Por trás do véu: a imagem da mulher no islã

Kersten Knipp (ca)

À primeira vista, o papel da mulher parece ser igual em todos os países muçulmanos. Mas não há base teológica para uma imagem unificada. O ato de cobrir a cabeça e o corpo, por exemplo, é uma questão de interpretação.

Nascido em 1960, não se pode dizer que Muhammad Salih al-Munajjid esteja em idade avançada. Mas as opiniões emitidas pelo estudioso de religião - filho de refugiados palestinos, natural da Síria e residente na Arábia Saudita desde a adolescência - se assemelham mais a documentos de épocas passadas.

Munajjid publicou suas opiniões no islamqa.info, um dos sites salafistas mais populares no mundo árabe. Na página, um jovem, por exemplo, pede ao religioso a resposta a uma pergunta aparentemente difícil para ele: E sobre o status das "escravas" que se encontram na Arábia Saudita? É possível ter relações sexuais com elas? Mesmo que se seja casado? O autor da pergunta não explicita o que entende por "escrava" - ele considera ser algo difundido. Na Arábia Saudita, o termo é usado para se referir às muitas empregadas domésticas do Sudeste Asiático que trabalham no país.

O estudioso da religião sabe a resposta: "O islã permite a um homem ter relações sexuais com uma escrava, seja ele casado com uma ou várias mulheres ou solteiro." Como justificativa, Munajjid menciona passagens do Alcorão, a biografia do profeta Maomé, como também as opiniões dos principais xeiques. "Os estudiosos", resume Munajjid, "são uníssonos nessa avaliação, e não é permitido a ninguém vê-la como proibida ou proibi-la. Quem fizer isso é um pecador que vai de encontro ao consenso dos religiosos."

O parecer religioso (fatwa) sobre a disponibilidade sexual de mulheres asiáticas que, na realidade, vieram para a Arábia Saudita somente para o trabalho doméstico é apenas uma das muitas fatwas que os estudiosos islâmicos sauditas publicam diariamente sobre o papel da mulher. De acordo com a etnóloga Madawi al-Rasheed, da London School of Economics, somente na segunda metade do século 20, estudiosos de religião sauditas emitiram por volta de 30 mil fatwas. Casamento, cuidados corporais, questões medicinais - os devotos sábios não deixam de fora nenhuma área em seus pareceres.

O véu como símbolo

O cenário religioso dominado pelos ultraconservadores wahhabistas na Arábia Saudita constitui um dos lados da confusa discussão sobre o papel das mulheres no islã. Do outro lado, estão as próprias mulheres - muitas vezes feministas seculares ou islâmicas, cujas respostas se opõem diametralmente àquelas dos wahhabistas.

Os dois grupos concordam apenas num ponto: no islã, o tratamento dado às mulheres é de central importância. Segundo a historiadora e feminista tunisiana Sophie Bessis, mais do que nunca, teólogos islâmicos procuram impingir uma identidade religiosa no Oriente Médio.

Para a feminista, essa identidade dependeria de símbolos e sinais, que se refletem nas muçulmanas vestidas tradicionalmente. "Identidade = religião = mulheres veladas, esse é o tríptico sugerido pelos movimentos islamistas aos árabes e que estes assumiram sem nenhuma dificuldade significativa, escreve a historiadora em seu livro Les Arabes, les femmes, la liberté (Os árabes, as mulheres, a liberdade, em tradução livre).

Há anos, o véu islâmico tem sido um dos sinais que tanto muçulmanos quanto não muçulmanos associam mais fortemente ao islã. Mas sinais são ambíguos. O que o véu poderia significar? Nos últimos tempos, algumas feministas ocidentais querem ver nele um símbolo da emancipação feminina.

"Pelo menos as mulheres usando burcas não são julgadas com base em sua aparência", escreveu a ensaísta australiana Helen Razer. Ibtissam Bouachrine, nascida no Marrocos e professora do Smith College em Massachusetts, é de outra opinião. Em seu livro Women in Islam. Myths, Apologies, and the Limits of Feminist Critique (Mulheres no islã. Mitos, apologias e os limites da crítica feminista, em tradução livre), ela explica que o véu tem outra função. "Como 'lar móvel', o véu lembra sempre que o habitat natural das mulheres é a casa."

Leitura feminista do Alcorão

Mas muçulmanos ortodoxos precisam mesmo se preocupar em manter as mulheres e filhas em casa, e quando isso não é possível, escondê-las ao menos atrás de um véu? Feministas islâmicas discordam disso. Diferentemente de ativistas laicas dos direitos das mulheres, elas argumentam com base no Alcorão - e procuram nele diferentes possibilidades de interpretação, principalmente aquelas referentes às necessidades das mulheres.

Segundo Amina Wadud, estudiosa do islã residente nos EUA, hoje o Alcorão não pode ser compreendido da mesma forma como na época em que foi escrito. Isso também se aplica à compreensão do uso do véu islâmico, diz. Em seu livro Quran and Woman (Alcorão e mulher, em tradução livre), ela escreve que no momento de origem do livro sagrado do islã, as mulheres de tribos mais ricas andavam veladas.

No entanto, a autora interpreta o uso do véu como um sinal de humildade. Ela conclui, então: "O Alcorão considera a humildade uma virtude, trata-se do princípio da humildade - não da ocultação e segregação das mulheres. Estas são apenas circunstâncias específicas daquela época."

O islã não possui uma hierarquia teológica abrangente. Há inúmeras interpretações, que variam de acordo com a região, variantes confessionais, grupos sociais e em parte também - como no caso dos wahhabistas muito bem remunerados na Arábia Saudita - com interesses pessoais. Isso faz com que seja difícil responder a questões teológicas, especialmente no que diz respeito ao papel da mulher - apesar de, à primeira vista, a situação parecer clara.

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

UOL Cursos Online

Todos os cursos