Mãe e filha relatam horror dos ataques a Gaza

A palestina Nirmeen Kharma Elsarraj está com os seus três filhos, a cunhada e uma sobrinha em uma casa na Cidade de Gaza, que vem sendo alvo de ataques israelenses há quase duas semanas.

Nirmeen e sua filha Nour, de 14 anos, mandaram relatos da Cidade de Gaza para o grupo "Other Voice" , organização que promove o diálogo entre israelenses e palestinos que vivem dos dois lados da fronteira entre Israel e a Faixa de Gaza.

Confira abaixo os relatos de mãe e filha, repassados por uma representante israelense do "Other Voice" para a BBC Brasil.

Este é o quinto dia da operação militar em Gaza, chamada de "Cast Lead". Terror e destruição estão por toda parte.

Há coisas que não estão sendo bem transmitidas no noticiário; os sentimentos! Eu tenho três filhos - uma filha, Nour, de 14 anos; e dois filhos, Adam, de nove, e Ali, de três.

Nós vivemos em uma área na Cidade de Gaza que era descrita como "segura". Nenhum lugar pode mais ser considerado seguro. Meus filhos não conseguem dormir, e eu não consigo ajudá-los.

Os sentimentos de inutilidade e culpa - que sempre acompanham a sua impossibilidade de proteger ou pelo menos confortar os seus filhos - são sempre mais forte do que os de medo e horror.

Minha filha estava contando a um jornalista, ontem pelo telefone, que ela nunca teve o apoio que precisava de mim quando nós estávamos sendo bombardeados. Eu fiquei chocada! Eu me senti tão culpada porque a minha filha sentiu meu medo. Mas não é normal estar com medo, em meio a tudo isso? Adam é asmático e usa um ventilador médico. Devido ao estresse e à poluição causada pelos escombros, ele está tendo ataques de asma cada vez mais freqüentes, e não temos eletricidade para o seu aparelho.

Cada vez que ele tem um ataque nós temos que ligar um gerador para ele, e logo em seguida desligar o aparelho. Não temos combustível suficiente para manter o gerador ligado e não temos idéias de por quanto tempo isso vai continuar.

Ali não tem idéia do que está acontecendo. A única coisa que ele faz é berrar quando começam as bombas, e quando tudo acaba ele usa a sua imaginação para contar histórias sobre bombas.

As crianças não dormem. Nós passamos dias e noites em um quarto com minha cunhada e a sua filha. Dá para sentir o estresse e o medo. Dá para ver isso na cara de todos.

Na noite passada, eu estava pensando sobre tudo isso. Eu não quero que ninguém da minha família se machuque e eu penso que se alguma coisa acontecer, eu rezo para que aconteça comigo, e não com os meus filhos.

Mas depois eu penso que não quero que meus filhos me vejam despedaçada. As cenas na TV de pessoas morrendo são tão assustadoras, e eu sei o que significa para as crianças elas verem essas coisas.

O que eu realmente quero é que isso tudo acabe e que eu e meus filhos possamos viver como qualquer um no mundo. Eu quero me livrar dos sentimentos de culpa em relação aos meus filhos.

Eu estava errada em ter filhos? Eu não tenho o direito de ser mãe? Eu estou realmente fazendo um trabalho de mãe de ser uma fonte de conforto para os meus filhos? Eu sei que não é minha culpa, mas eu sei que eu vivo na Faixa de Gaza, e Gaza nunca foi um ambiente saudável para se criar filhos.

Será que eu fui tão egoísta de pensar apenas na minha vontade de ser mãe e ignorei o provável fracasso que eu seria em proteger meus filhos? Hoje é o oitavo dia desta guerra terrível. Para mim, ontem foi o pior dia de todos. Quando eu acordei de manhã, um dos meus amigos me telefonou. Quando perguntei como ele estava, ele estava com uma voz estranha. Ele disse: "Bem, mas você tem notícias de alguns dos seus amigos?" Eu fiquei muito assustada e perguntei para ele se tinha algo errado. Ele me disse que Christine morreu.

Eu fiquei muito chocada e até agora eu ainda não acredito. Eu liguei para alguns amigos para confirmar a notícia, e todos estavam muito tristes.

Ela era minha amiga havia quase quatro anos. Nós íamos à escola e ao YMCA (Associação Cristã de Moços) juntas.

Eu estou triste, com medo e preocupada ao mesmo tempo, porque ela era como uma irmã para mim.

Eu sinto pêsames por ela e pela família dela. Os pais dela fizeram o melhor que puderam, mas não foi o suficiente para salvá-la.

E se os meus pais não pudessem me proteger e me dar apoio quando eu preciso... eu vou morrer também? O que eu posso dizer agora é que o meu futuro está quase destruído.

Um foguete israelense atingiu minha escola nesta manhã, e a escola foi destruída completamente.

Eu não consigo realmente imaginar por que eles estão bombardeando lugares religiosos e de educação, como mesquitas, escolas e universidades.

A cada explosão, nós sentimos nossa casa balançar e quase sendo destruída. E as pessoas que já perderam as suas casas? Eu estou chorando por causa da morte de uma amiga... E as pessoas que perderam pelo menos quatro ou cinco familiares? Depressão e medo estão tomando conta das nossas almas e cercando nossas casas... O que virá depois? Não tem nada que eu queira mais do que o fim desta guerra logo e que o povo palestino possa viver como qualquer outro povo, que as crianças palestinas possam aproveitar as suas infâncias, como qualquer criança no mundo.

Nos ajudem, porque somos todos seres humanos.

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