Integração energética ainda é desafio na América do Sul

Da Redação da BBC Brasil

Em 1951, menos de uma década depois do fim da Segunda Guerra Mundial, Alemanha e França assinaram um pacto para criação da Comunidade Européia do Carvão e do Aço.

O tratado é considerado um embrião da União Européia que surgiu nos anos 90 e mostrou que a energia e a indústria serviriam de ponto de partida para integração dos dois antigos inimigos de guerra.

Bruno Miranda/Folha Imagem
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva conversa com o presidente da Venezuela Hugo Chávez (dir.) e Evo Morales, presidente da Bolívia
INTEGRAÇÃO SEM ESTRATÉGIA
MERCOSUL AINDA ENGATINHA
MERCADO BRASILEIRO SE DISTANCIA
TRÁFICO DESAFIA SEGURANÇA
LIDERANÇA BRASILEIRA: PROMESSA
Na América do Sul, essa idéia tem inspirado os governantes que defendem a integração do continente.

O presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, disse em uma das cúpulas sul-americanas que a integração energética e de infra-estrutura "representam para a América do Sul o mesmo que o carvão e o aço significaram para a integração européia nos anos 50".

No entanto, nos últimos anos, em vez de servir como pilar de integração, a energia tem provocado disputas e tensões na América do Sul e se mostrado um desafio a ser superado.

Mais integração
Apesar dos conflitos, a integração energética aumentou na América do Sul nos últimos anos.

Hoje, os países da região dependem mais de recursos energéticos dos seus vizinhos do que no passado.

O analista de petróleo iraquiano Mazzar Al Shereidah, que mora em Caracas há 40 anos, lembra que nos anos 70, durante o "milagre econômico", o Brasil preferia comprar combustível do Oriente Médio, em vez de se abastecer com petróleo da Venezuela.

"Não havia entre os governos a idéia de atravessar a fronteira e buscar abastecimento no país vizinho", diz.

PARCERIA ENERGÉTICA
Hoje, além de ter aumentado a sua própria produção de petróleo, o Brasil diversificou a matriz energética -com grande participação de fontes sul-americanas.

Um exemplo notório é o do gás natural boliviano, que o Brasil importa desde 1999. O gás boliviano -junto com o gás comprado da Argentina- já representa mais de 8% do consumo brasileiro.

O recurso boliviano ajudou o Brasil a sair de uma crise de desabastecimento de energia em 2001, provocada pelas secas e pela alta dependência brasileira em hidrelétricas.

"Depois de uma longa jornada de aproximação entre Brasil e Bolívia, a partir de 1997 conseguimos nosso objetivo nacional permanente, que é poder vender gás natural para o Brasil", afirma o analista de energia boliviano Carlos Miranda.

Devido à integração energética promovida pelos gasodutos construídos na América do Sul, Argentina e Brasil são hoje os países com maiores frotas de veículos movidos a gás natural no mundo.

Além do Brasil, outros países também se beneficiam da integração que houve dos sistemas de gás natural. O Chile compra diariamente quase 2 milhões de metros cúbicos do gás argentino.

Disputa pelo gás natural
O mesmo gás natural que promove a integração dos países também é alvo de tensões.

VENEZUELANOS GOSTAM DO BRASIL
No ano passado, uma crise de desabastecimento de energia na Argentina fez com que o país reduzisse suas exportações de gás para o Chile.

Neste ano, a falta de capacidade da Bolívia de aumentar a sua produção de gás natural pôs em risco o cumprimento de contratos com Brasil e Argentina.

A crise energética boliviana foi alvo de reuniões dos presidentes dos três países, com Brasil e Argentina disputando pelo gás boliviano.

Carlos Miranda afirma que para a Bolívia conseguir abastecer Brasil e Argentina ao mesmo tempo, prevendo o aumento da demanda nos próximos anos, o país precisa duplicar a sua produção de gás natural.

"Na próxima década, a Bolívia tem condições de fazer isso. Mas antes, não", afirma.

Nacionalizações
A energia também provoca uma disputa ideológica sobre como gerir os recursos na América do Sul.

Em 2006, o governo de Evo Morales publicou um decreto nacionalizando todas as empresas que exploram hidrocarbonetos na Bolívia, atingindo refinarias da brasileira Petrobras no país.

O Brasil vendeu suas refinarias ao governo boliviano por US$ 112 milhões, mas o episódio provocou tensões diplomáticas entre os países.

Um dos mais radicais integrantes do primeiro gabinete de Morales, o ex-ministro de Energia Andrés Soliz Rada, disse que o ter o Brasil como parceiro é "muito prejudicial" para a Bolívia.

A PETRODIPLOMACIA DE CHÁVEZ
"Com a nacionalização do gás e do petróleo, eu pensei que se poderia fazer uma política de alianças para resistir melhor à Petrobras", disse ele, em entrevista à BBC Brasil.

"Eu propunha, por exemplo, um grande acordo com Enarsa (empresa estatal Argentina). Este acordo Argentina-Bolívia poderia melhorar uma posição. Mas a Petrobras também está muito forte na Argentina. E a outra petroleira forte na Argentina é a Repsol, que também está muito vinculada à Petrobras."

Itaipu
A Usina Hidrelétrica de Itaipu Binacional, que foi pioneira na integração energética da América do Sul nos anos 70, também deve ser alvo de tensões nos próximos meses.

Brasil e Paraguai dividem a energia produzida pela maior hidrelétrica do mundo. O Brasil compra quase toda energia que cabe ao Paraguai. Itaipu responde hoje por mais de 20% da energia elétrica consumida no Brasil.

No entanto, os paraguaios reclamam que a tarifa paga pelo Brasil é muito baixa. Uma revisão do contrato é alvo dos principais candidatos à presidência do Paraguai e o assunto deve voltar às mesas diplomáticas até o final do ano.

Ramón Casco, editor de economia do jornal ABC Color, uma das mais fortes vozes contra o Brasil na questão de Itaipu, afirma que a disputa entre Brasil e Bolívia sobre nacionalização dos hidrocarbonetos serviu de inspiração para os paraguaios pedirem uma renegociação de Itaipu.

"Se Evo Morales pediu melhores preços por gás natural, por que o Paraguai não teria direito a pedir melhores preços pelo excedente energético de Itaipu?"

Brasil e Venezuela
Um dos casos mais representativos do desafio da integração energética na América do Sul é o da relação entre Brasil e Venezuela.

Os dois países possuem as duas maiores reservas de petróleo da América do Sul, com capacidade conjunta de mais de 90 milhões de barris.

A Venezuela é o oitavo maior exportador de petróleo do mundo e o Brasil é o maior mercado consumidor da região.

No entanto, apesar de uma aparente compatibilidade, a aproximação de Brasil e Venezuela é historicamente tímida.

O analista de petróleo Mazzar Al-Shereidah conta que desde os anos 1980, diferentes governantes de Brasil e Venezuela têm prometido uma aproximação, com possibilidade de extração, distribuição e exportação conjunta.

A aproximação entre Lula e Chávez resultou no anúncio de três projetos energéticos conjuntos de PDVSA e Petrobras no ano passado.

No entanto, o Brasil virtualmente abandonou dois destes projetos.

BRASILEIRA QUE MORA NO EQUADOR FALA
A Petrobras cancelou sua participação em um projeto de prospecção de gás natural em Mariscal Sucre e, neste ano, anunciou a redução da participação no bloco de Carabobo, na Faixa do Orinoco. A Venezuela agora busca outro parceiro internacional para preencher o lugar vazio deixado pelos brasileiros.

Mesmo com a aproximação de Lula e Chávez, a presença da Petrobras na Venezuela continua restrita à participação minoritária em quatro empresas controladas pela PDVSA na Faixa do Orinoco.

Em 2010, deve começar a funcionar em Pernambuco a refinaria Abreu e Lima, o primeiro investimento conjunto da Petrobras e PDVSA -com participação mista de 60% e 40% respectivamente.

"No início dos governos Lula e Cháves, houve grandes, gigantescas, enormes expectativas em relação à integração energética entre Brasil e Venezuela", diz Al-Shereidah. "Mas na realidade não se viu nada senão uma pálida sombra daquelas expectativas, se compararmos o que foi posto em prática com o que se imaginou."

Outros temas energéticos também dividem Brasil e Venezuela. O Brasil nunca se mostrou entusiasmado com o Gasoduto do Sul ou com a Petroamerica, duas propostas de Chávez para integração do continente. E visando os Estados Unidos, Chávez lançou uma campanha contra os biocombustíveis, que têm sido uma das frentes diplomáticas brasileiras.

Futuro
Além das disputas atuais, novos acontecimentos devem engrossar a pauta de desafios de integração energética nos próximos anos.

Em outubro, o Brasil anunciou a descoberta de um megacampo em Tupi, na Bacia de Santos.

BRASIL DISTANTE DO EQUADOR
Ainda não está claro o impacto da descoberta na produção brasileira, mas existe a expectativa de que o Brasil se torne um importante exportador de petróleo na próxima década.

"A maior parte dos analistas de petróleo parecem concordar que o lugar do Brasil na geografia do petróleo deve mudar", afirma o Economist Intelligence Unit.

"O campo de Tupi, cuja descoberta foi anunciada em novembro de 2007, tem potencial de 5 a 7 bilhões de barris, segundo a Petrobras. Isso equivale a entre 35% e 55% das reservas atuais do Brasil, estimadas em 14 bilhões. "

Outro relatório -produzido pelo banco alemão Deutsche Bank- afirma que o crescimento econômico da China e a sua necessidade de combustíveis deve gerar ainda mais competição por recursos nos países da América do Sul.

"A China já precisa de mais petróleo e gás do que todo o continente latino americano e sua demanda será o dobro da demanda da região em 2030", diz o relatório.

Além das disputas atuais, a mudanças das matrizes energéticas dos países e a competição por recursos devem complicar ainda mais a integração energética da América do Sul.

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

UOL Cursos Online

Todos os cursos