Hamas está pronto para batalha em áreas urbanas

A decisão de Israel de lançar uma ofensiva terrestre contra o Hamas na Faixa de Gaza dá aos militantes palestinos sua primeira chance no atual conflito de trocar disparos em condições de relativa igualdade com as tropas israelenses.

Até agora, os militantes estiveram impotentes diante dos ataques israelenses por ar e mar e de bombardeios - terrenos em que Israel goza de completa superioridade militar.

O Hamas e outros grupos miliantes lançaram dezenas de foguetes contra o território israelense mas, apesar de causar transtornos, enfraquecer a moral da população civil e, às vezes, serem fatais, esses ataques são ineficazes militarmente.

No entanto, se o conflito for transferido para as ruelas estreitas do campo de refugiados de Jabaliya ou para qualquer das populosas áreas urbanas da Faixa de Gaza, a história será diferente.

"O Hamas tem poucos recursos se comparado ao Exército israelense", diz Nicolas Pelham, analista sênior do programa de Oriente Médio do International Crisis Group. "Mas as operações israelenses em áreas urbanas irão eliminar um pouco essa enorme disparidade (de força)." Aparato Israel tem um aparato militar formidável, com toda a parafernália usada por Exércitos modernos, como equipamentos de visão noturna.

O Hamas, porém, teve meses para se preparar para uma guerra urbana que dará a seus combatentes a chance de provocar baixas no Exército israelense.

Analistas acreditam que o Hamas tenha aumentado consideravelmente sua capacidade militar desde que assumiu o controle da Faixa de Gaza, em 2007.

Ao assumir o controle da Faixa de Gaza, o Hamas herdou o limitado arsenal da Autoridade Palestina, que foi expulsa do teritório. Além disso, a conquista da Faixa de Gaza deu ao Hamas liberdade para agir em todo o território sem interferência da Autoridade Palestina, que estava comprometida em desarmar grupos militantes.

Contrabando Todo o armamento restante do Hamas teve de ser contrabandeado para dentro da Faixa de Gaza - que está sob um bloqueio total imposto por Israel e apoiado pelo Egito, país com o qual faz fronteira ao sul.

O contrabando é feito por túneis que atravessam a fronteira entre a Faixa de Gaza e o Egito. Foi por esses túneis que chegaram às mãos do Hamas os foguetes de médio alcance que atingiram cidades israelenses localizadas a até 40 Km de distância.

Explosivos e material para fabricação de explosivos são contrabandeados mais facilmente ainda.

Morteiros e algumas armas anti-aéreas - que, apesar de ineficazes contra jatos modernos, podem ter efeito contra helicópteros mais antigos - também podem ter sido levados a Gaza pelos túneis de Rafah.

Portanto, não causa surpresa o fato de o líder do Hamas, Khaled Meshaal, que vive exilado na Síria, ter dado uma entrevista em tom belicoso ao canal de TV árabe Al-Jazeera, antes que Israel iniciasse sua ofensiva em Gaza, na noite de sábado.

"Soldados do inimigo... vocês devem saber que um destino negro está a sua espera, e vocês serão mortos, feridos ou presos", disse Meshaal.

Braço militar Acredita-se que o braço militar do Hamas, as Brigadas de Izz Al-Din Al-Qassam, tenha cerca de 15 mil integrantes.

O grupo seria, portanto, bem inferior à capacidade militar israelense. Mas não há falta de armas em Gaza, nem de pessoas que queiram pegar em armas para lutar contra forças israelenses.

Os padrões de treinamento e disciplina para as Brigadas foram elevados recentemente, e acredita-se que o grupo tenha também sofisticado seus sistemas de comunicação.

A organização certamente aprendeu as lições da guerra do Líbano, em 2006, quando o grupo xiita libanês Hezbollah feriu Israel em um duro embate em um terreno vantajoso para forças de guerrilha contra tropas convencionais.

Desde então, acredita-se que vários membros do Hamas tenham passado algum tempo com o Hezbollah e com a Guarda Revolucionária do Irã - o que resultou no apefeiçoamento de suas técnicas de treinamento militar e seus sistemas organizacionais.

A geografia da Faixa de Gaza pode não ser tão favorável quanto a do sul do Líbano, mas não há dúvida de que muitos membros das Brigadas de Izz Al-Din Al-Qassam esperam poder desferir um golpe contra as forças israelenses e ser recompensados com o que eles consideram um martírio glorioso.

Efeito devastador No entanto, Israel também parece ter sofrido mudanças desde 2006, afirmam analistas.

Suas forças treinaram duro para esse tipo de conflito, e também foram aperfeiçoados campos como defesa civil, linhas de suprimento, planejamento e relações públicas.

Mas a questão principal agora é o que Israel quer conquistar com sua ofensiva terrestre. O objetivo oficialmente divulgado é atingir o Hamas e interromper o lançamento de foguetes contra o território israelense.

No entanto, se o Exército israelense realmente buscar retomar áreas urbanas, poderá favorecer diretamente o Hamas - principalmente quanto mais tempo seu aparato militar permanecer em Gaza. E o que acontecerá depois que Israel se retirar de Gaza? "Não há garantia, mesmo que o Hamas seja expulso de Gaza, de que o lançamento de foguetes contra Israel não vai continuar", diz o analista Nicolas Pelham. "A verdade é que mais foguetes eram lançados de Gaza antes de o Hamas assumir o poder." O que parece certo é que o desejo do Hamas de lutar na áreas urbanas densamente habitadas de Gaza e a aparente vontade de Israel de manter sua guerra ali podem ter um efeito devastador na já sofrida população civil de Gaza, que não tem para onde ir.

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