Experiência contra o ebola pode ajudar Brasil no combate ao zika

Nádia Pontes, de São Paulo

Pesquisadores senegaleses que lutaram contra a epidemia do ebola na África Ocidental treinam brasileiros para vencer surto do zika. Especialistas trazem consigo maleta com sistema para diagnóstico rápido do vírus.

Com um time enxuto e um laboratório que cabe numa maleta, o pesquisador senegalês Amadou Alpha Sall chegou ao Brasil para ajudar cientistas a combater o surto do vírus zika, que pode ter causado mais de 3.530 casos de microcefalia em recém-nascidos no país desde o ano passado.

Sall, diretor científico do Instituto Pasteur em Dacar, capital do Senegal, atuou na linha de frente da luta contra a epidemia de ebola na África Ocidental. De São Paulo, o time de cinco pesquisadores senegaleses, em parceria com o Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP), seguiu na semana passada para Recife, em Pernambuco, estado que soma mais de 1,2 mil casos de microcefalia possivelmente causada pelo vírus.

A maleta especial carregada pelos senegaleses é equipada com um sistema que identifica o vírus numa amostra de sangue em 15 minutos, desenvolvido pela equipe de Dacar com a ajuda de colaboradores. O método foi fundamental para conter a epidemia de ebola, e agora pode ser uma peça-chave contra o zika no Brasil.

O laboratório compacto foi adaptado para detectar em pacientes o vírus que pode estar por trás do aumento brutal dos casos de microcefalia no país. O equipamento pode ser levado a lugares remotos - em comunidades onde não existe rede elétrica, pode ser conectado a placas solares, por exemplo.

"Viemos treinar as pessoas para que tenham uma plataforma para detectar o vírus. Se você não pode detectar o vírus, você não sabe se a epidemia está progredindo, estabilizando ou caindo", disse Sall à DW Brasil.

O equipamento custa 8 mil euros, cerca de 35 mil reais, mas poderia ser desenvolvido no Brasil a um custo menor, acredita Paolo Zanotto, professor da USP que atua em projetos com Sall há pelo menos 15 anos.

Segundo o Ministério da Saúde, atualmente a circulação do zika é confirmada por meio de um teste biomolecular chamado PCR. Além de complexo, o método consegue detectar a presença do vírus no corpo humano numa janela de tempo muito curta - no máximo até cinco dias depois dos primeiros sintomas.

A importância de descobrir o zika rapidamente

A extensão exata do surto do zika no Brasil ainda é desconhecida. Isso porque os infectados, principalmente as gestantes, nem sempre apresentam sinais. No país, o zika é transmitido pela picada do mesmo mosquito vetor da dengue e da febre chikungunya, o Aedes aegypti.

"A situação com o zika é muito complicada, porque em 70% dos casos de microcefalia registrados no Recife, por exemplo, a mãe não teve manifestação de doença durante a gravidez. São casos assintomáticos", comenta Zanotto.

Quando aparecem, os sintomas mais comuns são febre, náusea, diarreia, dor de cabeça, dor no corpo e nas articulações. Irritação na pele (exantema) seguida de coceira pode ocorrer no rosto, tronco e nos membros. É o que os pesquisadores chamam de fase virêmica.

"É nesse momento que é preciso interferir na vida da pessoa, ir até a casa dela, pegar os mosquitos que estão ali", afirma Zanotto. "A detecção do virêmico é crucial, fundamental para se ter mecanismos de controle de vetor eficientes."

O chefe da equipe senegalesa acredita que o método mais eficiente de controle do surto seja a identificação e isolamento dos pacientes infectados. Zanotto concorda: "As pessoas acham que controlar o vetor é matar o mosquito. Controlar o vetor é controlar a pessoa virêmica, porque é o ser humano que infecta o mosquito. Uma vez infectada, a pessoa vira um repositório do vírus."

Um zika adaptado

Pesquisadores brasileiros suspeitam que a linhagem do vírus que assola o Brasil tenha vindo da Polinésia Francesa. Segundo Zanotto, quando o aumento da microcefalia começou a ser relatado no Brasil, pesquisadores na Polinésia voltaram a avaliar o que aconteceu por lá em 2013 e 2014 e encontraram uma quantidade de mães com filhos microcefálicos muito acima da série histórica.

O zika é de origem africana e, até 2007, ocorria apenas em macacos, sem causar grandes problemas para humanos. Cientistas acreditam que, conforme o vírus foi se espalhando pelo globo, uma espécie de adaptação genética fez com ele ficasse mais perigoso para as pessoas.

Embora a ocorrência do zika no país esteja associada ao aumento dos casos de microcefalia, a ciência ainda não conseguiu explicar como essa relação acontece. "Além da Polinésia e do Brasil, ninguém fez até agora uma relação muito clara entre zika e microcefalia. Ainda não temos evidência científica de que o zika está causando microcefalia. Mas os dois fatores estão muito fortemente associados em tempo e espaço", explica Sall.

O medo entre gestantes

Para afastar o risco, o uso de repelente é recomendado, principalmente para gestante. Por causa da demanda, algumas farmácias chegaram a limitar a quantidade de repelente que vendiam por cliente em cidades do interior e na capital paulista.

"Moro em apartamento, mas uso repelente em casa", diz Zuleica Stefania Sabino, grávida do segundo filho. "Meu médico falou sobre o uso do repelente. Estou preocupada, mas tento não ficar neurótica", comenta Viviane Gomes, que aguarda a chegada do terceiro filho.

A princípio, a equipe de Sall ficará no Brasil por um mês nessa força-tarefa para decifrar a ação do vírus. "Com o ebola, aprendemos que é possível saber quando um surto começa, mas nunca quando ele acaba", diz o senegalês.

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