Defensores da autonomia querem manter 'mamata', acusa Morales

Marcia Carmo
Enviada especial da BBC Brasil
Em Santa Cruz de la Sierra

O presidente da Bolívia, Evo Morales, afirmou neste sábado que os defensores da autonomia dos Departamentos (Estados) mais ricos do país reagem às medidas do seu governo porque não querem perder a "mamata".

As declarações do presidente foram feitas a poucas horas do referendo pela autonomia que será realizado em Santa Cruz neste domingo.

"Com o pretexto da autonomia na região do Oriente (onde está o Departamento de Santa Cruz), apesar de que não sejam todos, algumas famílias continuam na luta para não perder privilégios. Eles não querem perder a mamata", afirmou.

Na votação deste domingo, os eleitores de Santa Cruz deverão marcar "sim" ou "não" à autonomia política e econômica do Departamento, aprovando ou rejeitando um estatuto que amplia os poderes estaduais frente à administração do governo central, em La Paz.

Morales disse ainda, segundo a agência oficial, ABI, que na Bolívia todos são "originários" (nascidos de povos indígenas), mas a diferença, destacou, é que uns são "indígenas pobres" e outros "líderes cívicos, mas muito ricos".

Os líderes "cívicos" são os que encabeçam os movimentos pela autonomia nos Departamentos de Santa Cruz, Beni, Pando e Tarija - nestes três últimos casos, os referendos estão marcados para junho.
"Força"
Pouco antes das declarações de Morales, o governador de Santa Cruz, Ruben Costas, disse numa entrevista à imprensa estrangeira que o presidente resiste a ver a realidade da "força" que surge com os referendos.

"O governo vai ter que deixar sua miopia de lado e reconhecer essa força impressionante e de legalidade que representam os referendos", afirmou Costas.

Quando questionado se não temia pela derrota nas urnas, neste domingo, e de ser questionado internacionalmente por manter a realização de um referendo questionado pelo governo central, ele respondeu: "Não podemos ter medo porque esse é um processo revolucionário que está nascendo a partir da via democrática".

"E também não temos medo das declarações do governo Morales, porque muita coisa é dita para a platéia. Eles costumam fazer declarações fortes, como a de que haveria risco de guerra civil, mas nós sabemos que tudo isso é discurso", completou.

Divisão
Costas negou que, como alerta o governo central, os referendos pela autonomia pretendam dividir a Bolívia.

"Separatismo? Nada disso. Quando este governo começou (2006) quiseram mudar o escudo nacional, a bandeira nacional e falaram até na nação aimará (etnia indígena). Este governo sim que estimulou uma divisão e buscou essa situação", disse.

"Além disso, 40% dos que vivem em Santa Cruz não nasceram aqui (imigrantes de outros Departamentos). Impossível dividir um país assim."
Costas destacou que nenhum país se "desintegrou" porque deixou de ser unitário (com as decisões centralizadas no governo nacional) e passou a ser federal.

"Ser contra essa possibilidade (dos referendos para se chegar ao federalismo) é defender o totalitarismo", afirmou.

'Interferência' de Chávez
Na entrevista, Costas criticou a "interferência" do presidente venezuelano Hugo Chávez nas decisões do país.

A oposição costuma acusar o presidente Evo Morales por supostamente se aliar incondicionalmente a Chávez.

"Aqui, além de fundamentalismo, existe um senhor que com uma cara de pau incrível ignora a nossa rejeição à sua intromissão na nossa política. Esse senhor presidente Chávez", disse.

Quando perguntado se achava que Morales deveria renunciar, caso a maioria dos Departamentos votem pelo sim a autonomia, ele respondeu: "Volto a ratificar meu espírito democrático. O dia que ocorrer um golpe de Estado no país, esse dia vou estar contra (...). Que o presidente conclua seu mandato, como corresponde".

Nesta semana, diferentes integrantes do governo do presidente Morales sinalizaram que poderia ocorrer "fraude" na votação deste domingo.

Neste sábado, o presidente da Corte Eleitoral Departamental de Santa Cruz, Mario Parada, disse à BBC Brasil que essa possibilidade está "descartada".

Segundo ele, será usado o sistema tradicional de votação, baseado nas regras da Corte Nacional Eleitoral. "E se nos acusarem de fraude, aceitamos qualquer tipo de auditoria", disse.

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