Colombianos vêem Brasil como refúgio inacessível

Pablo Uchoa
Enviado especial da BBC Brasil à Colômbia e ao Equador

Colombianos que fogem da violência interna vêem o Brasil como um lugar pacífico, onde gostariam de retomar sua vida, mas ainda de difícil acesso.

O braço das Nações Unidas para refugiados, o Acnur, estima que até 20 mil colombianos já tenham sido "expulsos" para o Brasil por causa da violência e das extorsões praticadas pelas guerrilhas marxistas e por grupos paramilitares.

EFE
Refugiados colombianos que vivem no Equador encontram-se com Rafael Correa
TRÁFICO DESAFIA SEGURANÇA
REFORÇO DO PODERIO MILITAR
MÚSICA DE ROBERTO CARLOS É HINO
Mas a barreira do idioma e a inóspita selva amazônica, que dificulta a travessia a pé, têm contido o fluxo de colombianos, que incluindo os destinos de Equador e Venezuela chega a 250 mil pessoas.

Talvez pelo desconhecimento gerado pela distância, o Brasil aparece como uma espécie de esperança ou sonho distante no imaginário de colombianos em situação de emergência.

"Dá para ver que no Brasil as coisas estão melhores. Não se vêem os problemas que temos aqui na Colômbia: fome, violência, desemprego", disse à BBC Brasil o médico Álvaro Trujillo, que abandonou sua casa em Arauca e vive com ajuda do governo em Bogotá.

Para colombianos pobres, o crescimento econômico e a imagem de país amigável fazem do Brasil um lugar que oferece promessas de emprego e de uma vida melhor.

"Muita gente foi para o Brasil e diz que lá é muito bom para trabalhar, sobretudo na agricultura. Que quem chega lá encontra emprego facilmente, seja no que for, de acordo com a capacidade da pessoa", disse o vendedor de revistas Luiz Alberto Ruiz.

Apenas uma pequena parte dos colombianos entra no Brasil como refugiados -no total, são menos de 500, segundo dados oficiais.

Mas o Acnur estima que milhares vivem na Amazônia legal em necessidade de proteção internacional -ou seja, em uma situação em que poderiam receber o status de refugiado se entrassem com o pedido de documentação.

Muitos são indígenas amazônicos que não reconhecem as fronteiras nacionais e escapam da violência indo juntar-se aos seus 'irmãos étnicos' no lado brasileiro da floresta.

Os migrantes urbanos, de maior poder aquisitivo, se dirigem a Manaus ou São Paulo, um pólo de atração de mão-de-obra sul-americana.

Entrada
Um dos pontos de entrada no Brasil é Tabatinga, uma pequena cidade distante 2 mil quilômetros de Manaus que se confunde com a colombiana Letícia -as duas cidades são separadas apenas por uma lombada. Ambas são geminadas também à peruana Santa Rosa e, juntas, compõem a Tríplice Fronteira amazônica.

Protegida pela selva, que serve de território de "descanso" para guerrilheiros, mas que não abriga conflitos ativos, a tríplice fronteira é como um 'ponto de espera' para deslocados que ainda nutrem esperança de voltar aos seus povoados.

"Letícia e Tabatinga são cidades tranqüilas, porque aqui eles esperam para ver se há uma melhora na situação em suas cidades de origem", afirma o padre Gonzalo Franco, diretor da Pastoral da Mobilidade Humana do Alto Solimões.

"Mas dizemos que Letícia é uma bomba-relógio, porque quando chegar a violência os deslocados vão entrar no Brasil e pedir refúgio."

Como a legislação proíbe os refugiados de permanecer a menos de 50 km da fronteira, os que decidem viver no Brasil encaram uma viagem de seis dias de barco a Manaus. Outros terminam sua viagem em São Gabriel da Cachoeira, aos pés do Pico da Neblina.

A preocupação das organizações humanitárias é que a afluência de pessoas possa gerar ressentimento na população local.

Mas este não parece ser um problema para Javier (nome fictício), que morava em Bogotá e fugiu ameaçado por paramilitares. O ex-militante político agora conduz barcos de passeio no rio Amazonas. Há um ano separado da esposa, que se esconde em outra parte do país, ele aguarda a papelada para viver em Manaus ou em Brasília.

"Tenho a idéia do Brasil como um país muito organizado, onde não há tanta violência", disse Javier à BBC Brasil. "Nunca escutei nada parecido com o que há na Colômbia, a guerrilha, os paras (paramilitares). As notícias do Brasil não falam disso."

Solidariedade
Desde 2004, quando governos de 20 países se reuniram na Cidade do México para discutir um plano de ação para receber refugiados de todo o mundo, países vizinhos passaram a ter um papel mais ativo no problema da Colômbia.

Na Venezuela, um esforço concentrado das autoridades resultou na concessão de 1 milhão de carteiras de identidades para colombianos deslocados, segundo os resultados apresentados pelo presidente Hugo Chávez. Medidas semelhantes também são comuns no Equador.

O Brasil passou a colaborar sobretudo em relação ao mecanismo de realocação de refugiados, idealizado para deslocar de um país a outro pessoas que continuem em situação de risco mesmo longe de casa.

"Até agora, a realocação se fazia apenas em alguns países, como Estados Unidos, Canadá e Austrália. Agora, outros países, como o Brasil, estão implementando o Plano de Ação do México e dando a refugiados da região e de fora uma oportunidade de recomeçar", disse à BBC Brasil o representante do Acnur na Colômbia, Jean Noel Wetterwald.

Ele ressaltou a importância de que a comunidade internacional demonstre "solidariedade" com os refugiados no conflito colombiano.

"Em 28 anos de trabalho na ONU, estive em crises que hoje fazem parte da história. No Vietnã, no Camboja. Quando se está no meio da crise, não se vê saída. Mas no final, graças aos instrumentos e os princípios de solidariedade internacional, consegue-se sair dela."

O conflito na Colômbia já obrigou cerca de 3 milhões de pessoas a deixar suas casas, segundo o Acnur. Outras 200 mil engrossam a maré de deslocados a cada ano, afirmou Wetterwald.

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