Para analistas, erros da oposição fortaleceram Chávez

Além dos altos índices de popularidade, do controle sobre as Forças Armadas e da bonança do petróleo, o presidente da Venezuela Hugo Chávez contou com um elemento fundamental que colaborou para fortalecer seu poder ao longo da última década no país: o conjunto dos erros da oposição.

Na avaliação de analistas e políticos ouvidos pela BBC Brasil a tentativa, a qualquer preço, de derrubar o presidente e tirar a legitimidade de seu governo, aliada à divisão e a incapacidade desse grupo de propor um projeto alternativo ao chavismo, contribuíram para a consolidação da chamada revolução bolivariana.

O fracassado golpe de Estado, em abril de 2002, que chegou a afastar Chávez do poder por 48 horas, foi o primeiro e o principal erro da oposição na avaliação de Julio Borges, do partido opositor Primeiro Justiça (PJ) de centro-direita.

"O erro foi pensar que era preciso tirar Chávez do Palácio de Miraflores (sede do governo) quando o que tínhamos de ter feito era tirá-lo do coração das pessoas", afirmou Borges, da direção do partido.

Borges argumenta que a oposição ainda batalha para recuperar a confiança perdida junto à população no período de crise política no país.

"Ainda estamos pagando (pelo erro) porque ao final o que se produziu é que o país viu durante muitos anos que de um lado estava Chávez e o povo e do outro lado estava a oposição", acrescentou.

O golpe levou milhares de simpatizantes do presidente, provenientes fundamentalmente dos bairros pobres, a tomarem as ruas para exigir o regresso do mandatário ao Palácio de governo, episódio que fortaleceu o presidente.

A partir de então a polarização tomou conta da sociedade venezuelana e permitiu que a tese de que a disputa política na Venezuela também se tratava de uma batalha entre pobres (chavistas) e ricos (anti-chavistas) se fortalecesse.

Greve petroleira
Diferente da situação atual, em 2002, os partidos políticos eram um grupo minoritário na corrente opositora ao governo. Empresários, a cúpula da Igreja Católica e os meios de comunicação privados eram os grupos com maior poder de decisão.

"Todos eles tinham mais credibilidade do que os partidos políticos, porém, esses são setores que não foram feitos para negociar e sim para impor o seu ponto de vista", afirmou a historiadora Margarita López Maya, da Universidade Central da Venezuela.

Meses depois do golpe, a oposição organizou um locaute liderado pela federação de empresários Fedecamaras e pela direção da PDVSA, estatal petroleira responsável por 94% das divisas que ingressam ao país.

A medida, que tinha como objetivo levar à renúncia o presidente, afundou o país em uma crise econômica, com uma perda de 24% do Produto Interno Bruto (PIB) e de desabastecimento de alimentos e combustível.

"A teoria era de que não há governo na Venezuela que resista a três dias de greve petroleira. Chávez agüentou 62 dias (de locaute) e a greve morreu sozinha", afirmou o diretor do diário opositor Tal Cual, Teodoro Petkoff, ex-assessor de campanha do candidato presidencial Manuel Rosales.

Depois da greve, Chávez demitiu 18 mil funcionários da PDVSA e estabeleceu pleno controle da principal indústria do país, hoje um dos pilares de sustentação de seu governo.

Derrotas
Em 2004, a oposição acumulou mais uma derrota. Agrupados na organização civil Coordenadora Democrática, os opositores recolheram assinaturas e conseguiram submeter o mandato presidencial a referendo revogatório, em mais uma tentativa de encurtar o período de Chávez no poder. Foi o auge da polarização entre chavistas e anti-chavistas.

Chávez saiu vitorioso das urnas com 58,25% dos votos. Os opositores, porém, não acataram os resultados e acusaram o governo de ter manipulado a votação.

Teodoro Petkoff considera que, ao denunciar a fraude sem poder demonstrá-la, a oposição desqualificou a via eleitoral como alternativa à Chávez e desmobilizou seus eleitores para as eleições de governadores e prefeitos que ocorreram poucos meses depois.

"A abstenção nas eleições regionais foi tão grande que entregou de graça o controle do país a Chávez, sem oposição", afirmou. Na ocasião, os aliados do governo conquistaram 21 governos estaduais dos 23 em disputa.

A perda do espaço da oposição no Legislativo foi similar. Em 2005, buscando tirar a legitimidade da disputa para a eleição do novo Parlamento, os partidos opositores decidiram não participar do pleito, alegando que o sistema eleitoral era fraudulento. Até as eleições, a oposição controlava 45% das cadeiras na Assembléia Nacional.

A oposição "pensava que se as pessoas não participassem, o governo se deslegitimaria e perderia apoio popular, mas ao final quem perdeu credibilidade foi a própria oposição", afirmou Julio Borges (PJ).

Sem espaços institucionais para disputar politicamente com o chavismo, as ações da oposição de caráter público tiveram que limitar-se a manifestações de rua, em protestos que acabaram sendo ignorados pelo Executivo.

Nova oposição
A resistência da oposição à disputa eleitoral passou a mudar a partir de 2006, quando o candidato Manuel Rosales participou da eleição presidencial e aceitou a vitória - e reeleição - do presidente venezuelano com mais de 61% dos votos.

"Se marcou uma estratégia que admitia a democracia como caminho e o processo eleitoral como saída (para derrotar o chavismo)", afirmou Teodoro Petkoff, que assessorou Rosales durante a campanha eleitoral.

Mas foi a derrota do chavismo no referendo da reforma constitucional de 2007, porém, que deu novo fôlego à oposição, que passou a acreditar, ainda que com uma vitória apertada no pleito, que era possível vencer nas urnas.

"Pela primeira vez se ganhou uma de Chávez", disse Petkoff.

Os opositores do governo ganharam novos adeptos durante a campanha para modificar a Carta Magna. Primeiro o partido Podemos (social-democrata), que deixou a base governista e se aliou à oposição.

A outra ruptura veio com a saída do ex-ministro de Defesa Raul Isaías Baduel. O general, até então visto como um dos "heróis" que garantiram o regresso de Chávez ao poder durante o golpe, criticou o que chamou de "projeto autoritário" de Chávez e rompeu com o governo. Mas, diferente do que previam alguns analistas, Baduel tampouco foi aceito pela oposição.

"Em muitos casos os ataques contra mim provém mais da oposição do que do próprio governo", afirmou. Baduel defendeu a realização de uma nova Assembléia Constituinte para modificar a Constituição de 1999, proposta que não foi acolhida, até agora, pelos demais opositores.

Recuperação
Embalados com a vitória no referendo da reforma constitucional, os representantes anti-chavistas de maior peso conseguiram em alguns casos recuperar e, em outros, consolidar espaços de poder, nas eleições regionais realizadas em novembro do ano passado.

A vitória da oposição em cinco Estados e também da prefeitura da grande Caracas marcou uma mudança de atitude dos partidos opositores, inclusive da ala mais radical. "Foi a primeira vez nos últimos anos em que nenhum grupo opositor fez campanha pela abstenção", afirmou Julio Borges do PJ.

Ligado aos setores empresarial e agropecuário do Estado Zulia, Rosales se consolidou no poder local e entrou fortalecido na corrida às eleições presidenciais de 2013. Rosales - que é acusado de corrupção - conquistou a prefeitura de Maracaibo, capital zuliana e conseguiu eleger seu candidato Pablo Perez (ambos do partido Um Novo Tempo) como governador desse Estado.

No Estado de Miranda, um dos mais importantes do país, Capriles Radonski (PJ), saiu vitorioso, reforçando o peso de seu partido no campo opositor.

Em busca de um líder
Analistas consideram que a incapacidade de propor alternativas ao chavismo foi um dos principais fracassos da oposição.

Entre os anti-chavistas, há também muitos que acham que a oposição carece de um líder que seja capaz de unificá-los. Teodoro Petkoff admite que a única liderança existente no país, ainda que não concorde com ela, é a do presidente da República.

"A liderança de Chávez é massacrante, ao lado dele não cresce nada, por isso há tanta carência de referências políticas", afirmou.

Petkoff aposta que nos próximos quatro anos a oposição construirá uma candidatura presidencial viável, mas admite que, no momento, não há outro líder ou projeto no país comparáveis a Chávez e a revolução bolivariana.

"Ainda não há alternativa no país, há oposição, mas não há alternativa", afirmou Petkoff. "Todos os setores sociais que vão se desencantando (com o chavismo), quando olham para o outro lado, não vêem alternativa".

Para a historiadora Margarita López Maya, o desafio da oposição é entender que, no imaginário do venezuelano comum, a política liberal adotada nas décadas anteriores não seria aceita pelos venezuelanos. "Eles ainda não entenderam que, para os venezuelanos, este projeto está derrotado, que há que se pensar em um novo modelo", diz ela.

López Maya acredita que é necessário romper com o "messianismo" da era Chávez, mas a seu ver, "enquanto o governo tiver recursos e enquanto não houver uma oposição crível, os venezuelanos preferirão continuar como estão do que experimentar outras coisas", afirmou.

O opositor Julio Borges sintetiza o dilema vivido por seus aliados: "O problema é que os que não estão de acordo com Chávez ainda não se colocaram de acordo sobre o quê concordam. Sabem que não gostam disso (chavismo), mas o problema é: do que gostam então?".

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