Repórter da BBC chega a Rafah, na Faixa de Gaza

O repórter da BBC, Christian Fraser, é um dos primeiros jornalistas independentes a entrar em Gaza desde o início da ofensiva israelense, no dia 27 de dezembro. Israel continua negando o acesso de jornalistas estrangeiros ao território sem supervisão. Fraser chegou a Rafah, no sul da Faixa de Gaza, através do Egito e enviou o relato abaixo sobre as condições de vida na cidade. Nós esperamos 19 dias para cruzar a fronteira para Rafah.

Por três semanas, nós vimos os feridos atravessarem a divisa, deixando para trás ruidosas explosões. Rafah vem sendo bombardeada desde que o início deste conflito. Os israelenses têm como alvo túneis de contrabando que passam por baixo do muro do perímetro. Cerca de 40 mil pessoas que viviam perto dele agora ficaram sem casa. Cinco mil delas estão abrigadas em três escolas da ONU (Organização das Nações Unidas). Muitas são crianças.

Elas estão alegres em me ver. Felizes por ver qualquer pessoa do mundo exterior.

"Qual é o seu nome? Qual é o seu nome?", gritam.

Em cada sala de aula dormem 25. As carteiras formam pilhas altas em um canto. Eles compartilham quatro colchões e, hoje, couve para o jantar.

Nós encontramos Mahmoud, que estava carregando o filho de sete meses, Mohammed. Eles são do campo de Shaboura. Há dez dias, Mahmoud tirou o filho dos escombros de sua casa, miraculosamente ileso. Agora ele abraça forte o menino.

"Eu conto estórias para as crianças à noite", disse Mahmoud. "Eu puxo todas para perto de mim, tento acalmá-las. Eu digo a elas que não vão morrer. Que o bombardeio acabou." Há pais por toda a Faixa de Gaza criando distrações semelhantes.

Nosso anfitrião, Ahmed Adwan, disse que toda vez que uma bomba cai perto de sua casa, ele dança para a filha de três anos. Agora ela acha que é uma brincadeira.

Espera Mas não é brincadeira. O estresse psicológico é enorme e aparece no rosto das pessoas que encontramos.

Os caças sobrevoam a casa continuamente. Ninguém dorme. Ninguém sabe onde a próxima bomba vai cair. Não há um momento de paz. As conversas são interrompidas constantemente pelo rugido de aeronaves israelenses.

Nós vimos os seus ataques "precisos". Não há dúvida de que os israelenses fizeram um esforço para atingir seus alvos com precisão. A delegacia do lado oposto do armazém da ONU agora é só uma cratera.

Mas há muitos locais bombardeados onde se pode ver danos colaterais. Não é de se estranhar que tenha havido tantos mortos e feridos entre civis. Na casa onde estamos hospedados as janelas ficam abertas, caso o impacto de uma das explosões estoure os vidros.

Ahmed fumava 20 cigarros por dia antes do início deste conflito. "Agora, todos os dias, eu fumo dois maços e meio", disse ele. "Eu estou nervoso o tempo todo. Eu me preocupo com a família." Seu amigo, Abu Moustafa, foi forçado a abandonar sua casa na fronteira há duas semanas. Agora ele vive com parentes.

"Eu virei duas vezes refugiado", disse ele. "Meu pai perdeu a casa dele para os israelenses em 1948. Ele era do vilarejo de Yebna. Agora nós estamos desabrigados de novo." "Minha casa ainda está de pé, mas está danificada." "Eles bombardeiam a área desde o dia 28. Havia 21 de nós na casa naquela noite. Eu não vejo meus vizinhos desde então. Não existe interação social no momento." "É perigoso demais andar pela cidade então nós ficamos sentados e esperamos ... e esperamos." Economia destruída Os palestinos de Rafah disseram que os túneis são vitais para eles.

Eles dizem que poucas armas passaram por debaixo do muro. Agora os túneis estão destruídos e eles temem que a escassez de suprimentos se agrave.

"Existe comida, mas há uma escassez crônica mesmo dos produtos mais básicos", disse Ahmed.

"Farinha de trigo, açúcar, lentilhas, arroz... e os preços dispararam. Tudo está mais caro. Não há shekels (moeda israelense) em Gaza, só dólares." "Os funcionários da UNWRA (Agência de Ajuda aos Refugiados Palestinos da Organização das Nações Unidas na Faixa de Gaza) aqui só receberam 50% de seus salários no mês passado porque existe essa escassez de dinheiro na Faixa (de Gaza)." "Eu não posso tirar dinheiro do banco. Meu irmão me manda dinheiro do Egito através de pessoas que cruzam a fronteira." Combustível é outro produto que está mais caro. Há três semanas, o diesel custava um shekel (US$ 0,26) por litro. Agora custa mais de quatro shekels.

"Como é que nós vamos conseguir combustível se eles não reabrirem as fronteiras?", perguntou Ahmed.

"Nós estamos vivendo sob cerco há 18 meses. Nós não confiamos nos israelenses para nos abastecer. Faltam-nos tantas coisas que o Ocidente tem garantidas. Ração animal." "Eles nunca falam sobre isto mas como vamos alimentar as nossas galinhas e vacas? É por isso que o preço da carne e do frango subiu tão depressa." Em resumo, a economia da Faixa de Gaza e de Rafah está em frangalhos.

"Nós esperamos que haja uma trégua", disse Abu Moustafa. "Mas por quanto tempo vai durar? Se a comunidade internacional continuar a fazer vista grossa para as injustiças que nós sofremos, nunca vamos romper o círculo vicioso. Nós também queremos paz. Quem quer viver deste jeito?"

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