Depois de pleito, Chávez não descarta possibilidade de reeleição

O presidente da Venezuela Hugo Chávez disse na segunda-feira que não apresentará uma nova proposta de reforma para a reeleição indefinida, mas não descartou a possibilidade de que o partido do governo apresente, no próximo ano, a proposta ao Parlamento venezuelano. Chávez acaba de sair de uma eleição regional em que seu partido, PSUV, conquistou 17 dos 22 Estados em disputa. A oposição, porém, saiu vitoriosa nos Estados mais povoados do país e com maior peso econômico e estratégico. "Já disse e repito, não vou propor nenhuma outra reforma constitucional. Me restam, a partir do próximo dia dois de fevereiro, quatro anos de governo", afirmou Chávez em coletiva de imprensa em Caracas. "Se o PSUV (...) e uma parte importante dos que me seguem querem propor, isso é coisa deles, teriam que recoletar assinaturas, levá-lo à Assembléia Nacional e logo ir a referendo", afirmou Chávez.

O projeto de reforma constitucional, que incluía a reeleição à Presidência por período indefinido, foi barrado nas urnas no referendo do ano passado, quando Chávez pretendia fincar as bases para a consolidação do "socialismo do século 21".

"Esse é um direito, se o povo ou parte do povo decide fazer uso desse direito, o país verá se vai a referendo, se aprova ou não", disse Chávez. "Essa não é minha prioridade agora." Resultado 'desfavorável' Analistas ouvidos pela BBC Brasil consideram que o resultado do pleito deste fim de semana poderá impedir o avanço desta medida. Para o sociólogo Edgardo Lander, da Universidade Central da Venezuela, o cenário ideal para o governo seria ter saído fortalecido do pleito regional, mantendo o controle dos principais Estados do país. "A janela de oportunidade para o governo lançar a reeleição seria em 2009, mas isso se complicou com o peso do resultado eleitoral", afirmou Lander. Vitoriosos em cinco Estados, além da prefeitura metropolitana de Caracas, os opositores governarão os Estados em que habitam cerca de 44% dos venezuelanos, segundo dados oficiais.

"Esse número mostra que não há correlação de forças suficientes para lançar a reforma em 2009 ", disse Lander. Outra dificuldade para o governo será o impacto da crise financeira internacional e da queda dos preços do petróleo em investimentos no gasto público. "O problema é que o tempo joga contra Chávez. O país vive uma embriaguez eleitoral, mas ninguém está falando da crise", afirma Luis Vicente Leon, analista da consultoria Datanálisis. "Quanto mais longe estiver a convocatória para o referendo, mais difícil será ganhar, mas ao mesmo tempo não há força para lançar agora", acrescentou. O governo admite que sua economia poderá ser afetada se os preços do barril continuarem caindo, mas nega a adoção de medidas que alterem o gasto social. 'Vitória da revolução' O presidente venezuelano qualificou o resultado eleitoral como uma vitória da "revolução bolivariana". No pleito deste domingo, de acordo com o governo, o chavismo conquistou mais de 5,5 milhão de votos, 1,3 milhão a mais em relação ao referendo do ano passado, em que Chávez não conseguiu atrair mais de 4,2 milhões de eleitores às urnas. A recuperação de mais de um milhão de votos, em um ano, é, na avaliação da historiadora Margarita López Maya, o "troféu" que poderia levar o governo a arriscar um referendo para a reeleição. "É uma aposta arriscada, mas o governo tem como apostar porque conta com o apoio do Parlamento", afirmou López Maya. "Chávez, além disso, gosta de desafios e voltou a demonstrar durante a campanha que ao polarizar consegue êxito: muitos desses governadores (chavistas) eleitos, não teriam ganho sem a intervenção do presidente", acrescentou. Conciliação O resultado eleitoral também imprimiu um novo tom aos discursos dos líderes da oposição venezuelana. Os eleitos governador de Miranda, Capriles Radonski, e prefeito metropolitano de Caracas, Antonio Ledezma, propuseram dialogar com o governo. "Presidente Chávez, o senhor e eu temos diferenças, mas o convido a trabalhar juntos para resgatar Caracas do caos e da anarquia", afirmou Ledezma depois da vitória nas urnas. Para analistas, o tom conciliador da oposição também obriga Chávez a recuar, já que uma radicalização neste momento poderia ser prejudicial para seu projeto de governo. "Chávez não pode radicalizar, a oposição conquistou espaços importantes e ele terá que negociar", afirmou o analista Luis Vicente León. Para o analista político Javier Biardeau, a oposição está ponderando o discurso para que possa ser uma alternativa real, "aos segmentos de um mercado eleitoral suscetíveis a mudanças", que não estão nem com o governo, nem com a oposição. Para atrair esse setor do eleitorado, a oposição já não quer ser mencionada com esse adjetivo.

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