Istambul tenta voltar à normalidade após atentado

Anna L. Miller, de Istambul (ca)

Ataque suicida na quinta cidade mais visitada do mundo ameaça afetar turismo e levanta questões sobre novos alvos do terrorismo. Refugiados sírios temem que sua situação fique ainda mais difícil no país.

Um dia após o atentado suicida que matou dez turistas alemães, são poucos os indícios imediatos de que Istambul e seus moradores estejam de alguma forma traumatizados - salvo pela quantidade anormal de novas câmeras instaladas ao redor da fonte que separa a Mesquita Azul (Sultanahmet) da Basílica de Santa Sofia, local do ataque.

Alguns detalhes vêm à tona, ainda que a proibição temporária de difusão de notícias do ataque ainda esteja em vigor. Segundo a imprensa local, o sírio Nabil Fadli, de 28 anos, teria entrado na Turquia como refugiado e solicitado asilo em janeiro. Um dedo achado no local da explosão teria possibilitado a identificação.

"Isto mostra que há uma rede do EI dentro da Turquia, que estes homens são capazes de entrar em ação ao transitar da Síria para a Turquia, e que estão tentando chegar a outros lugares dentro do país", afirma Aaron Stein, pesquisador sênior do think tank Conselho do Atlântico. "Isto também mostra como é difícil rastrear essas pessoas, como também conhecer suas origens exatas dentro desse imenso fluxo de refugiados."

Desde os ataques, as autoridades turcas detiveram 68 pessoas, incluindo três cidadãos russos suspeitos de ligação com o EI nas cidades costeiras de Antalya e Izmir. No entanto, ainda não foi confirmado se isso aconteceu ou não em resposta aos atentados ou no contexto de uma batida de rotina contra o "Estado Islâmico".

Cautela em pontos turísticos

Nesta quarta-feira, viam-se alguns turistas caminhar cautelosamente em torno da Praça Sultanahmet, local do atentado. Um vendedor de rua tentava vender seu simit, um tipo de pão turco servido no café da manhã, para uma pequena clientela, enquanto um organizador de grupos de excursão procurava convencer turistas a participar de um passeio de barco pelo Bósforo.

"50% de desconto", dizia o guia ao tentar negociar com um casal inglês. "Se vocês estão preocupados com os ataques em locais turísticos, é mais seguro estar sobre a água." O casal, no entanto, se mostrou mais assustado com a agitação do que com a ameaça de terrorismo.

"Soube do atentado ao sair do avião ontem", diz Mark, de 57 anos. "Acho que ficamos um pouco abalados, mas estamos mais preocupados com o preço das coisas e em nos perdermos."

Istambul é a quinta cidade mais visitada do mundo, e a terceira da Europa - perdendo somente para Paris e Londres. Porém, muitos dos que trabalham na indústria do turismo e na hotelaria - responsáveis por 12% do Produto Interno Bruto - estão inquietados com o futuro do setor.

"Recebemos uma grande quantidade de cancelamentos desde ontem", afirma a recepcionista de hotel Asli. "Estou com medo de perder o emprego", desabafou.

Turistas na mira

Geralmente, a fila para entrar na Santa Sofia dá voltas pela praça, fazendo com que os turistas tenham que esperar horas para entrar no prédio histórico. Nesta quarta-feira, no entanto, viam-se somente algumas pessoas esperando.

"O que aconteceu ontem é tão trágico - tanto para aqueles que perderam suas vidas quanto para a cidade que tantos de nós [alemães] gostam de desfrutar", lamenta uma musicista berlinense de 26 anos, do lado de fora da Santa Sofia.

Muitos têm questionado se os alemães - nacionalidade de dez mortos no ataque e que perfazem o maior grupo de turistas estrangeiros na Turquia - estiveram especificamente na mira dos terroristas durante os ataques.

"A área em torno da Mesquita Azul é muito popular entre todos os tipos de turistas", diz o pesquisador Aaron Stein, do Conselho do Atlântico. "Eu não acho que um determinado grupo estivesse sendo visado entre os estrangeiros em geral. Eu diria que a excursão de turistas alemães teve um azar extremo ontem."

O governo alemão emitiu um alerta de viagem, instando todos os cidadãos do país a evitar multidões e locais turísticos em Istambul.

Perto dali, um grupo de garotas sírias tirava fotos com um pau de selfie. De visita a Istambul, Nour, jovem síria de 27 anos natural de Homs e que agora vive no sul da Turquia, afirmou ter outras preocupações.

"Estamos contentes de estar em Istambul", diz a jovem. "Mas estou com medo de que isso venha respingar nos sírios. Não foi nem mesmo um sírio quem praticou o ataque, mas a maioria das pessoas não sabe disso."

Desde o atentado, sírios espalhados por toda a Turquia - país que abriga o maior número de refugiados sírios no Oriente Médio - têm vivenciado mais restrições de viagens do que o normal, num esforço policial que, embora não confirmado, é suspeito de estar ligado aos ataques.

"Algumas vezes, é difícil demais viver neste país", completa a jovem.

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