Vaticano critica edição especial do "Charlie Hebdo" sobre atentado

Para jornal católico, semanário satírico desrespeita fiéis de todas as religiões ao colocar um deus armado na capa e chamá-lo de assassino. Edição especial tem 1 milhão de exemplares.

O Osservatore Romano, diário oficial do Vaticano, criticou a edição do Charlie Hebdo que lembra, nesta quarta-feira (06/01), o primeiro aniversário do atentado terrorista ao semanário satírico francês, afirmando que o periódico francês desrespeita fiéis de todas as religiões.

A publicação satírica lançou uma edição especial, de 32 páginas, com uma tiragem de cerca de um milhão de exemplares, trazendo na capa um deus barbudo, ensanguentado e armado com uma kalashnikov, com a manchete: "Um ano depois, o assassino ainda está à solta".

Dentro da edição, há uma charge em que a equipe do Charlie Hebdo é retratada como na famosa pintura A Última Ceia, de Leonardo da Vinci. Uma série de outros desenhos e textos fazem referência ao ataque de 7 de janeiro de 2015. Também foram impressas antigas caricaturas feitas por pessoas que morreram no atentado, como os cartunistas Charb, Cabu, Honoré, Tignous e Wolinski.

A edição especial segue a tradição do periódico, que exerce uma crítica mordaz da religião. O jornal se vê como vanguarda na luta contra o fundamentalismo religioso e a favor do secularismo, o que rendeu à sua equipe uma série de processos e ameaças, além do atentado mortal.

"Jornal não contribui para a coesão social"

"Atrás da bandeira enganadora de uma laicidade sem compromissos, o semanário esquece, uma vez mais, aquilo que tantos dirigentes religiosos de todas as confissões não deixam de repetir para rejeitar a violência em nome da religião: usar Deus para justificar o ódio é uma verdadeira blasfêmia, como disse em várias ocasiões o papa Francisco", afirmou o Osservatore Romano.

O jornal do Vaticano citou, ainda, o presidente do Conselho Francês do Culto Muçulmano, Anouar Kbibech, que considerou que a charge "agride todos os fiéis de várias religiões" e não contribui para a coesão da sociedade francesa num momento difícil.

No ano passado, a bordo do avião na viagem de regresso das Filipinas, o papa Francisco afirmou que a liberdade religiosa, assim como a liberdade de expressão, é um valor inalienável. Mas Francisco advertiu que a liberdade de expressão não deve ser usada para a ofensa e o insulto.

Ameaças à imprensa

Em Paris, as vítimas dos ataques de janeiro 2015 foram lembradas nesta terça-feira. O presidente francês, François Hollande, inaugurou três placas em homenagem aos mortos, uma no prédio onde ficava a redação do Charlie Hebdo e duas em outros locais dos atentados.

A equipe do Charlie Hebdo, que hoje trabalha num novo e secreto endereço, afirmou que se sente isolada na defesa da liberdade de expressão, apesar das recentes manifestações de solidariedade. "Nós nos sentimos tremendamente sozinhos. Esperávamos que outros também se dedicassem à sátira", lamentou o diretor de Finanças, Eric Portheault. "Mas ninguém se une a nós nessa luta porque ela é perigosa. Você pode morrer", concluiu.

MD/afp/lusa/dpa/epd

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