Análise: Relatório de previsões dos EUA deve ser visto com cautela

O novo documento divulgado pela comunidade de inteligência dos Estados Unidos aponta para um mundo mais fragmentado nos próximos anos.

As previsões estão no relatório Global Trends 2025 (ou Tendências Mundiais 2025, em português) elaborado pela National Intelligence Council (NIC), entidade que coordena o trabalho de todas as agências de inteligência do país.

O documento afirma que os Estados Unidos vão continuar como o país mais poderoso do mundo, porém menos dominante; o poder vai mudar do Ocidente para o Oriente; o apelo da Al-Qaeda vai diminuir; um mundo multipolar vai surgir com China, Índia e outros países com papéis mais importantes.

Mas é preciso acrescentar uma nota de ceticismo a esse relatório.

Em 1980, quando fazia sua campanha presidencial nos Estados Unidos contra o presidente Jimmy Carter, Ronald Reagan usava como base a perspectiva de os Estados Unidos serem dominados pela União Soviética e o Japão.

Naquela época, o Japão tinha o papel exercido pela China atualmente, iria dominar o mundo com sua força econômica.

Efeito Bill Gates Mas foram os Estados Unidos que se reafirmaram.

Parte disso ocorreu devido ao efeito Bill Gates. Uma nova indústria foi inventada para ajudar a amortecer o impacto da morte da velha indústria. A Microsoft dominou o mundo.

Foi o Japão que entrou em um longo período de relativa estagnação e, na verdade, poucos citam o país atualmente como uma influência mundial. E todos sabem o que aconteceu com a União Soviética.

O colapso da União Soviética deve nos levar à reflexão quando examinamos esse tipo de relatório de longo alcance. Quase ninguém previu. As mesmas pessoas que não conseguiram prever a queda tiveram se explicar porque algo assim ocorreu.

O mesmo parece estar ocorrendo neste momento com a crise financeira.

Relatório de 1997 Se analisarmos o relatório Global Trends divulgado em 1997, com perspectivas para o ano de 2010, é possível ver os problemas neste tipo de previsão.

"A erosão na autoridade central do governo russo não será fácil de reverter", afirmava aquele relatório a respeito da Rússia.

O presidente Vladimir Putin conseguiu reafirmar o controle central e ainda falta um ano para 2010.

O relatório de 1997 também era muito otimista em relação à democracia no país.

"A liderança autoritária pode não ser, necessariamente, o mesmo que governo autoritário", dizia o documento. "Uma liderança forte pode sustentar as normas e instituições democráticas ainda na infância." Isso aconteceu? Mas o relatório previu de forma precisa uma tendência para a política russa. "O mais provável em termos de política exterior seriam esforços russos para reconstruir uma esfera de influência em relação aos seus vizinhos próximos." E, a respeito do Iraque, o relatório afirmou corretamente que Saddam Hussein seria eliminado.

Cautela É preciso cautela em relação a esses relatórios. Eles são freqüentemente influenciados pelo que está acontecendo no momento em que são elaborados e, então, são feitas simples projeções para o futuro.

Por exemplo, o relatório atual parece ter sido escrito antes da pior fase da crise econômica e supõe que o crescimento econômico vai continuar da mesma forma que ocorreu no passado.

Também existem amostras do óbvio: se os preços do petróleo aumentarem, segundo o relatório, os grandes exportadores ficarão bem. Se os preços diminuírem, isso não ocorrerá. Claro.

Mas também há indicadores úteis e, geralmente, a importância de um documento como esse, se realmente fizer corretamente o que se propôs a fazer, é afastar de líderes nacionais qualquer sugestão de que eles têm todas as respostas.

Democracia e justificativas Esse relatório será bem recebido no mundo todo e por muitos nos Estados Unidos, que acabaram de eleger um novo presidente comprometido em mudar a maneira como o país negocia.

E coloca um fim ao assunto, que surgiu pouco antes do governo de George W. Bush assumir o poder em 2001, que afirmava que um "Novo Século Americano" estava próximo, em que os Estados Unidos iriam usar seu poder para reafirmar suas crenças, para o bem do mundo, da maneira que considerava apropriada.

O relatório afirma que o modelo de liberalismo econômico ocidental, democracia e secularismo "pode perder seu brilho". A implicação disso é que vamos ouvir menos a respeito de democracia como uma forma de justificar a política do que temos ouvido nos últimos anos.

Esse fato não será bem recebido por aqueles que consideram a democracia como um guia. Mas, provavelmente, é uma perspectiva realista.

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