Jornal nazista volta às bancas na Alemanha

Marcio Damasceno Em Berlim (Alemanha)

Hitler voltou às primeiras páginas de jornais na Alemanha. A responsável por isso é uma editora britânica, que está lançando esta semana nas bancas do país uma série de edições originais de jornais alemães da era nazista. Entre elas, a reimpressão do diário nazista Der Angriff (O Ataque), fundado em 1927 por Joseph Goebbels, futuro ministro da Propaganda do Terceiro Reich.

CAPA DO "DER ANGRIFF"

  • Divulgação/Zeitungszeugen

    Editora britânica lançará nesta semana, nas bancas da Alemanha, uma série de edições originais de jornais alemães da era nazista


A coleção "Zeitungszeugen" (testemunhas de jornal, em tradução livre) é editada semanalmente, trazendo sempre três periódicos originais de um dia específico do período entre 1933 e 1945. O primeiro número traz três diários de 20 de janeiro de 1933, quando Adolf Hitler é nomeado chanceler alemão. Além de Der Angriff, estão incluídos fac-símiles do conservador Allgemeine Deutsche Zeitung e do comunista Kämpfer. As edições vêm completas, incluindo caderno de esportes, classificados e até coluna social.

Logo na primeira página de Der Angriff, o leitor encontra um editorial de Joseph Goebbels, intitulado "Limpando a mesa!", onde o aliado de Hitler afirma que "o nacional-socialismo não tentará nada pela metade", completando com a promessa de que ele e seus correligionários estão "prontos para curar o corpo doente do povo alemão e fazê-lo capaz de viver novamente".

A publicação de material de propaganda nazista é assunto delicado na Alemanha.

Basta lembrar que o porte de símbolos como a suástica e similares pode causar sérios problemas com a Justiça. Filmes de propaganda nazista têm exibição restrita por lei e livros como a autobiografia Mein Kampf (Minha Luta), de Hitler, não podem ser reeditados até hoje.

Alguns temem que o material acabe sendo usado por neonazistas, em vez de servir como fonte informação histórica.

Charlotte Knobloch, presidente do Conselho Central Judaico na Alemanha, advertiu que "se os jornais e a propaganda nazista, publicados de forma claramente destacada dos comentários históricos, forem percebidos isoladamente, a experiência pode ser fatal".

A redatora-chefe da publicação, a historiadora Sandra Paweronschitz, diz que Zeitungszeugen deve contribuir para uma discussão equilibrada sobre o tempo nazista.

"Mostramos o que as pessoas podem saber sobre os acontecimentos do Terceiro Reich, caso o leitor queira se informar", defende ela.

A editora está lançando os jornais com um generoso suplemento informativo, incluindo artigos e análises de historiadores renomados, enfocando a época do Terceiro Reich.

Os responsáveis também se preocuparam em se distanciar explicitamente do conteúdo nazista, através de um aviso, impresso na publicação. "A edição de jornais e documentos originais do tempo do nacional-socialismo destina-se à compreensão desse período crítico da história alemã. O editor se distancia expressamente dos conteúdos dos periódicos e documentos nacional-socialistas".

A Alemanha é o nono país europeu onde o empresário britânico Peter McGee, diretor da editora Albertas Limited, lança seu projeto focalizando o período nazista.

A editora aposta no sucesso da empreitada, e planejou uma tiragem considerada alta, de 300 mil exemplares, para o primeiro lançamento.

Livros e matérias sobre o Terceiro Reich tem vendido bem na Alemanha. Para se ter uma idéia, as edições mais vendidas da respeitada revista alemã Der Spiegel costumam ser aquelas trazendo Adolf Hitler na capa.

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