Liberdade e economia são as principais 'dívidas' da Revolução Cubana

Apesar das promessas iniciais da Revolução Cubana, críticos e opositores afirmam que o processo político iniciado há 50 anos tem suas principais falhas no terreno dos direitos civis e na falta de liberdade de organização política, econômica, de expressão e de imprensa.

A maioria da sociedade civil cubana se agrupa em organizações ligadas ao governo, que são dirigidas por líderes do Partido Comunista, como os Comitês de Defesa da Revolução, a Federação de Mulheres ou a Central de Trabalhadores de Cuba.

Algumas entidades religiosas e a maçonaria gozam de status legal em Cuba, mas o governo limita iniciativas de organização da sociedade ainda que elas não tenham fim político. Para dar uma idéia do grau de controle exercido pelo governo, os aficionados das motos Harley-Davidson, por exemplo, não conseguiram obter das autoridades reconhecimento legal para criar uma associação.

A oposição política é ilegal em Cuba. Grupos dissidentes são tolerados, mas não têm qualquer respaldo jurídico.

Qualquer tipo de atividade pública pode ser reprimida, e aqueles que insistem podem acabar na cadeia.

Até mesmo os comunistas mais críticos, que buscam mudanças dentro do sistema, como Eliécer Ávila ou Pedro Campos, carecem de um espaço de debate. O governo os acusa de promover a divisão e de dar armas ao inimigo.

Imprensa O escritor Lisandro Otero disse, há alguns anos, em um artigo, que em Cuba tudo o que não é obrigatório está proibido. Pode parecer exagero, mas a verdade é que para a população também não há muito espaço para o debate.

Os meios de comunicação são controlados pelo Partido Comunista, que define a linha editorial de cada jornal, revista, emissora de rádio e canal de televisão. As vozes discordantes não são bem-vindas.

Juan Marrero, vice-presidente da União de Jornalistas de Cuba, disse à BBC Mundo que a principal tarefa de um jornalista cubano é defender a Revolução e que há temas que não são abordados porque podem beneficiar o inimigo.

A imprensa cubana só toca em temas como prostituição, delinqüência, racismo, salários ou corrupção depois que tenham sido abordados em público pelo ex-presidente Fidel Castro ou pelo líder atual, Raúl Castro.

Durante anos, as prostitutas não existiram para os jornalistas. Não se mencionou a corrupção até o Comandante dizer que esta colocava a Revolução em perigo. Só se começou a falar sobre drogas quando Fidel Castro denunciou sua existência em um discurso.

Os jornalistas cubanos sempre disseram que os salários mensais de US$ 15 (cerca de R$ 35) eram suficientes para viver, até que, em 26 de julho de 2007, Raúl Castro os desmentiu.

Economia No terreno econômico, a Revolução cubana também não colheu muitos êxitos. Meio século depois, o governo reconhece que a corrupção corre solta no país, os salários são insuficientes para viver e as possibilidades de consumo do cidadão cubano são mínimas.

Além disso, o governo limita a liberdade econômica dos cidadãos, impedindo o desenvolvimento do trabalho por conta própria, atividade que requer uma licença que há mais de dez anos não é entregue pelas autoridades cubanas.

Não se pode esquecer que os Estados Unidos estabeleceram um embargo econômico em 1962 que custou a Cuba, segundo cifras oficiais, quase US$ 100 bilhões (cerca de R$ 238 bilhões) e afetou todas as áreas econômicas, inclusive o turismo, a produção de açúcar e tabaco e a extração de níquel.

No entanto, os críticos salientam que o governo cubano também cometeu erros econômicos, como arrasar todas as árvores frutíferas de Havana nos anos 60, paralisar o país para realizar a colheita da safra de cana-de-açúcar em 1970 ou basear a agricultura em granjas estatais, que se mostraram bastante improdutivas, como reconhece o Escritório Nacional de Estatísticas.

Nos anos 80, Cuba deixou de pagar seus credores ocidentais e acabou comprando quase 100% de suas importações de países socialistas, nos quais graças ao Conselho de Ajuda Mútua Econômica (Came) podia ter crédito e obter vantagens no intercâmbio de sua produção.

No século 19, o herói da independência cubana, José Martí, disse que "é preciso equilibrar o comércio para assegurar a liberdade".

"O povo que quer morrer, vende a um só povo, e o que quer se salvar, vende a mais de um. A influência excessiva de um país no comércio com outro se converte em influência política", disse Martí.

Ele foi um visionário. Cuba não apenas copiou o modelo econômico e político da União Soviética como mergulhou na maior crise de toda a sua história quando o bloco soviético desapareceu. Uma crise que se arrasta até os dias atuais.

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