Libaneses temem que conflito em Gaza envolva o Hezbollah

O confronto entre Israel e o Hamas na Faixa de Gaza provocou sérios temores no Líbano de que o grupo xiita Hezbollah possa acabar envolvendo o país no conflito. O Hezbollah, uma das principais forças políticas do Líbano, tem sido uma das vozes mais contundentes e agressivas do mundo árabe na condenação à ação militar de Israel no território palestino.

O grupo também é um dos poucos a ter obtido um relativo sucesso em um confronto militar recente com Israel. Durante a ofensiva israelense no Líbano em 2006, o Hezbollah disparou mais de 4 mil mísseis e foguetes contra Israel, em resposta aos bombardeios aéreos e terrestres.

Estabilidade Desde o início dos ataques em Gaza, o país tem sido palco de vários protestos em favor do território palestino, em que libaneses e palestinos foram às ruas para pedir um cessar-fogo e uma ação política dos países árabes. O presidente libanês, Michel Suleiman, declarou total apoio aos palestinos e enviou 20 toneladas de ajuda humanitária para o território palestino.

Mas o Líbano vive um período de relativa estabilidade nos últimos sete meses, com bom desempenho no turismo e no setor financeiro, e, nas ruas de Beirute, há um claro temor de que a violência entre Hamas e Israel respingue no país. "É um temor real, presente em conversas entre amigos, debatido na imprensa local. Todos se perguntam se o Hezbollah entraria no conflito", disse à BBC Brasil Paul Salem, diretor do Centro Carnegie para o Oriente Médio.

Vários políticos libaneses opositores ao Hezbollah vêm declarando na imprensa que o Líbano deveria tomar precauções para não ser arrastado para um confronto com Israel.

Por enquanto, o Hezbollah realizou diversas manifestações com ataques verbais a Israel. Em vários discursos, o líder do grupo xiita, Hassan Nasrallah, pediu um posicionamento diplomático firme da Liga Árabe, criticando os governos da região por não fazerem o bastante para ajudar os palestinos.

Ao mesmo tempo, Nasrallah enviou mensagens para o Hamas, pedindo que o grupo militante palestino disparasse o máximo de foguetes contra Israel.

Segundo o governo israelense, as tropas na fronteira com o Líbano foram colocadas em alerta máximo. O primeiro-ministro israelense, Ehud Olmert, já havia declarado que qualquer ataque por suas fronteiras do norte seriam retaliadas, em clara mensagem ao Hezbollah.

Pressão De acordo com vários governos ocidentais, o Hezbollah teria triplicado sua capacidade militar desde 2006, com mais de 40 mil mísseis em seu arsenal.

Mas analistas dizem que o grupo xiita dará apenas apoio moral ao Hamas, pois não teria condições de entrar em conflito armado neste momento.

"O Hezbollah não está em uma posição de poder se dar ao luxo de suportar o peso de uma segunda guerra com os israelenses", salientou Salem.

Para ele, em nenhum momento nos discursos de Nasrallah houve indícios da iminência de uma intervenção direta no conflito.

Outra analista, Amal Saad-Ghorayeb, disse que, embora o partido xiita veja a Palestina como uma causa central, seria ingênuo imaginar que o grupo libanês atacaria Israel em represália à ofensiva militar na Faixa de Gaza.

"Embora esteja militarmente mais forte do que nunca, o Hezbollah passou por momentos conturbados na sua política doméstica. Acabou de formar um governo de união nacional com seus rivais políticos", disse Ghorayeb.

"Mesmo se tivesse a intenção de agir militarmente e ir de socorro ao Hamas, seria difícil sob o ponto de vista geográfico e logístico, uma vez que Gaza está longe da fronteira com o Líbano", completou Salem.

Os dois analistas concordam que a maior razão para que o Hezbollah não se aventure em um novo conflito é ainda a pressão interna.

Ghorayeb disse que uma nova frente seria desastrosa para o Líbano, especialmente para os bairros ao sul de Beirute e outras cidades redutos do grupo xiita.

"Somente agora eles se recuperaram do violento conflito de 2006, e eu não vejo um apoio geral a uma nova guerra por parte de seus próprios simpatizantes".

Outro motivo apontado por Ghorayeb é que o Hezbollah teria que driblar a oposição do próprio Exército libanês, posicionado pela primeira vez em 30 anos no sul do país desde a guerra de 2006.

Armas O general aposentado do Exército libanês Elias Hanna disse à BBC Brasil que, por outro lado, o Hezbollah tem uma aliança muito forte com Síria e Irã, países que também apóiam o Hamas.

"Se o Hamas estiver para ser aniquilado em Gaza, enfraquecendo, com isso, a posição destes países, o Hezbollah poderia se sentir obrigado a intervir", salientou Hanna.

O Hezbollah foi o único grupo armado que teve permissão para continuar com suas armas depois do fim da Guerra Civil libanesa (1975-1990), mas nos últimos anos o partido militante tem estado sob enorme pressão de outros partidos libaneses para que se desarme.

"Domesticamente, o Hezbollah não quer agitar o ambiente e trazer mais pressão para si. Os partidos libaneses ainda estão dialogando sobre a questão das armas do grupo xiita e o Hezbollah tenta ao máximo atrasar esta discussão", disse o ex-general.

Para Ghorayeb, muitos governos árabes estão "em clara cooperação com Israel para combater a influência de Síria e Irã".

Entretanto, Ghorayeb alerta que também há uma chance de o Hezbollah justificar qualquer ação como autodefesa.

"Israel viola o espaço aéreo libanês todos os dias com a desculpa de vôos de reconhecimento. O Hezbollah pode usar isso quando achar que é conveniente para seus objetivos", completou ele.

Salem disse que o Hezbollah tem uma imagem de vencedor frente a Israel no mundo árabe e isso daria respaldo a qualquer ação tomada contra o Estado judaico.

"Os árabes se sentem frustrados com seus governos e a comunidade internacional pela inércia em conseguir um cessar-fogo em Gaza, e o Hezbollah é largamente visto pelas massas como a única frente capaz de derrotar Israel", disse ele.

Mas os analistas concordam que, por enquanto, o Hezbollah manterá sua política de ataques verbais contra Egito, Arábia Saudita e outros países árabes vistos por ele como "marionetes" dos Estados Unidos e de Israel.

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