Rio a 200 dias dos Jogos Olímpicos

Bianca Kopsch (pv)

Prazos, transportes, poluição na Baía de Guanabara e crise econômica são os principais obstáculos da cidade na corrida para o evento esportivo. Governo municipal se diz preparado em termos de segurança.

Comecemos pela boa notícia: 85% das instalações esportivas dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro estão prontas, e os restantes 15% provavelmente estarão finalizados até o início do evento, programado para daqui a exatos 200 dias.

No entanto, o acesso ao Parque Olímpico pode ficar complicado, caso se concretize o cenário apocalíptico estampado nas manchetes dos jornais. O maior projeto de infraestrutura no contexto dos Jogos Olímpicos está atrasado: uma nova linha de metrô, que deve transportar até 300 mil pessoas por dia, corre sério risco de não ficar pronta a tempo.

Isso significaria problemas de locomoção entre Copacabana - palco das competições de vôlei de praia, - ou da Marina da Glória - de onde velejadores partem rumo às regatas na Baía de Guanabara - e o Parque Olímpico.

Entretanto o diretor de comunicação do Comitê Organizador dos Jogos, Mário Andrada, demonstra tranquilidade. "Sempre pensamos que a linha de metrô seria a última obra finalizada. Será realmente bastante apertado, mas ela ficará pronta no final de maio. Esse é o plano atual."

Parque Olímpico

Ao menos a via expressa Transcarioca para os ônibus de tráfego rápido BRT já está em funcionamento entre o aeroporto internacional Antônio Carlos Jobim e o Parque Olímpico - peça central dos Jogos, com nove arenas.

O Centro de Tênis, com 16 quadras e espaço para 10 mil espectadores, foi a primeira instalação esportiva a ser inaugurada oficialmente, em dezembro. Após os Jogos, o local abrigará a Confederação Brasileira de Tênis (CBT) e será palco do Aberto do Rio de Janeiro (Rio Open 500).

Somente o Velódromo Olímpico está atrás no cronograma - devido ao sofisticado revestimento da pista, cuja madeira é especialmente importada da Europa, justifica Andrada. Aparentemente aprenderam-se as lições da Copa do Mundo de 2014 em relação ao cronograma de obras, o que rendeu elogios do Comitê Olímpico Internacional (COI).

Crise econômica e política

Embora os preparativos estejam, em grande parte de acordo, com o planejamento, a crise econômica no Brasil vem forçando os organizadores a pouparem para não estourar o orçamento das obras, estimado em cerca de 40 bilhões de reais.

Além disso, há a crise política. A presidente Dilma Rousseff tem que se defender de um processo de impeachment pelas chamadas "pedaladas fiscais", e o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, está sob investigação por suposto envolvimento no escândalo de corrupção em torno da Petrobras.

Nesse contexto, os contratos das obras olímpicas envolvendo empreiteiras também estão sendo investigados. Algumas inclusive colaboraram com o financiamento da campanha eleitoral do prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, algo que deve ter influenciado o processo de licitação das obras.

Além disso, o fato de o real ter perdido mais de um terço de seu valor em relação ao dólar agravou a situação, já que muitas das faturas serão quitadas na moeda americana.

O Comitê Organizador pretende encontrar maneiras de economizar em torno de 1,9 bilhão de reais. Causou rebuliço a proposta de que os atletas pagassem pelo uso do ar condicionado em seus próprios dormitórios - ideia já descartada. Por outro lado, só haverá televisores nas áreas comunitárias da Vila Olímpica e não em todos os quartos, como planejado inicialmente.

Baía de Guanabara

Fora as finanças e o transporte, o maior obstáculo para os Jogos Olímpicos é a água, mais especificamente a Baía de Guanabara, onde serão realizadas as competições de vela. O Rio ainda lança grande parte de suas águas residuais sem tratamento no mar, e toneladas de lixo flutuam pela baía.

De acordo com testes, o mais recente realizado em dezembro, os trajetos das regatas olímpicas também estão altamente infestados de bactérias patogênicas - inclusive superbactérias resistentes a antibióticos. No entanto, as demandas por uma mudança de local das competições de vela são rejeitadas pelo governo municipal, que, ao mesmo tempo, admite não poder manter a promessa olímpica de limpar a Baía de Guanabara.

O velejador brasileiro Robert Scheidt se mostra tranquilo em relação ao local. "Velejo aqui há mais de 20 anos e nunca tive qualquer problema. É evidente que esta não é exatamente a água mais limpa, mas acho que isso será controlado. E caso tenha havido incidentes, acredito terem sido exceções."

Legado olímpico e segurança

Apenas 40% dos gastos com os Jogos Olímpicos são pagos com receitas públicas, de acordo com as autoridades. Cerca de 60% são cobertos pelo setor privado, especialmente empresas imobiliárias. Estas, em contrapartida, recebem licenças de construção em terras públicas e isenções fiscais.

"O interesse público e o espaço público estão subordinados aos interesses e à gestão de construtoras. Elas assumem funções públicas e mudam a cidade de acordo com suas ideias, orientadas pelo lucro e não de acordo com as necessidades das pessoas", diz Orlando Santos Júnior, professor de planejamento urbano da Universidade Federal do Rio de Janeiro e ativista do Comitê Popular.

O Parque Olímpico, incluindo a Vila dos Atletas, é o melhor exemplo de terras públicas que foram passadas para mãos privadas. Algumas das instalações esportivas continuarão sendo utilizadas para fins esportivos após os Jogos, mas outras devem ser desmanteladas.

Como exemplo de sustentabilidade os organizadores dos Jogos citam a arena de handball: ela será desmontada após os Jogos e reconstruída em quatro escolas públicas. O mesmo se aplica ao parque aquático. Mas os críticos não querem se deixar enganar por exemplos individuais, já que, após os Jogos, parte das instalações olímpicas deve abrigar apartamentos de luxo - um negócio lucrativo para as empreiteiras.

Em termos esportivos, a expectativa ainda é pouca por parte da população. Mas o Brasil espera estar entre os dez primeiros no quadro de medalhas, tendo investido quase 400 milhões de euros para esse fim - quase o dobro dos gastos antes dos Jogos de Londres, quando ficou na 22ª posição.

O dinheiro vem sendo usado para financiar o treinamento de atletas e treinadores. As perspectivas, de fato, não são ruins: o Brasil ganhou 67 medalhas em competições mundiais envolvendo esportes olímpicos nos últimos três anos.

Em relação à segurança, o Rio diz estar preparado. Haverá cerca de 85 mil profissionais atuando neste campo - o maior esquema já visto na história do país, nas palavras do secretário estadual de Segurança Pública, José Mariano Beltrame. Londres, por exemplo, não usou nem metade dessa força em 2012.

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