Opinião: A política de interesses de Merkel e Davutoglu

Jens Thurau

Você me ajuda na crise dos refugiados, e eu lhe dou dinheiro e reconhecimento: o que a chanceler alemã e o premiê turco fizeram em Berlim foi realpolitik na versão "toma lá, dá cá", opina o jornalista Jens Thurau.

Grande recepção para o governo turco em Berlim: a chanceler federal alemã, Angela Merkel, recebeu não apenas seu homólogo de Ancara, o primeiro-ministro Ahmet Davutoglu, como também o mais importante ministro dele. Ela mesma trouxe consigo seu vice-chanceler, seu ministro do Exterior e outros membros de seu gabinete.

Chama-se isso de consultas intergovernamentais, que a Alemanha cultiva com apenas nove Estados. Estes não precisam ser sempre aliados próximos: são realizados tais encontros de primeiro escalão com a China, a Índia e também com a Rússia, mas não com os Estados Unidos. Uma coisa é certa: em consultas intergovernamentais há interesses claros em jogo.

Merkel sempre olhou para a Turquia com ceticismo. O novo nacionalismo islâmico com o presidente Recep Tayyip Erdogan à frente é algo estranho para ela. Ela sabe das violações de direitos humanos, do controle sobre jornalistas, da dura repressão aos curdos no sudeste do país.

Mas Merkel também sabe que 2016 pode se tornar o ano mais importante de seus 11 anos de chanceler federal. Ela precisa encontrar uma solução para a questão dos refugiados, que a coloca sob pressão interna mais do que qualquer outro assunto. E a Turquia desempenha um papel-chave nesse contexto.

Só a Turquia pode fazer com que o número de refugiados, sobretudo da Síria, diminua significativamente. Para que Ancara faça isso, os países da União Europeia (UE) já prometeram 3 bilhões de euros aos turcos há algumas semanas. Agora, numa entrevista, Davutoglu pediu abertamente ainda mais.

Ele não repetiu isso na presença de Merkel, e nem precisaria, pois a demanda está no ar. Até agora, e isso mostra como a UE está paralisada neste momento, Ancara não recebeu dinheiro algum para construir alojamentos para os refugiados e melhorar a vigilância nas fronteiras.

Curiosamente, as negociações para o ingresso da Turquia na UE, há tempos congeladas, quase não foram mencionadas na entrevista conjunta à imprensa, concedida após as consultas intergovernamentais. A chanceler federal mencionou, embora apenas marginalmente, o tratamento muitas vezes hostil dado pelo Exército turco aos curdos no sudeste do país. Davutoglu, por sua vez, explicou detalhadamente como a Turquia está do lado da Alemanha na luta contra o terrorismo do "Estado Islâmico". No momento isso de fato é assim, sobretudo depois dos terríveis e recentes ataques, mas era bem diferente há poucos meses, quando os curdos eram os principais inimigos de Ancara.

É perceptível o fato de que a Turquia busca reconhecimento pela Europa, quer ser levada a sério. Agora isso se dá por meio da pressão representada pelos muitos refugiados. E, para Merkel, Ancara é um fator decisivo nestas semanas decisivas para o seu mandato. Chama-se isso de política de interesses - de ambos os lados.

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