Entenda a instabilidade na Guiné

A Guiné vive uma disputa pelo poder que teve como estopim a morte, na noite de segunda-feira, do presidente do país, Lansana Conte, de 74 anos. O país, situado na costa oeste da África, é um dos maiores exportadores de bauxita do mundo, mas a maioria dos seus habitantes vive com menos de US$ 1 por dia.

A BBC preparou uma série de perguntas e respostas para ajudar você a entender a instabilidade na Guiné.

O que está acontecendo no país? Oficiais do Exército tomaram o poder desde a morte de Conte, que governou a Guiné por 24 anos - após tomar o poder em um golpe. Há muito tempo o líder enfrentava problemas de saúde.

Horas após sua morte, um anúncio na rádio estatal disse que o Exército tinha dissolvido o governo.

Tropas e tanques estão nas ruas e no comando de bloqueios instalados nas estradas. Mas não houve violência e, segundo relatos, o país está calmo.

O primeiro-ministro insiste, no entanto, que o governo ainda está no controle.

Então quem está realmente no comando do país? Aparentemente, os militares estão divididos. O comandante do Exército, general Diarra Camara, e um grupo de soldados apóiam o governo.

Camara disse à emissora de televisão francesa France 24 que os líderes do golpe não representam a maioria das tropas.

Entretanto, até o momento, os líderes do golpe parecem estar dando as cartas.

O correspondente da BBC Alhassan Sillah, baseado em Conacri, capital da Guiné, disse que a presença de tanques nas ruas tem o objetivo de mostrar que eles estão no comando.

Eles estão posicionados em um quartel em Conacri que fica muito perto das estações de rádio e TV nacionais, o que facilita aos revoltosos controlar a mídia.

O capitão Mussa Dadis Camaram, indicado pelos golpistas para liderar a junta militar no poder, anunciou que um conselho nacional de 32 membros vai governar o país até as eleições em dezembro de 2010, quando o mandato de Conte teria terminado.

O golpe foi uma surpresa? Poucos duvidavam de que o Exército iria desempenhar um papel importante após a morte de Conte, que durante a maior parte do seu governo foi mantido no poder pelos próprios militares.

Nos últimos anos, o Exército vinha dando sinais de que tinha cada vez mais controle sobre o país, especialmente no período em que Conte estava doente, sendo visto em público muito raramente.

Quase dois anos atrás, os militares abafaram manifestações nacionais contra o governo de Conte. Cerca de 150 manifestantes foram mortos.

O correspondente da BBC no oeste da África Will Ross disse que sempre que havia descontentamento no Exército, freqüentemente por questões salariais, o presidente simplesmente promovia os insatisfeitos e aumentava seus salários, prejudicando ainda mais as finanças do país. O nepotismo e a corrupção dominam a sociedade e, como resultado, poucos entre os nove milhões de cidadãos da Guiné se beneficiaram das ricas reservas minerais do país.

A preocupação agora é que a luta pelo poder assuma uma dimensão étnica, levando a Guiné a uma guerra perigosa, similar às que deixaram cicatrizes nos vizinhos Libéria e Serra Leoa.

A minoria sussu se beneficiou durante o governo de Conte e agora os dois maiores grupos étnicos da Guiné - fulanis e mandingas - podem entrar em guerra pelo controle do país.

Qual foi a reação da comunidade internacional? A União Africana, a União Européia, os Estados Unidos e o ex-colonizador da Guiné, a França, condenaram a tentativa de golpe.

A organização regional africana Ecowas também pediu que haja uma transição democrática para o poder.

Nos últimos 18 anos, a Ecowas tem exercido uma função importante na região, dissolvendo conflitos, enviando tropas e forças de paz para Serra Leoa, Libéria e Guiné-Bissau.

A União Africana fez uma reunião de emergência para discutir a situação.

Mas, assim como aconteceu com a Mauritânia, um país vizinho que sofreu um golpe de estado em agosto deste ano, há pouca probabilidade de que simples condenações revertam o golpe.

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