Ex-guerrilheiro das Farc recebe asilo na França

O ex-guerrilheiro das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) que em outubro ajudou o ex-congressista colombiano Óscar Tulio Lizcano a fugir do cativeiro, onde era mantido havia oito anos, recebeu asilo na França e não será julgado pela Justiça colombiana. A medida reforça a controvertida política do governo Álvaro Uribe de pagamento de recompensas a guerrilheiros que abandonem a luta armada, informem o paradeiro de chefes guerrilheiros ou, como neste caso, libertem os seqüestrados em seu poder ao desertarem.

Wilson Bueno Largo, conhecido como "Isaza" viajou para a França na noite de terça-feira acompanhado da namorada, que abandonou as Farc meses antes que ele, e da ex-candidata presidencial e ex-refém Ingrid Betancourt. É a primeira vez na história da Colômbia que um guerrilheiro é beneficiado pela Justiça com asilo internacional e recebe uma recompensa por abandonar a luta armada e entregar um seqüestrado em seu poder. Isaza recebeu US$ 434 mil e um visto especial para residir e trabalhar na França. O ex-guerrilheiro de 28 anos, combatente das Farc há 12 anos, fugiu do cativeiro com Óscar Tulio Lizcano no final de outubro. Os dois caminharam "três dias e três noites" pela selva até que foram encontrados pela brigada do Exército.

Com 62 anos, Lizcano era o político que mais tempo havia permanecido seqüestrado pela guerrilha. O ex-congressista fazia parte do grupo de reféns considerados pelas Farc como passíveis de troca por guerrilheiros presos em um eventual acordo com o governo colombiano. Deste grupo, 28 pessoas ainda estão em cativeiro.

Processo arquivado Apesar da oferta de pagamento de recompensa e asilo na França, logo depois da fuga, as autoridades afirmaram que Isaza não poderia receber estes benefícios porque teria de responder pelos crimes de seqüestro e rebelião. Na época, o procurador público Mario Iguaran disse que o mais provável era que o ex-guerrilheiro tivesse a pena reduzida, mas que ele não se livraria da prisão.

O parecer emitido nesta quinta-feira foi diferente. De acordo com Iguaran, o Judicário considerou que "não é procedente" a acusação por seqüestro e decidiu arquivar o processo. Com a decisão, o governo do presidente colombiano Álvaro Uribe reforça sua política de incentivo à deserção de rebeldes. "Qualquer guerrilheiro que se desmobilizar com algum seqüestrado receberá uma recompensa e, graças à política do presidente (Nicolas) Sarkozy, poderá viver no exterior (...). Esses dois colombianos vão à França sem ter contas pendentes com a Justiça colombiana", afirmou o ministro da Defesa da Colômbia, Juan Manuel Santos, ao anunciar a viagem do ex-guerrilheiro. Só neste ano, o governo da Colômbia gastou pelo menos US$ 5 milhões no pagamento de recompensas a ex-guerrilheiros ou informantes com o objetivo de capturar altos membros das Farc. Pouco antes de embarcar, Isaza voltou a chamar seus ex-companheiros de armas à desmobilização, ao ressaltar a política de recompensas do governo. "Vejam que é certo o que diz o governo. Respeitam a vida da gente, ajudam. Há alguns benefícios para os que se desmobilizam", afirmou. "A desmobilização é a única saída. Tomem a melhor decisão e se dêem uma oportunidade de voltar para suas famílias, dêem a oportunidade à toda Colômbia de passar o Natal com todos os que estão seqüestrados", acrescentou o ex-guerrilheiro. A deserção de Isaza se somou a outras milhares de desmobilizações de guerrilheiros que têm ocorrido nos últimos anos e a mais uma "traição" à cúpula da guerrilha liderada por Alfonso Cano.

Em julho, o resgate militar da ex-candidata presidencial Ingrid Betancourt e de mais 14 reféns foi qualificado pela guerrilha como "traição" por parte dos rebeldes responsáveis pela segurança do cativeiro, que de acordo com as Farc teriam colaborado com o Exército.

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