Opinião: Missão cumprida no México? Longe disso

É possível falar em sucesso na luta contra o tráfico de drogas com a recaptura de El Chapo? Para a chefe da redação em espanhol da DW, Claudia Herrera Pahl, ainda há muito por fazer.

A notícia se espalhou como pólvora pelo mídia. Tão espetacular como a fuga, há seis meses, foi a recaptura. Ao tentar escapar pela rede de esgoto de Sinaloa, Joaquín "el Chapo" Guzmán, o traficante de drogas mais procurado do mundo, foi preso neste 8 de janeiro pela Marinha do México e pela DEA dos Estados Unidos. Sem dúvida, a história desse homem com predileção por túneis está destinada a virar filme.

Ele mesmo trabalhava, segundo a imprensa, num roteiro autobiográfico. Agora ele não poderá mais ser o ator principal, mas, de sua cela na prisão de segurança máxima de Almoloya, poderá acompanhar a estreia, esta semana, da primeira parte de A fuga do século. Ele poderá fazer suas críticas e sugestões ao diretor para o que se planeja venha a ser uma saga de quatro capítulos - ou talvez mais, quem sabe.

Os Estados Unidos pediram há muito tempo a extradição de El Chapo, que acusam de assassinato, sequestro e contrabando de drogas. A imprensa mexicana especula que pode demorar muito até que a extradição aconteça, se é que algum dia acontecerá. É tempo suficiente, portanto, para uma terceira fuga e alguns capítulos extras na saga do traficante. Ou, em outras palavras, mais circo para o público nacional e internacional. Por hora, isso é tudo que se tem.

Numa breve declaração à população, o presidente mexicano, Enrique Peña Nieto, chamou a captura do fugitivo de "vitória do Estado de Direito e uma ação contra a impunidade". Ele acrescentou que "hoje, nossas instituições demonstraram mais uma vez que os cidadãos podem confiar nelas".

El Chapo não é mais do que um nó - grande, sem dúvida, mas apenas um entre muitos - no emaranhado de um país cada vez mais dominado pelos traficantes. Sua recaptura é certamente um fato positivo, mas não muda nada: não diminui a venda de drogas, não reduz o número de sequestros nem tampouco a violência.

Se o governo mexicano quer realmente recuperar a confiança dos cidadãos em suas instituições, são necessárias ações verdadeiras contra a impunidade. Ele poderia começar esclarecendo os acontecimentos de 30 de junho de 2014 em Tlatlaya, de 26 de setembro de 2014 em Ayotzinapa e de 6 de janeiro de 2015 em Apatzingán. Não são nem os mais obscuros nem os mais sangrentos, mas são os mais recentes e um bom início para enfrentar os crimes contra a humanidade que seguem impunes.

São necessários esforços muito maiores para superar o desprestígio do governo mexicano e recuperar o apoio de um povo cuja maior esperança é que se ponha um fim à essa longa saga de sangue. Só então será possível dizer "missão cumprida!".

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