Maior favela da Venezuela tem disputa acirrada para prefeito

A fidelidade do voto da população pobre, que em sua maioria apóia o presidente venezuelano Hugo Chávez, será colocada à prova em Petare, a maior favela urbanizada da Venezuela, nas eleições regionais deste domingo.

Localizada em Sucre, o mais populoso dos cinco municípios da região metropolitana de Caracas, Petare é uma cópia caribenha dos morros do Rio de Janeiro. Neste reduto de simpatizantes de Chávez, pesquisas de intenção de voto para prefeito mostram uma disputa acirrada entre o candidato da direita Carlos Ocariz, do partido Primeiro Justiça, e seu adversário chavista Jesse Chacón, ex-ministro de Interior e Justiça. Ocariz orientou sua campanha baseado na principal preocupação dos venezuelanos de acordo com pesquisas: a insegurança. "Aqui há mães que perderam seus filhos, mulheres que viram seus esposos morrerem, gente que por falta de resposta têm que lutar com as unhas para conservar a vida", afirmou Ocariz, durante um comício de campanha, ao prometer "mudanças". Homicídios A Venezuela tem uma das maiores taxas de homicídios do mundo. Segundo o Corpo de Investigações Científicas Penais e Criminalísticas, em 2008, até o mês de setembro, 611 pessoas foram assassinadas somente no município Sucre. Para o candidato do governo, Jésse Chácon, o problema da insegurança está relacionado à exclusão social. "Temos que combater a criminalidade, sem dúvida, mas não vamos solucionar estruturalmente o problema do crime se não entendermos que a causa da violência é a exclusão", disse Chacón durante a campanha. "A única maneira de solucionar isso é criar espaços onde as crianças possam ter acesso à cultura, educação e esportes." Além da insegurança, os moradores de Petare, onde vivem quase 1 milhão de pessoas, reclamam da escassez de água, da falta de saneamento básico e de condições dignas de moradia.

Esses problemas, segundo a população local, não foram combatidos na gestão do atual prefeito, José Vicente Aválos, filho de um ex-vice-presidente chavista. "Abandono total" Neste sábado, na véspera da eleição, temendo perder o voto dos eleitores indocumentados, o governo venezuelano organizou uma estrutura especial do programa "Missão Identidade" no centro de Petare para fornecer o documento aos que não têm cédula de identidade, algo comum no país. Enquanto aguardava na fila, debaixo de chuva, a motorista Rosa Quintana disse estar cansada da atual gestão. "Há um abandono total. As pessoas vivem com medo aqui, não há segurança, não há coleta de lixo, não fizeram nada, olha isso", disse, enquanto apontava o caótico trânsito de automóveis, pessoas e uma infinidade de vendedores ambulantes na Redoma de Petare. "Meu voto por eles (chavistas) eu já não dou", disse. Uma fonte do governo admitiu à BBC Brasil que a ineficiência da atual prefeitura na aplicação de políticas públicas pode dificultar uma vitória chavista no município Sucre. "O atual prefeito realizou uma péssima gestão e isso dificulta nossas possibilidades de vitória", afirmou a fonte. Em uma tentativa de recuperar o eleitorado, o atual prefeito recorreu a uma antiga manobra eleitoral. Máquinas de lavar roupa, geladeiras, materiais de construção, colchões e outros utensílios domésticos foram distribuídos a cerca de 6 mil famílias na reta final da campanha. Para analistas, uma derrota em Petare significaria um duro golpe para o governo devido à importância das classes populares na base de apoio. "Revolução" O primeiro sinal de que a população de Petare estava insatisfeita com o governo chavista foi emitido no ano passado, no referendo da reforma constitucional, quando mais de 60% dos moradores do bairro votaram contra a reforma, percentual acima da média nacional de 51%. Para tentar impedir que este resultado se repita, reforçando o tom de plebiscito dado à disputa, o próprio Chávez liderou uma caravana em Petare durante a campanha para pedir votos a seus simpatizantes. "O que está em jogo é o futuro da revolução", afirmou Chávez repetidas vezes durante a campanha. A costureira Maria Cecília López, moradora do bairro, diz concordar com o presidente. Na sua opinião, a continuidade dos projetos da "revolução" está em jogo neste domingo. "Hoje temos saúde, educação, dignidade", disse. "Claro que a situação poderia ser melhor, mas não será a oposição, que sempre desprezou os pobres, que vai resolver nossos problemas aqui no bairro. Continuo com o processo (governo) e com o presidente Chávez." Apesar de não concorrer a nenhum dos cargos em disputa, Chávez foi o grande protagonista nessas eleições e, segundo a consultoria Datanalisis, a participação do presidente na campanha pode influenciar o voto dos chavistas indecisos. Cerca de 17 milhões de venezuelanos deverão comparecer às urnas neste domingo para escolher 23 governadores e 328 prefeitos, além de 233 legisladores regionais.

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

UOL Cursos Online

Todos os cursos