Assimetria é ruído em relação com Uruguai

Andrea Wellbaum
Enviada especial da BBC Brasil ao Uruguai

Politicamente, Uruguai e Brasil parecem mais próximos do que nunca: dois governos de partidos de esquerda que nasceram de movimentos sindicais e com integrantes que se conhecem há muitos anos.

A diferença do tamanho de suas economias, no entanto, tem provocando algumas tensões entre os dois vizinhos.

Apesar de o Mercosul ter proporcionado ao Uruguai acesso a um mercado 46 vezes maior, o país tem tido déficits na balança comercial e - assim como o Paraguai - tem pedido um tratamento compensatório.

Frustrado, o Uruguai também procurou acordos de comércio bilaterais com outros países, o que foi visto com desconfiança pelos parceiros de bloco.

Estados Unidos
O mais polêmico deles foi o Acordo Marco de Comércio e Investimentos (Tifa, na sigla em inglês) firmado há cerca de um ano com os Estados Unidos.

O acordo não viola as regras do Mercosul, mas foi visto como um possível primeiro passo para a firmação de um Tratado de Livre Comércio (TLC), o que as regras do bloco não permitem.

Pressionado por Brasil e Argentina, a maioria dos integrantes do atual governo assume o discurso de que se afastar do bloco não interessa ao país. "Os partidos de direita costumam defender um acordo de livre comércio com os Estados Unidos. Por que eles não fizeram isso quando estavam no poder? Porque o protecionismo dos Estados Unidos não permite", argumenta o ex-ministro de Relações Exteriores do Uruguai, Reinaldo Gargano.

Compensações
O Mercosul também adotou algumas medidas compensatórias, como a criação do Fundo para a Convergência Estrutural do Mercosul (FOCEM), formado principalmente por recursos de Brasil e Argentina, aplicados em sua maioria em projetos no Uruguai e no Paraguai.

Recentemente, o Brasil também concordou com a eliminação da dupla cobrança de tarifa externa comum aos produtos de fora do bloco que entram por Paraguai e Uruguai, mas têm o Brasil como destino.

O embaixador do Brasil no Uruguai, José Felício, disse que as medidas mostram que assimetrias foram formalmente reconhecidas dentro do Mercosul, o que, em sua opinião, é um grande avanço.

"O Focem não é muito, cerca de US$ 100 milhões anuais, mas já é alguma coisa. Já dá para construir pontes, melhorar estradas, modernizar as alfândegas, dar treinamento e construir ligações elétricas", afirmou Felício.

Mas, apesar de as tensões terem diminuído recentemente e o governo uruguaio ter reiterado diversas vezes sua vontade de continuar no Mercosul, as críticas à postura do Brasil, e também da Argentina, permaneceram.

Para o diretor da Comissão Setorial para Mercosul do Uruguai, José Manuel Quijano, o Brasil demorou para reconhecer que o país vizinho tem de receber um tratamento diferenciado por ser uma economia menor.

"Se um país pequeno como o Uruguai decide impedir o ingresso de um produto brasileiro em seu mercado, isso não vai fazer dano algum ao Brasil, porque o mercado uruguaio não tem muito impacto no país. Porém o contrário, a proibição da entrada de um produto uruguaio no Brasil, significa grandes danos à economia uruguaia", afirma Quijano.

Papeleiras
Além das questões econômicas, a posição de Uruguai entre o Brasil e a Argentina também tem provocado ruídos políticos.

Isso ficou claro na crise iniciada há cerca de dois com a instalação de indústrias de processamento de celulose na fronteira com a Argentina.

"A disputa com a Argentina fez com que o Uruguai se aproximasse mais do Brasil, mas ele acabou encontrando muito menos apoio do que necessitava. O Uruguai precisava que a disputa fosse incluída na agenda regional", explicou o analista político e historiador Gerardo Caetano.

O Uruguai pediu a intermediação brasileira para resolver a disputa, mas o país preferiu não se envolver, o que fez com que o caso fosse levado ao Tribunal Internacional de Haia e o rei da Espanha, Juan Carlos, assumisse o papel de intermediador.

"O Brasil poderia ter feito muito mais para resolver esta disputa", afirmou o ex-ministro Reinaldo Gargano, quando ainda era o titular da pasta, em fevereiro.

Já o embaixador do Brasil no Uruguai, José Felício, argumenta que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ofereceu sua ajuda, mas apenas se os dois países pedissem, o que não ocorreu. "Não queríamos fazer nada que pudesse soar como uma interferência indevida de nossa parte", afirmou o embaixador.

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