de começar a construir nomes para disputar a presidência.

A maioria dos defensores da candidatura própria com quem a BBC Brasil conversou, porém, parecia insegura sobre a conveniência de explicitar a posição desde já.

"Precisamos reivindicar, mas deixar a porta aberta (para um candidato da coalizão)", disse o deputado federal Reginaldo Lopes (MG).

A simples admissão aberta da possibilidade de apoiar um não-petista para a Presidência é em si um fato inédito.

O delegado capixaba Derly Cipriano, que participou da fundação do partido, em 1980, admite que será estranho não ter Lula para representar o partido numa eleição presidencial.

Mas os militantes insistem que não faltam quadros ao partido.

"Temos pelo menos seis", disse um delegado, no que seria uma referência ao ministro do Desenvolvimento Social, Patrus Ananias, Marta Suplicy (Turismo), Tarso Genro (Justiça), Dilma Rousseff (Casa Civil), o prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel, e Jacques Wagner (governador da Bahia).

Se os nomes teriam peso eleitoral nacional para enfrentar a oposição e ainda disputar com outros candidatos da base de Lula os votos de eleitores indentificados com o governo é uma questão em aberto.

Para o cientista político Cláudio Couto, da PUC de São Paulo, o PT foi "decapitado" depois que algumas das suas principais lideranças foram implicados em escândalos de corrupção.

"Quem sobrou que é eleitoralmente viável? Há alguns anos, José Dirceu era um possível candidato, (Antonio) Palocci despontava como uma liderança nacional, José Genoino era uma importante liderança em São Paulo. Mas todos caíram em desgraça", disse Couto, em entrevista à

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