Querendo ficar, Chávez comemora 10 anos da sua 1ª eleição

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, comemorou neste sábado dez anos de sua primeira eleição convocando simpatizantes a uma "mobilização nacional" para apoiar o projeto de emenda constitucional que poderá legalizar a reeleição presidencial sem limites de candidaturas. "Chamo ao povo a mobilizar-se, em batalha (...) para aprovar a emenda. Uma vez aprovada a emenda constitucional (...) este soldado se preparará para transcender o ano de 2012 e para conduzir o povo heróico da Venezuela pelo menos até 2019, quando consolidemos o terceiro período da revolução bolivariana", afirmou Chávez, diante de centenas de milhares de simpatizantes que festejavam nos arredores do Palácio de Governo, em Caracas.

Aos gritos do lema "Uh, ah, Chávez não se vá", o mandatário explicou como deverá ficar o artigo da Constituição que será sujeito à modificação, ao afirmar que não pretende "perpetuar-se no poder", como afirmam seus opositores. "O período presidencial é de seis anos, e o presidente da República poderá ser reeleito, simples assim, não se assustem oligarcas", disse Chávez, ao desafiar seus seguidores a disputar o poder nas urnas nas eleições de 2012. "Não vamos propor que o período presidencial é de 100 anos (...) se assim fosse, teriam razão em dizer, mas são seis anos (...) aqui haverá eleições presidenciais em 2012." A oposição argumenta que, com uma nova candidatura de Chávez , o governo utilizará os recursos do Estado e os meios de comunicação oficiais para fortalecer sua campanha, fatores que tornariam desigual a disputa eleitoral à Presidência. "É como jogar subindo uma ladeira e com o juiz a favor do nosso adversário, a disputa é absolutamente desigual", afirmou à BBC Brasil Julio Borges, do partido opositor Primeiro Justiça. Revolução Eleito com mais de 56% dos votos em 1998, Chávez representou naquela ocasião a ruptura com o esquema bipartidário que se alternava na Presidência venezuelana nas quatro décadas anteriores. "Quando Chávez deu o golpe em 1992 e vimos aquele homem na televisão, que fracassou, admitiu o erro, eu vi que ainda havia uma esperança", afirmou o professor César Jaspe, eleitor de Chávez desde seu primeiro mandato. "A vida agora mudou, hoje a política é para todos e não para a minoria que antes mandava no país. Vamos aprovar a emenda, a revolução continua", acrescentou. Depois da tentativa fracassada de golpe, Chávez passou três anos na prisão. Ao sair, anistiado pelo presidente Rafael Caldera, o ex-tenente-coronel orientou sua campanha na promessa de "mudanças". A ex- empregada doméstica Carmen Barrios afirma que o mandatário mudou sua vida, razão pela qual justifica ter viajado mais de 20 horas, partindo de Ciudad Bolívar, em um Estado fronteiriço com o Brasil, para "festejar" em Caracas junto ao presidente. "Chávez me tirou da pobreza extrema. Antes, tinha que entrar pela porta de trás da casa dos ricos para limpar o chão deles, agora caminho com dignidade e tenho meu próprio sustento", afirmou Barrios, que há dois anos se incorporou no programa social Madres del Barrio. Dona de seu próprio negócio, junto com outras cinco mulheres da mesma condição social, Barrios fundou uma padaria com crédito obtido junto ao governo. Enquanto o negócio não dá frutos, recebe uma ajuda de cerca de US$ 300 do Estado. Esse e outros programas sociais chamados "missões", mantidos com recursos da renda petrolífera, foram iniciados depois do fracassado golpe de Estado contra Chávez e são a base de sustentação do governo. Pressa Justamente temendo um revés em sua base de apoio, que depende dos subsídios das "missões", analistas consideram que Chávez têm pressa para sancionar a emenda constitucional antes que os efeitos da crise financeira internacional afetem a economia do país e o Executivo tenha que reduzir o gasto social. Chávez afirma que só ele é capaz de conter os efeitos da crise e "proteger ao povo". "Eu estarei aqui até quando Deus quiser e o povo mande", afirmou Chávez. O Parlamento venezuelano deverá discutir na semana que vem o projeto de emenda, mas a aprovação - que tende a ocorrer com facilidade, já que a maioria dos deputados pertencem à base governista - deverá ser finalizada em meados de janeiro.

Depois de passar pelo Parlamento, o projeto será levado ao Conselho Nacional Eleitoral, que terá 30 dias para convocar o referendo - que deve ser realizado em fevereiro.

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