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08/04/2010 - 13h49

Deposição de governo no Quirguistão preocupa países vizinhos

  • Rosa Otunbayeva, líder autoproclamada do governo interino do Quirguistão, fala com a imprensa

    Rosa Otunbayeva, líder autoproclamada do governo interino do Quirguistão, fala com a imprensa

A líder da oposição e antiga ministra das Relações Exteriores, Rosa Otunbayeva, dissolveu o Parlamento e assumiu a liderança do governo interino. Ela anunciou que será promulgada uma nova Constituição e que se convocarão novas eleições.

Na quarta-feira (7/4), milhares de opositores do governo invadiram as ruas na capital Bishkek para protestar contra a corrupção no governo do presidente Kurmanbek Bakiev. Pelo menos 75 pessoas morreram e mil ficaram feridas nos conflitos, segundo informou o Ministério da Saúde do país.

Na cidade de Talas, ao oeste de Bishkek, mais de 80 policiais saíram feridos dos confrontos com manifestantes ocorridos na véspera. Estes ocuparam a sede do governo regional e reivindicaram a renúncia do presidente do Quirguistão, considerado o país mais pobre de Ásia Central.

Inicialmente, a mídia quirguiz havia noticiado a renúncia do presidente Bakiev, provavelmente refugiado na região central de Jalal-Abad. Depois, agências de notícias locais desmentiram a renúncia. Bakiev havia assumido o poder em 2005, depois da Revolução das Tulipas, que começou com manifestações semelhantes.

Nesta quinta-feira, o primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, reconheceu o governo provisório do Quirguistão e prometeu enviar ajuda ao país. Em conversa telefônica com a chefe interina do governo, Rosa Otunbayeva, Putin apelou pelo fim da violência na ex-província soviética.

Moscou enviou 150 soldados ao Quirguistão para proteger a base da força aérea russa na cidade de Kant, afirmou o comandante do Estado-Maior das Forças Armadas russas, general Nikolai Makarov.

O Uzbequistão fechou suas fronteiras com o Quirguistão. O governo da China, por sua vez, se declarou profundamente preocupado com a situação e espera que o país vizinho restabeleça rapidamente a ordem. O ministro alemão do Exterior, Guido Westerwelle manifestou-se também pelo fim da violência no país asiático.

"Não está fácil a situação", consentiu Rosa Otunbayeva. "Ainda não está claro onde o presidente se encontra. O governo provisório já começou a trabalhar hoje. Pedimos que os militares renunciem ao uso da força e que a população não promova mais violência", declarou ela.

Causas do conflito

O motivo que levou à explosão dos protestos nesta quarta-feira já fermentava há muito tempo entre os quirguizes. As razões para o descontentamento são muitas: alta taxa de desemprego, problemas de infraestrutura, pobreza generalizada. A região fronteiriça com a China depende de ajuda internacional para se sustentar, mas o dinheiro não estava chegando à população, sendo barrado pela burocracia do governo de Bakiev.

De acordo com Uwe Halbach, do Instituto Alemão de Assuntos Internacionais e de Segurança (SWP, na sigla em alemão), em Berlim, a situação se tornou insustentável. “Nos últimos meses, observamos que as condições de vida pioraram nitidamente no país: aumento de preços, falta de energia... No contexto político, a oposição e a sociedade civil foram ficando frustradas com um governo que vinha se mostrando cada vez mais autoritário”.

O presidente deposto agora havia se tornado um símbolo de esperança com a Revolução das Tulipas, em 2005. Depois da derrubada violenta do governo anterior, de Askar Akayev, ele havia prometido levar adiante o processo de reforma iniciado após a dissolução da União Soviética.

“Quando Akayev fugiu e elegemos Bakiev, tínhamos esperança de que o novo presidente seria melhor. Mas nos enganamos e elegemos um clã familiar corrupto. Bakiev tem sete ou oito irmãos, e todos se envolvem nos assuntos públicos. Não são os governadores ou ministros e sim os irmãos de Bakiev que tomam as decisões no Quirguistão. Por isso, não o queremos mais como presidente“, conta um morador da cidade de Bishkek.

Nas eleições de 2009, em que Bakiev se reelegeu com 76% dos votos, os concorrentes não tiveram chance. Segundo opositores, a votação foi amplamente manipulada.

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