"Negociações são duras, mas valem a pena", afirma enviado da ONU para Síria

Sumi Somaskanda (md)

Em entrevista à DW, Staffan de Mistura diz estar satisfeito com o acordo alcançado em Munique, mas alerta que é necessário ter cautela e esperar que os compromissos assumidos sejam de fato implementados.

Em entrevista à DW, Staffan de Mistura, enviado especial da ONU para a crise síria, disse estar satisfeito com o acordo alcançado nesta sexta-feira (12/02) em Munique, prevendo suspensão das hostilidades e acesso de ajuda humanitária à população do país.

Entretanto, ele ressalta ser necessário ter cautela e esperar os próximos dias, para saber se os compromissos assumidos pelas partes envolvidas no conflito serão cumpridos. "A próxima semana será crucial", sublinha o italiano.

DW: Na sua opinião, este acordo é um avanço?

Staffan de Mistura: Bem, é certamente um avanço no sentido de que desta vez não é uma declaração, mas é um compromisso. E um compromisso feito por aqueles que podem cumprir tal compromisso. Agora, é claro, se você quiser chamar isso de um avanço, está bem. Mas eu esperaria um momento, até que esse compromisso seja testado.

Como John Kerry disse e como Serguei Lavrov disse, existem duas tarefas a serem cumpridas. Ambas são cruciais para o povo sírio. Uma deles é se podemos obter o acesso à ajuda humanitária, sim ou não. Em segundo lugar, se podemos entrar nas áreas sitiadas, sim ou não. E se isso está acontecendo, isso significa que deve haver uma redução ou uma suspensão das hostilidades. Porque isso não é causado por mau tempo, mas por uma guerra. E as bombas têm que parar. Caso contrário, os comboios não podem chegar ao seu destino. Estes são os dois testes, e temos uma semana para eles. Esse é o real avanço: estipular um calendário.

O senhor chamou isso de um compromisso. E o papel da Rússia? Moscou continua sua campanha de bombardeios. A Rússia está ajudando ou atrapalhando o caminho?

Bem, se você considerar o que ouvimos ontem, Moscou está ajudando no sentido de que eles são parte do compromisso. Agora, é claro, Moscou tem muita influência sobre o governo da Síria.

Em segundo lugar, a Rússia está militarmente envolvida na Síria. Então, quando falamos sobre o cessar das hostilidades, isso também se aplica a Moscou. Mas não só. Há também o outro lado. É por isso que a próxima semana será crucial, porque a Rússia e os EUA estarão presidindo um grupo especial de trabalho e preparando a implementação desse compromisso. Moscou tem influência sobre alguns players, Washington tem influência sobre outros. Esse será o teste.

Há muitas partes envolvidas, incluindo Irã e Arábia Saudita. A rivalidade entre eles pode arruinar o acordo?

Tudo é possível. Devemos ser cautelosos. Porque você sabe muito bem que depois de cinco anos, não devemos nunca deixar de ser cautelosos. Mas acho que este é o melhor momento para testar a vontade daqueles que se comprometeram aqui ontem [madrugada desta sexta]. Você sabe que não há solução real. Mesmo se houvesse uma vitória militar de um lado, o segredo é como você realmente pode estabilizar o país? Como você pode reconstruí-lo? E, a propósito, não há vitória. Você pode ganhar uma batalha, mas você não pode mais vencer uma guerra na Síria.

Na verdade, todos acreditamos que todos entendem isso. É por isso que a próxima semana será um grande teste. Mas eu vejo isso como um teste positivo. E, nesse sentido, tenho de concordar com o ministro do Exterior da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, a quem eu quero agradecer, em nome da ONU. Ele tem dado um forte apoio ao que a ONU está tentando fazer nesse contexto.

Uma parte fundamental em qualquer solução vai ser a oposição síria. O senhor conhece os representantes dela muito bem. O que é necessário para que eles concordem com um cessar-fogo de longo prazo?

Eu acho que eles já disseram porque se sentem desconfortáveis em estar nas conversações de Genebra. Eles disseram que sentem como se estivessem em negociações sem qualquer impacto concreto sobre o povo sírio, com algo que eles possam mostrar para o povo sírio, fazendo a participação deles parecer fútil. E, basicamente, eles levantaram a questão do acesso humanitário às áreas sitiadas e a suspensão das hostilidades. Mas é evidente que isso se aplica a eles também. Eles não podem simplesmente pedir a suspensão das hostilidades; eles também têm que oferecer sua própria parte. E acho que o que aconteceu ontem também vai desafiá-los. Você é capaz de parar suas hostilidades se os outros fazem o mesmo? E eu quero acreditar que seja possível.

O senhor já sublinhou no passado a importância que as conversações de Genebra têm. Este acordo é motivo de esperança?

Sim, é. Porque as conversações de Genebra - e o secretário-geral da ONU disse isso e eu também disse isso muitas vezes - não podem ser conversas sobre conversas. Nós já passamos por duas conferências de Genebra, e 260 mil pessoas foram mortas e um milhão foram feridas. O povo sírio merece saber que, quando começamos a conversar, é sobre coisas sérias, e que eles verão os benefícios in loco.

E nós também precisamos e merecemos sentir que tudo isso vale a pena.

A verdade é que o que aconteceu ontem certamente faz eu me sentir mais confortável para relançar as negociações sobre a Síria, mas só depois de vermos que os testes estão sendo realizados: o acesso humanitário e um cessar-fogo, ou a cessação das hostilidades. Isso é o que o povo sírio está pedindo, e o que todos nós estamos pedindo.

O senhor tem sido parte desse processo há meses. Qual foi a dificuldade para chegar a este ponto?

Foi muito difícil. Mas valeu a pena. E devo dizer que eu quero prestar homenagem a John Kerry e Serguei Lavrov porque - apesar de suas grandes diferenças, que ainda existem a respeito de muitas coisas - eles têm sido capazes de se sentar à mesma mesa e ajudar aqueles sobre os quais eles têm influência a também se sentar à mesa: Arábia Saudita, Irã, Turquia, Catar, Rússia e os EUA. E eles estiveram todos lá durante seis horas, falando sobre como resolver os problemas na Síria - o que é uma conquista. Foi doloroso, por muito tempo, mas tem valido a pena.

E qual seria a alternativa? Voltar para onde estávamos antes? Não.

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