Para bolivianos da fronteira, usinas trarão benefícios

Carolina Glycerio
Enviada especial a Rondônia

Na cidade de Guayamerim, a cerca de 200 quilômetros de onde será construída a hidrelétrica de Jirau, a maioria dos bolivianos entrevistados pela BBC Brasil disse estar até entusiasmada com a movimentação econômica que as usinas do lado brasileiro poderão provocar na região.

"Quando se fala de energia elétrica, fala-se em desenvolvimento, há mais atividade comercial, mais circulação de divisas, mais movimento", diz o comerciante Orin Peña.

Hoje em dia a cidade, que é separada pelo Madeira da brasileira Guajará-Mirim, já está cheia de brasileiros que atravessam o rio para comprar eletrônicos, perfumes e bebidas alcoólicas mais baratas.

Outro comerciante, Juan Maria Ferrer, conta que já ouviu preocupações de que as usinas vão inundar áreas de agricultura na Bolívia, mas diz não acreditar nisso.

"Acho que o Brasil pode tomar todas as providências antes de fazer uma obra dessas, eles têm que ter feito cálculos para que não aconteça isso (impacto do lado boliviano)."

Os pescadores da região, porém, não estão tão certos de que a barragem no rio Madeira não vai prejudicar a migração dos peixes rio acima para a Bolívia.

"Creio que prejudicaria porque os peixes vêm pela corrente, saltando, em processo de crescimento. Se represarem o rio, vai afetar a pesca aqui", diz o presidente da Associação dos Pescadores de Cachuela Esperanza, Manuel Saldia.

Para compensar o impacto sobre os estoques de peixes, o Ibama determinou a construção de um canal artificial para que os peixes continuem subindo o rio até a Bolívia para se reproduzir.

Apesar dos temores dos pescadores, as lideranças locais de Cachuela Esperanza não só são a favor das usinas do Madeira, como estão empenhadas em que seja aprovado o projeto de uma hidrelétrica ali mesmo.

"Cremos que vai baixar a produção do pescado nos primeiros anos, mas depois, uma vez construída, o pescado voltará a aparecer. Hoje em dia não temos fonte de trabalho, e cremos que, com a construção da hidrelétrica (de Cachuela), as pessoas que vivem aqui vão ter fonte de trabalho e uma renda fixa, que agora não têm.", diz o corregedor da vila, Guillermo Mendes Vargas.

Segundo Vargas, hoje os cerca de 900 habitantes de Cachuela vivem com uma renda familiar entre 1000 e 1500 (R$ 240 e R$ 360) bolivianos por mês porque as únicas fontes de recursos no povoado são o peixe, a castanha e o palmito, todas sazonais.

Além disso, tanto em Guayaramerin como em Cachuela Esperanza, todos reclamam do custo da energia naquela região, mais de três vezes do que a média nacional. O governo já está construindo uma pequena hidrelétrica no rio Iata, mas ela só será suficiente para abastecer Guayaramerin.

Quanto às usinas do Madeira, o administrador do vilarejo, Vicente Castro, diz que não tem problema porque elas estão em território brasileiro.

"Não podemos nos opor. Se tivesse algum impacto na Bolívia, isso teria de ser visto em nível de chancelaria", disse.

A hidrelétrica de Cachuela Esperanza está prevista no projeto da Iirsa, que também inclui as usinas do Madeira.

Com essas três, faltaria apenas a da Cachoeira do Ribeirão, no trecho binacional, para viabilizar a hidrovia de 4,2 mil quilômetros que interessa ao Brasil e à Bolívia.

As hidrelétricas do Madeira geraram mal estar entre Brasília e La Paz, que chegou a exigir que o governo brasileiro realizasse estudos de impacto na Bolívia, quando saiu a licença prévia do empreendimento, em julho.

Desde então, porém, o governo boliviano tem feito pouco além de pedir informações sobre o projeto brasileiro.

A assessoria do gabinete do chanceler David Choquehuanca diz apenas que o vice-chanceler, Hugo Fernandez, está tratando do assunto e que emitirá uma posição oficial quando houver uma.

A resistência agora parece limitada ao movimento ambientalista, tradicionalmente fraco na Bolívia.

Jorge Molina, pesquisador do Instituto de Hidráulica e Hidrologia da Bolívia, lamenta que o seu governo tenha aliviado a pressão porque teme que a obra possa, sim, causar impactos negativos na Bolívia.

"O governo brasileiro decidiu que não haveria impacto na Bolívia", diz Molina.

Uma fonte do governo boliviano diz que o ressentimento inicial não teve a ver apenas com preocupações ambientais, mas também com o uso econômico supostamente individual do Brasil de águas que a Bolívia considera internacionais.

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