Para analistas, Chávez ocupa espaços, mas não ameaça Brasil

Cláudia Jardim*
De Caracas para a BBC Brasil

Com dinheiro e uma retórica inflamada, o presidente venezuelano, Hugo Chávez, está ocupando espaços deixados pelo Brasil no processo de integração e liderança do bloco sul-americano. Mas, na opinião de políticos, diplomatas e analistas ouvidos pela BBC Brasil no continente, Chávez não faz sombra à posição central que o Brasil ocupa na região.

Na recente crise entre Colômbia e Equador, depois que helicópteros colombianos invadiram o território equatoriano para realizar um ataque contra membros das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), ficou clara uma diferença de comportamento entre os governos de Brasil e Venezuela.

O presidente Chávez reagiu não apenas fazendo duras acusações à Colômbia, mas também enviando tropas para a fronteira com o país vizinho, sinalizando disposição de defender o Equador em um possível conflito militar.

"A posição do governo brasileiro foi muito mais significativa, porque não saiu em defesa do Equador, mas sim a condenar a ação da Colômbia que foi o problema central", diz o analista político equatoriano Milton Benitez.

Para o sociólogo venezuelano Javier Biardeau, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem mais peso quando as soluções de conflitos são levadas a organizações institucionais, como a OEA (Organização dos Estados Americanos).

"Chávez limita-se a replicar a política dos Países Não-Alinhados, já Lula tem mais flexibilidade e diversidade de aliados. Na hora da verdade, quem bate o martelo é sempre o Brasil", acredita Biardeau.

Teodoro Petkoff, ex-ministro do governo Caldera e opositor a Chávez, concorda. "Chávez não ameaça o Brasil. Existe uma paranóia americana que superdimensiona o seu governo."

Diplomacia do dinheiro
Para observadores, os dois presidentes e suas diplomacias têm estratégias distintas quando o assunto é integração e liderança regionais.

"Ambos desenvolvem estratégias diferentes, que avançam paralelamente, mas não são antagônicas. Nos projetos de integração, Chávez enfatiza o fator político, e Lula, a consolidação econômica", avalia Javier Biardeau.

Apesar disso, é justamente a Venezuela que tem tido dinheiro para tocar projetos econômicos e fazer um papel que alguns países vêem como naturalmente brasileiro.

A Venezuela é o quinto maior exportador mundial de petróleo cru e vive a bonança do aumento dos preços do barril (acima dos US$ 100), que permitiu ao país um crescimento econômico de 8,4% no ano passado.

"Chávez assume uma liderança no campo energético que lhe permite realizar esquemas de cooperação petrolífera privilegiados", afirma o analista internacional Carlos Romero.

O dinheiro das receitas com petróleo também permite que a Venezuela lidere a proposta de criação de um banco de desenvolvimento regional, o Banco do Sul, ou ajude a Argentina comprando títulos da dívida do país - Chávez prometeu comprar US$ 1 bilhão apenas no ano passado.

Além disso, a economia Venezuela é extremamente concentrada na produção de petróleo, e o país é um grande importador. Por essa razão, para Biardeau a Venezuela se apresenta como uma alternativa menos desigual comercialmente.

"Países economicamente menores agora preferem não tomar o trem brasileiro porque o padrão de desigualdade e assimetrias com Brasil não lhes convém", avalia.

Em contraste, o Brasil tem sido pressionado por vizinhos menores a criar mecanismos para ajudar ou compensar assimetrias econômicas regionais ou ajudar parceiros menores, mas os resultados têm sido tímidos.

O Fundo para Convergência Estrutural do Mercosul (Focem), por exemplo, foi criado por Brasil e Argentina para tentar ajudar seus parceiros menores, Paraguai e Uruguai, com fundos de US$ 125 milhões, sendo que o Brasil participa com 70%. O fundo é considerado pequeno, e o ritmo de gastos tem sido lento.

O Brasil também mantém superávit comercial com todos os outros países da América do Sul, com exceção da Bolívia. Só no mês de janeiro de 2008, as exportações brasileiras para a América do Sul somaram US$ 2,8 bilhões, com um crescimento de 26,9% sobre o primeiro mês de 2007.

Nesse mesmo período, o superávit comercial das exportações brasileiras na região alcançou US$ 899 milhões, de acordo com um balanço realizado pela Secretaria de Comércio Exterior brasileira (SECEX).

Para tentar aplacar as críticas que isso provoca, o país criou o Programa de Substituição Competitiva de Importações (PSCI). A intenção é comprar mais da região do que de outros lugares do mundo, desde que os vizinhos consigam competir. Muitos avaliam que o programa, porém, tem avançado lentamente.

Pobres e ricos
Além de estratégias distintas, o Brasil de Lula e a Venezuela de Chávez atraem públicos diferentes.

Para Benitez, o discurso de Chávez de permanente enfrentamento ao modelo econômico neoliberal e de ataque frontal à política dos Estados Unidos atrai as camadas populares e os movimentos sociais de esquerda na América do Sul.

Um dos biógrafos do presidente venezuelano diz que Chávez aplica na radicalidade de seus discursos e posicionamento político as vantagens que o petróleo lhe oferece. "Por estar sentado em um oceano de petróleo, Chávez pode dizer aos EUA tudo o que os outros não podem e capitaliza isso muito bem a seu favor", afirma Alberto Barrera.

Já os setores empresariais e as classes médias se identificariam com a presença moderada e negociadora do presidente Lula, que, na avaliação de Milton Benitez, está condicionada às características da "supereconomia".

"Esses setores vêem em Lula uma liderança que garante a tranqüilidade na região", acredita. "Por ser uma superpotência econômica e social, o Brasil se torna muito particular, a linguagem e as ações de Lula não podem ser tão radicais, como as de Chávez", afirma Benitez.

Para Javier Biardeau, "Chávez canaliza as mudanças radicais, e Lula aglutina as reformas moderadas. Chávez coloca gasolina ao fogo e Lula usa os extintores".

Papel central
No tabuleiro da disputa por influência regional, os movimentos mais rápidos e precisos de Chávez poderiam sugerir que eles está ganhando o jogo.

Mas especialistas ressaltam dois pontos que não podem ser ignorados. O primeiro é que a retórica e a diplomacia de Chávez polarizam muito mais do que une e têm levado a maioria dos governos regionais a lidar com ele com cuidado.

Um exemplo é que a principal proposta de integração regional de Chávez, a Alternativa Bolivariana para as Américas (Alba), tem apenas um outro membro na América do Sul, a Bolívia.

Outro ponto destacado pelos analistas é mais óbvio: o tamanho do Brasil. De acordo com os dados do Banco Mundial de 2006, o Brasil tem praticamente metade da população da América do Sul (49%), mais da metade do PIB (56%) e metade da área, fazendo fronteira com nove países.

Com cerca de 27 milhões de pessoas, a Venezuela representa apenas 9% da população regional, pouco mais de 7% do PIB e tem fronteira com apenas dois outros países além do Brasil.

"O tamanho da economia, a importância relativa e, sobretudo, por ser o país com mais fronteiras (faz com que) o Brasil esteja destinado a ser o eixo de qualquer processo de integração", acredita o analista político argentino Sérgio Berenztein.

Até mesmo do ponto de vista energético, com as recentes descobertas de petróleo no campo de Tupi, no litoral brasileiro, o mapa de poder regional deve ser alterado em um futuro não muito distante.

Esses fatores somados desenham um quadro, favorável ao Brasil, que nem o preço do petróleo nem o discurso de Chávez parecem conseguir mudar.

* Colaborou Andréa Wellbaum (Argentina)

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