Cristina anuncia pacote para aquecer economia argentina

A presidente da Argentina, Cristina Kirchner, anunciou, nesta terça-feira, um pacote com cinco medidas para aquecer a economia do país. As iniciativas incluem a criação do Ministério da Produção para, como afirmou a presidente, "buscar novos mercados" de exportação, e grandes descontos em impostos para os que repatriarem capital para o país ou que o declararem ao fisco.

Neste caso, os valores dos impostos serão diferentes para os que declararem os recursos, sem devolvê-los ao país (8%), para os que aplicarem o capital no sistema financeiro (6%), para os que comprarem títulos da dívida do país (3%) e para os que investirem em infra-estrutura, no setor imobiliário e agropecuária (1%).
Normalmente, como informou a TV América, essa carga tributária é de 100%. Ou seja, um dólar pago para cada dólar repatriado.

Historicamente, investidores e as classes média e alta do país depositam dinheiro no exterior ou fora do sistema financeiro, temendo crises - processo que voltou a se intensificar este ano e que acelerou a histórica bancarrota política e econômica de 2001. Com esta medida, o governo espera aumentar a liquidez e o crédito, escassos no país.

Apesar do anúncio, economistas como Eduardo Blasco e Daniel Artana, entendem que o problema continua sendo a falta de confiança no destino do país. "As medidas são ótimas, mas tudo depende do fator confiança", afirmaram.

As outras medidas anunciadas pela presidente foram: perdão das dívidas empresariais com o Estado para os que oficializarem a contratação de dez trabalhadores e redução da carga tributária para as empresas que contratarem novos empregados - sendo 50% no primeiro ano e 75% no segundo ano.

Política econômica
"Enviarei amanhã (quarta-feira) ao Congresso um projeto de lei de conteúdo tributário para promoção do trabalho registrado, visando, principalmente as pequenas e médias empresas e ainda a repatriação de capital", afirmou.

Cristina discursou no encerramento da XIV Conferência Anual da União Industrial Argentina (UIA), em um momento em que industriais e trabalhadores reclamam diferentes medidas do governo para evitar a continuidade da desaceleração da economia e a queda nas exportações, no consumo e na geração de empregos.

A Argentina cresceu a taxas recordes (acima de 6%) entre 2003 e 2007, mas este ano poderia registrar expansão de 5%. Especula-se que o crescimento pode ser até nulo em 2009.

"Nosso objetivo é sustentar a produção, o emprego, o consumo e a exportação", destacou.

Cristina reiterou que, apesar das críticas, não pretende mudar o rumo econômico escolhido por seu antecessor - seu marido e ex-presidente Nestor Kirchner - e mantido por ela.

"Primeiro falavam (em 2003) que o crescimento econômico não seria mantido. Depois, que o melhor vinha do norte (Estados Unidos), o que a crise provou que não é verdade. E este ano disseram que tínhamos que desaquecer a economia para frear a inflação. Ainda bem que não seguimos receitas das consultorias privadas", disse.

Surpresa
Os anúncios da presidente surpreenderam os industriais, como reconheceu o presidente da UIA, Juan Lascurain, que esperavam medidas ligadas à maior desvalorização do peso frente ao dólar para "compensar" a desvalorização do real no Brasil - o que, segundo eles, aumenta a competitividade dos produtos brasileiros.

"Estamos surpresos, mas muito satisfeitos. Essa redução de impostos vai contribuir para compensar a questão cambial", afirmou. Minutos antes do discurso de Cristina, Lascurain agradeceu o governo por "proteger" a indústria local a partir de medidas no Mercosul e da postura na Rodada de Doha de liberalização de comércio.

Brasil e Argentina planejam anunciar, em dezembro, aumento da Tarifa Externa Comum (TEC) do bloco para diferentes produtos, como vinhos e laticínios.

Mas os dois países sustentam posturas radicalmente diferentes em relação às discussões sobre Doha. Na semana passada, o secretário de Assuntos Econômicos Internacionais do Ministério das Relações Exteriores, embaixador Alfredo Chiaradia, disse à BBC Brasil que os países ricos deveriam fazer concessões na área agrícola antes de pedir abertura no setor industrial dos países emergentes.

Construção civil
A presidente afirmou, em seu discurso, que os detalhes das medidas serão divulgados nesta quarta-feira por integrantes de sua equipe ministerial.

Na noite desta terça-feira, Cristina fez outros anúncios para estimular a economia. Desta vez, disse que no dia 15 de dezembro formalizará um pacote de 71 bilhões de pesos para o setor da construção civil - uma das principais alavancas da primeira etapa da retomada do crescimento, a partir de 2003.

Na semana passada, após a estatização da previdência privada, autoridades do governo informaram que os recursos poderiam ser investidos neste setor para estimular a economia do país.

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