Desapontados, refugiados começam a deixar Áustria

Alison Langley, de Viena (md)

Frustrados com as condições locais, onde têm que viver em abrigos superlotados e com a sensação de não serem bem-vindos, migrantes estão saindo do país em número recorde, retornando para suas pátrias.

Mohammed* se desmancha em lágrimas quando ouve um rapaz de 14 anos, em cadeira de rodas, falar sobre a mãe. O menino, que é curdo, diz, em alemão quase perfeito, que ele e seu pai chegaram à Áustria um ano atrás, em busca de assistência médica.

Eles receberam proteção subsidiária - espécie de asilo que lhes permite ficar um ano, com a possibilidade de renovação -, mas sua mãe não tem permissão para ir se juntar a eles. Ele e seu pai estão na Verein Menschenrechte - ONG local de defesa dos direitos humanos - em busca de ajuda.

"Minha mãe está doente", diz o garoto, enquanto Mohammed, de 22 anos, ouve e começa a chorar. "Ela sente saudades de mim e chora sempre que nos falamos via Skype. A pressão dela subiu." O menino conta que veio para a Áustria para começar uma nova vida e para que a mãe tivesse orgulho dele. Em vez disso, ele está voando de volta ao Iraque, com um casaco novo e os sonhos destruídos.

E ele não está sozinho. Um número recorde de migrantes está voluntariamente deixando a Áustria, impaciente com a vida em um limbo - sem permissão para trabalhar, aprender alemão, para viver uma vida normal - e sentindo falta de suas famílias.

"Em janeiro, a organização humanitária ajudou 347 pessoas a deixar o país, a maioria, homens do Iraque", contabiliza Gunter Ecker, diretor da associação.

Em 2015, eles ajudaram cerca de 2.500 pessoas a voltar para casa. Ecker prevê que neste ano esse número será quase o dobro. A Verein Menschenrechte trabalha com a Organização Internacional para Migração para obter documentos de viagem e passagens.

"Bem-vindos à Áustria"

E parece estar muito bem para a ministra do Interior da Áustria, Johanna Mikl-Leitner, que disse querer tornar o país pouco atraente para migrantes. O objetivo dela é enviar de volta ao menos 50 mil ao longo dos próximos três anos.

A ministra conservadora tem sido criticada pela lentidão em arranjar alojamento adequado para os recém-chegados, após o grande afluxo de refugiados do ano passado. Tendas levantadas em Linz, em março passado, produziram manchetes na época. Os austríacos se perguntaram como uma nação tão rica quanto a deles não conseguia tratar refugiados com humanidade.

Um time de voluntários foi cumprimentar os migrantes, enquanto os líderes do país se mantiveram distantes. Eles passaram o verão distribuindo alimentos, roupas e abrigos, juntamente com sorrisos largos, para fazer os recém-chegados se sentirem bem-vindos. Instituições de caridade como Caritas e Diakonie organizaram os voluntários e recolheram doações. Algumas famílias abriram suas casas. A notícia de que eles eram bem-vindos se espalhou.

No verão passado, Mohammed deixou a Turquia, onde tinha trabalhado durante os 18 meses anteriores, e veio para a Áustria. Seu objetivo era ir para a universidade e estudar engenharia. Ele havia deixado Bagdá em busca de trabalho para sustentar a família, mas na verdade ele queria uma vida melhor do que era possível com os bicos eventuais que conseguia.

Seis meses atrás, ele pagou mais de 4 mil euros a traficantes de pessoas para chegar à Áustria. Foi um caminho árduo, mas ele achava que valeria a pena. Depois de passar alguns meses em centros de acolhida, criticados por grupos de direitos humanos, como a Anistia Internacional, devido à superlotação e às condições precárias, Mohammed foi enviado para Poysdorf, na Baixa Áustria, onde viveu em uma casa para refugiados.

Ele diz que as pessoas eram boas no lugar, mas ele ficou entediado. Duas vezes por semana, voluntários vinham ensinar alemão. Fora isso, ele disse que era deixado com seus próprios pensamentos. Nenhum trabalho; nenhuma escola; nenhum dinheiro. E sua mãe, chorando do outro lado da conexão por internet. A Verein ajudou a organizar um voo de retorno a Bagdá.

"Ele tem sorte", comentam dois homens que acabavam de chegar à associação sem ter hora marcada e não quiseram se identificar, temendo represálias. Eles dizem estar morando há quatro meses no ginásio esportivo Ferry Dusika, localizado nos arredores de Viena, onde, segundo eles, só há um banheiro funcionando, a comida é ruim, eles não recebem qualquer aula de alemão e não têm privacidade.

A quantia mensal de 40 euros a que cada requerente de asilo tem direito não chegou. Os imigrantes afirmam que perguntam pelo dinheiro, mas que sempre recebem um "amanhã" como resposta e que seus pais lhes enviam ajuda do Irã.

"Vida diferente"

Schara Magied, uma consultora de direitos humanos que trabalha na ONG desde que foi fundada, em 2004, conta que, pela manhã, o escritório se enche rapidamente de pessoas que querem saber de seus direitos. Algumas estão fartas e querem voltar. Outras, como os dois iranianos, estão preparadas para aguentar as condições, pelo menos por enquanto. Eles não querem retornar, temendo represálias em Teerã.

Farhad*, de 31 anos, não se importa mais. Ele vai voltar ao Irã. Em dezembro passado, depois de pagar vários traficantes um total de 4.750 euros ao longo da rota dos Bálcãs, ele diz que foi recusado na fronteira alemã, mas não sabe o porquê. Era véspera de Ano Novo, ele esperava passar a noite celebrando um novo começo de vida em um novo país. Em vez disso, teve que passar a noite na fronteira, em uma tenda da Cruz Vermelha.

Najafi não quis esperar, indo para Salzburgo, de onde partiu alguns dias mais tarde para tentar entrar na Alemanha pela segunda vez. Naquela vez, era tarde da noite. Ele foi, então, levado por policiais para outra tenda. Ele afirau que ninguém lhe disse que ele poderia pedir asilo na Áustria, mas somente que ele havia infringido a lei e que seria preso no dia seguinte.

*Nomes alterados pela redação.

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