Batalha por Aleppo encerra negociações de paz, diz especialista

Christoph Ricking (md)

Para cientista político, diplomacia dos EUA fracassou ao entrar nas conversações sem exigências prévias. Agora, com a ofensiva de Assad e da Rússia contra Aleppo, elas viraram de vez uma farsa, afirma.

"A atual ofensiva e especialmente a batalha por Aleppo são basicamente o último prego no caixão das conversações em Genebra", afirmou o cientista político André Bank, do Instituto Giga para Estudos do Oriente Médio, de Hamburgo, em entrevista à DW.

O analista avaliou que o cerco à cidade e sua possível retomada pelas forças do presidente Bashar al-Assad condena as negociações para a paz na Síria ao fracasso. "A ofensiva contínua das forças de Assad, juntamente com a Força Aérea russa, com o apoio do Irã e de várias milícias xiitas, já tornaram uma farsa essas negociações de paz", disse.

Ele afirmou ainda que a diplomacia dos Estados Unidos fracassou "ao entrar na terceira rodada das conversações de Genebra sem exigências prévias e fazendo concessões ao lado russo e ao governo sírio".

DW: Se as tropas de Assad tomarem Aleppo, qual seria o impacto disso sobre a guerra civil na Síria?

André Bank: O impacto seria muito forte. Pela primeira vez desde 2012, as tropas de Assad passariam a controlar uma área que vai da capital, Damasco, passando por Homs, no centro da Síria, pelo noroeste sírio, indo até a metrópole de Aleppo, no norte. Assim, o regime voltaria a controlar uma área muito grande e populosa da Síria. Mas isso não significaria o fim da guerra civil.

A oposição síria espera agora ajuda militar de países como a Arábia Saudita ou os Emirados Árabes Unidos. Qual a probabilidade de serem enviadas tropas terrestres árabes?

Eu continuo achando que isso seja muito pouco provável. A Arábia Saudita só poderia agir como parte de uma aliança liderada pelos Estados Unidos. E forças terrestres dos EUA, possivelmente em coordenação com forças terrestres europeias, são, na minha opinião, muito improváveis, apesar da péssima situação dos direitos humanos e da guerra em si. Principalmente o presidente Barack Obama, no último ano de seu mandato, não defenderia uma intervenção militar tão precária.

Quais as consequências da ofensiva de Assad para as conversações de paz em Genebra, que foram suspensas até 25 de fevereiro?

A atual ofensiva e especialmente a batalha por Aleppo são basicamente o último prego no caixão das conversações em Genebra. A ofensiva contínua das forças de Assad, juntamente com a Força Aérea russa, com o apoio do Irã e de várias milícias xiitas, já tornaram uma farsa essas negociações de paz. A isso soma-se o fato de que há fortes discordâncias dentro da oposição. Por tudo isso, a atual rodada de conversações em Genebra já havia representado uma espécie de vitória simbólica para o regime de Assad. E agora, sob essas condições, não vai ocorrer uma retomada séria das negociações.

Então a diplomacia ocidental fracassou?

A diplomacia dos EUA fracassou ao entrar na terceira rodada das conversações de Genebra sem exigências prévias e fazendo, assim, concessões ao lado russo e ao governo sírio. Uma limitação significativa de ataques aéreos por parte de Assad e da Rússia teria sido necessária para dar à oposição mais confiança em relação ao processo de negociação.

Qual a influência da batalha por Aleppo sobre a crise dos refugiados?

Ela tem um impacto enorme. Devemos ter em mente que Aleppo é a maior cidade da Síria, com quatro milhões de habitantes, e que lá ainda vivem centenas de milhares, apesar das batalhas devastadoras. Muitos deles já partiram em direção à fronteira com a Turquia devido à nova ofensiva. Seria irresponsável não abrir a fronteira na região e não prestar assistência rapidamente, para que as pessoas possam obter uma certa proteção pelo menos na Turquia.

A Força Aérea da Rússia e as forças do governo sírio atacam principalmente as forças de oposição. Em que essa ofensiva beneficia o "Estado Islâmico"?

O "Estado Islâmico" é beneficiado a partir do momento em que não é mais atacado por forças do governo sírio, pela Rússia ou pelo Irã. De qualquer forma, ele quase não vinha sendo atacado antes, mesmo. Por outro lado, os ataques da aliança contra o EI, nos quais a Alemanha começou a se envolver, na sequência dos ataques de Paris em novembro, foram muito ampliados. Eles fizeram com que a área sob domínio do EI tenha encolhido, tanto na Síria como no Iraque, no ano passado e mesmo nos últimos meses.

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