"Rio 2016 pode inspirar nova geração de atletas", diz Scheidt

Bianca Kopsch (rw)

Velejador brasileiro afirma que os Jogos Olímpicos mostram o poder do esporte e diz que paisagem natural e proximidade entre locais de competição tornarão evento inesquecível.

Depois de disputar cinco edições dos Jogos Olímpicos - as duas últimas pela classe Star -, o velejador Robert Sheidt, de 42 anos, voltará a competir pela Laser Standard, em que conquistou as medalhas de ouro de seu currículo olímpico, nos Jogos de Atlanta, em 1996, e de Atenas, em 2004. Scheidt decidiu retornar à Laser depois que a Federação Internacional de Vela (Isaf) excluiu a Star do programa olímpico.

Com cinco medalhas olímpicas (dois ouros, duas pratas e um bronze) e 14 títulos mundiais nas classes Laser e Star, Robert Scheidt é, ao lado do também velejador Torben Grael, o maior medalhista brasileiro em Jogos Olímpicos.

Natural de São Paulo, ele mora com a família nas proximidades do lago de Garda, na Itália. Nesta entrevista à DW, Scheidt fala de suas expectativas em relação aos Jogos do Rio, o que a competição pode significar para a juventude brasileira, e sobre a poluição na Baía da Guanabara.

DW: Robert Scheidt, há 20 anos você faz parte da elite do iatismo internacional. Duas vezes foi escolhido Velejador do Ano pela Federação Internacional de Vela (Isaf) e já conquistou cinco medalhas olímpicas. Qual é a receita do seu sucesso?

Robert Scheidt: Não é fácil conseguir se manter por tanto tempo entre a elite do esporte. Quando você ganha pela primeira vez, todos esperam que continue vencendo. E a gente mesmo exige muito de si. Você tem que aperfeiçoar os treinos, experimentar coisas novas, continuar evoluindo. Você nunca pode ficar parado e pensar que é o melhor, porque aí a concorrência lhe ultrapassa. No início da carreira, eu nunca pensei que conquistaria tantos títulos. Agora participarei pela sexta vez dos Jogos Olímpicos, esta é uma grande realização!

Desta vez você vai competir no seu próprio país. O que será diferente?

Tudo será diferente. Há uma grande expectativa, especialmente em relação aos atletas com chances de medalhas. Temos de usar essa expectativa, essa pressão como incentivo, como algo positivo. E transformar isso em energia. Quando vejo a bandeira do Brasil, o Cristo Redentor e o Pão de Açúcar, isso me dá motivação.

Nos Jogos no Rio, você estará com 43 anos de idade. Você ainda se sente preparado para uma competição como essa?

É realmente um grande desafio. Com o passar dos anos, precisamos de mais tempo para nos recuperarmos. Hoje em dia, eu preciso treinar de forma inteligente, com mais qualidade e menos quantidade. Preciso distribuir melhor as forças. Por outro lado, o que conta muito no iatismo é a experiência.

Conheço as mais variadas situações, já participei de cinco Jogos Olímpicos, já vivenciei diversos momentos de estresse. Isso pode ter um efeito positivo sobre mim. Claro que vou competir com velejadores que são 20 anos mais jovens que eu. Mas vejo como um privilégio o fato de ainda poder praticar esse esporte num nível tão elevado. Sei que não estou mais no auge da minha forma física, mas ainda continuo competitivo.

Você conquistou sua primeira medalha de ouro olímpica em Atlanta, há 20 anos. Quais suas expectativas para o Rio?

Estes são os primeiros Jogos Olímpicos em que não sou favorito - incrível! Sempre fui o favorito à medalha de ouro, desde s minha primeira participação olímpica, em 1996. Exceto, talvez, em 2008, quando se pensou que eu levaria prata. Desta vez é diferente. Mas as competições de vela dependem de muitos fatores: da correnteza, do vento, se se está na baía ou não...

É um esporte bem complexo, por isso nem sempre ganha o favorito. Não é como na natação ou no atletismo, em que se sabe exatamente os tempos marcados nos treinos. Ainda posso melhorar algumas coisas até os jogos do Rio, e estou fazendo isso. O importante agora é evitar lesões e cuidar bem do meu corpo. E, quando chegar a hora, quero aproveitar bem as minhas chances.

O que diferencia o Rio de Janeiro das demais sedes de Jogos até agora?

O que será diferente no Rio é que todas as competições podem ser praticadas diretamente na cidade. Isso é ótimo, porque a população poderá acompanhar. Isso vale não só para modalidades conhecidas, como natação e atletismo, mas também para as competições de vela, vôlei de praia e tênis. Muitas vezes estas disputas acontecem em locais isolados dos centros. Desta vez há uma grande vantagem. E isso sem mencionar a maravilhosa paisagem dessa cidade entre o mar e as montanhas.

Os Jogos vão ficar na memória de todos. Talvez eles não sejam tão suntuosos e exagerados como os da China, mas com certeza serão muito especiais, por causa da energia deste povo e da beleza da cidade.

Há críticas internacionais de que a Baía de Guanabara, onde serão as regatas, está muito poluída pelo esgoto e pelo lixo. O que você acha das consequências disso para a prática do esporte e a saúde?

Acho que a situação não é tão ruim como muitas vezes aparece na imprensa. Durante os Jogos querem remover da água os resíduos que poderiam atrapalhar a competição, como sacos plásticos e outras coisas. Se isso for feito, acredito que haverá condições para competir.

Quanto à qualidade da água, não se pode dizer que toda pessoa que navega aqui acaba contraindo alguma doença. Em Sydney tínhamos medo dos tubarões, aqui talvez se tenha medo do ataque de uma superbactéria... (risos). Até agora não há documentação sobre isso, e eu acredito e confio que os responsáveis continuarão fazendo controles.

O que você espera dos Jogos em sua pátria?

Os Jogos Olímpicos têm o poder de deixar uma mensagem ao povo brasileiro: este não é apenas o país do futebol! Este é um país onde há muitos esportes importantes. E eu espero que a delegação olímpica brasileira obtenha muitas medalhas. Isso terá um impacto sobre a juventude. A competição pode inspirar uma nova geração de atletas e mostrar o poder do esporte. Os Jogos podem despertar nela um sonho e criar ídolos que a inspirem. Foi assim comigo.

Seu sobrenome, Scheidt, tem origem alemã...

Como muitos outros alemães, meu avô veio da Alemanha para o Brasil após a Primeira Guerra Mundial. Ele conheceu minha avó em São Paulo, eles se casaram e tiveram seis filhos. Meu pai, Fritz, já nasceu no Brasil.

Tenho uma relação especial com a Alemanha. Já competi mais de 15 vezes na Semana da Vela de Kiel e quero continuar participando. Gosto muito da Alemanha, tenho muitos amigos lá.

Quais os planos para depois dos Jogos do Rio?

Provavelmente será minha última participação olímpica. Depois disso talvez continue experimentando outras classes do iatismo para reavaliar minhas oportunidades profissionais.

E vou me dedicar a outras coisas, como minha família. Tenho uma mulher sensacional e dois filhos. Medalhas olímpicas são importantes, cada uma delas tem uma história própria, por isso são guardadas. Mas ter uma família é a coisa mais importante do mundo!

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