Dr. Fim do Mundo: Eu avisei

Como a maioria dos empregados americanos pobres e de classe média, minha poupança privada está aplicada em fundos mútuos. Se você retira antes dos 65 anos paga uma multa brava. Chama-se 401 K e tem outras variações, mas são todas parecidas.

Sua empresa, ou você, como autônomo, faz depósitos até uma certa quantia anual que pode ser deduzida do total da sua renda na declaração do imposto, mas quando você começa a retirar, depois dos 65, paga em cada retirada.

Há um leque de opções de fundos, dos mais arriscados aos mais seguros, nacionais, internacionais, letras e depósitos a prazos fixos que pagam ninharias ligadas a taxa de juros.

Em 2000, eu me queimei na bolha da internet e fiquei arisco, mas a bolsa ficou tentadora depois de 2004. O bestalhão esqueceu a lição e foi atrás do dinheiro fácil, mas estava tão fácil que até eu desconfiei. Tinha entrado quando a bolsa estava abaixo de 9.000 e já estava em 13.500.

As previsões eram quase todas otimistas, mas li análises de dois economistas e me assustei: um deles, e não me lembro o nome, explicava com muita clareza que a bolsa ia cair para 7.500.

O outro se chamava Nouriel Roubini, professor aqui na universidade ao lado - NYU - e quase vizinho de bairro. O professor Roubini, também conhecido como Dr. Fim do Mundo, era brochante nos programas de televisão e nos seminários.

No Fundo Monetário Internacional, em 2006, anunciou pela enésima vez que haveria um choque no preço do petróleo, que o mercado de imóveis e hipotecas ia despencar, que os consumidores iam parar de consumir, o crédito secaria e o mundo ia entrar numa recessão profunda.

Não tenho certeza qual dos comentários ou análises do professor bateu no meu lado mineiro, mas reforçou meu medo, já criado com a previsão do outro economista, de que a bolsa ia para 7.500.

Liguei pro homem da minha poupança e pedi para tirar quase todo dinheirinho que estava em fundos e aplicar a prazo fixo a 1% ao ano. Em vez de alívio, me senti um capitalista titica e minha covardia ficou ainda mais assanhada nos meses seguintes. A canalha da bolsa não parava de subir. Bateu em 14.500. Este Roubini é uma besta e eu sou uma besta maior de ouvir os pessimista, mas, eis que o magnífico e jamais decadente mercado de imóveis americano, à prova de tantas recessões, começa a cair e, com ele, a bolsa.

Roubini, turco de nascimento, filho de judeus iranianos, viveu em Teerã, Tel Aviv e na Itália, onde fez universidade. Este cigano fluente em farsi, hebraico, italiano e inglês, veio parar em Yale e Harvard, onde foi tutelado pelo professor Jeffrey Sachs, da Columbia e da ONU. Do obscurantismo acadêmico, banido dos programas de televisão pelo pessimismo excessivo, Roubini, em menos de um ano, é o novo profeta de bancos centrais de vários países, consultor de mega-empresas, estrela das convenções e simpósios.

Ele acertou quase tudo na cabeça. Seus críticos dizem que até relógio parado acerta duas vezes por dia e se você faz previsões pessimistas todos os anos, um dia acerta.

Pura inveja dos economistas, na maioria otimistas, que prevêem o fim da crise em 2009. O professor Roubini não está vendo a luz do fim do túnel de 2009. Felizmente também não vê outra Grande Depressão, mas anos e anos de uma economia rastejante nos Estados Unidos, crescendo a menos de um por cento. Ele diz que a salvação pode vir da Ásia, em especial da China e do Japão, e acha que, até que enfim, estamos no começo do fim do império americano que todo mundo prevê , espera e nunca chega. Minha graninha esta no Roubini.

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